Pastagens bem manejadas: o caminho para produzir mais sem desmatar

Empresas e instituições de pesquisa unem forças para adaptar a atividade pecuária às práticas que preservam áreas plantadas. Elas também permitem melhorar a produtividade, além de ampliar o leque de oportunidades econômicas.

Por Rafael Motta em 7 de abril, 2026

Atualizado: 06/04/2026 - 11:08

Pastagens bem manejadas com vegetação verdejante, cercadas por árvores e gado pastando
Foto: Minerva Foods

A adoção de pastagens bem manejadas – rotacionadas, adubadas e com forragem de alto valor nutritivo – é uma das estratégias mais eficientes para aumentar a produtividade da pecuária de corte por hectare e ainda reduzir a pressão pela abertura de novas áreas.

Em um cenário em que 28 milhões de hectares de pastagens estão em níveis intermediários ou severos de degradação, como revelam os dados da Embrapa sobre o Brasil, ela se torna ainda mais relevante. A situação se destaca em estados como Mato Grosso, Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Pará, intensivos em atividades agrícolas.

Além dos impactos ambientais, o outro lado desta realidade é o impacto negativo sobre a produtividade. O manejo inadequado do solo compromete a capacidade de suporte das pastagens, ou seja, a quantidade de animais que uma área consegue sustentar de forma saudável e contínua. Com a perda dessa capacidade, muitos produtores passam a enxergar a abertura de novas áreas como solução para manter ou alimentar o rebanho, ainda que existam alternativas mais eficientes e sustentáveis, como a recuperação de áreas degradadas por meio da adoção de técnicas como sistemas de integração (como Lavoura-Pecuária-Floresta), que restauram a saúde do solo e, consequentemente, aceleram a engorda do boi.

Especialistas da Aegro apontam que a produção pode saltar de 2 arrobas (em um pasto degradado) para até 12 arrobas por hectare/ano (em um pasto recuperado e bem manejado). Isso representa um aumento de 500% na engorda do boi, sem a necessidade de expandir áreas. Esse salto ocorre graças a práticas como:

  • Rotação de pastagens, que permite descanso e rebrota adequada das plantas de cobertura;
  • Adubação e correção do solo, que repõem nutrientes essenciais;
  • Controle de espécies de plantas invasoras e ajuste da lotação animal, evitando o superlotação;
  • Recuperação direta ou indireta, com uso de culturas agrícolas para restaurar a fertilidade e acelerar a geração de matéria orgânica.

ILPF: integração que transforma a área rural

Entre as estratégias mais promissoras, destaca-se a ILPF (Integração Lavoura-Pecuária-Floresta), que combina diferentes sistemas produtivos na mesma área ao longo do ano. Esse modelo melhora a fertilidade do solo, aumenta a ciclagem de nutrientes, reduz a erosão do solo e amplia a biodiversidade, além de proporcionar maior conforto térmico aos animais e, em alguns casos, novas fontes de renda.

Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária, a ILPF permite a restauração de áreas degradadas, além de reduzir a necessidade de agroquímicos. Esse conjunto de ações, se bem executado, também traz benefícios financeiros aos produtores, pois permite maior previsibilidade nos ganhos financeiros ao longo do ano. Além disso, o sistema contribui para o balanço positivo de carbono, já que as árvores e o solo capturam CO₂ (dióxido de carbono) que seria emitido para a atmosfera. 

Protocolos de manejo ao redor do Brasil

Fazenda com pastagens bem manejadas, com gado branco descansando em um campo verde
Foto: Minerva Foods

Devido à grande diversidade climática e de solos, há a necessidade de adaptar os sistemas de produção de acordo com a região. Empresas e instituições de pesquisa, como Embrapa e Rede ILPF, têm desenvolvido cultivares de espécies forrageiras adaptadas – técnicas de plantio direto em pastagens, além da integração de modelos de recuperação que incorporam agricultura temporária em formação de pasto. O sistema Santa Fé é um dos exemplos de técnicas incorporadas no Cerrado, como mostra essa matéria.

Já na região norte, para intensificar a pecuária sem desmatar na região da Amazônia, conforme abordado pelo projeto Amazônia 2030, utilizam-se sistemas como o pastejo rotacionado (divisão do pasto em áreas menores), cruzamento para melhorar a genética, inseminação artificial e terminação  em currais (piquetes) em tempo parcial (semiconfinamento) ou integral (confinamento), com alimentação à grãos e outros, depois de passar a maior parte da vida no pasto. Nestes casos de confinamento e semiconfinamento, a fase de engorda chegou a ser entre 11 e 23 vezes mais produtiva do que nas fazendas tradicionais de baixa produtividade

No Sudeste, a maximização da produção de massa verde (forragem total produzida naturalmente na pastagem) tem na adubação nitrogenada uma boa prática que também amplia a qualidade da pastagem, embora a prática demande disponibilidade hídrica e temperaturas mais altas. No estado de São Paulo, a Embrapa Pecuária Sudeste recomenda que ela seja feita entre os meses de março e outubro, quando o clima está mais quente e há maior incidência de chuva. “O nitrogênio é um dos nutrientes essenciais para o desenvolvimento das plantas, juntamente com o fósforo (P) e potássio (K). O N proporciona aumento da produção de pastagem e, consequentemente, possibilita elevar o número de animais por hectare”, diz a publicação.

No Nordeste semiárido, as condições de manejo também são específicas. Por isso, sistemas de captação de água da chuva, como barragens subcutâneas, fazem parte das práticas recomendadas para criar a infraestrutura hídrica necessária para o manejo sustentável, que contempla práticas agroecológicas, como a rotação de culturas, cultivos consorciados (prática de cultivar duas ou mais espécies vegetais na mesma área simultaneamente ou com sobreposição de ciclos) e adubação orgânica com o uso de esterco ou outros componentes, conforme o documento Tecnologias de Convivência com o Semiárido Brasileiro.

Cultivares de capins adaptados, plantio direto em pastagens, recuperação indireta com agricultura e Integração Lavoura-Pecuária-Floresta são estratégias que, desde que bem aplicadas pelos produtores, são capazes de proporcionar uma pecuária mais produtiva, sustentável e alinhada aos padrões internacionais de conservação ambiental. 

Fontes de referência


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