Uruguai avança nos manejos de solo e carga animal

O país vizinho mira nos produtores familiares para que seus processos se adequem às exigências internacionais

Por Rafael Motta em 2 de abril, 2026

Atualizado: 17/08/2026 - 21:24

Bandeira do Uruguai hasteada sob céu nublado, representando as práticas de manejos de solo do país
Foto: mimi ragab / Shutterstock

Navegue pelo conteúdo:

Buscando aliar o bem-estar familiar à preservação ambiental, o projeto uruguaio “Ganadería y Clima”, promovido pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) em parceria com ministérios locais, demonstrou que a implementação de práticas pecuárias climaticamente inteligentes em campos nativos permite obter resultados financeiros e ecológicos expressivos.

Cerca de 60% das famílias produtoras conseguiram elevar sua renda líquida significativamente, segundo relatório da FAO, de 2022. Os resultados mostram uma redução média de 7% nos custos, bem como um aumento médio na renda de aproximadamente 50% logo no primeiro ano do projeto. Além disso, a produção de gado por hectare aumentou em média 10,3% e a de ovelhas, 15%.

O processo de transformação começou com o apoio de extensionistas rurais, consultores profissionais que trabalham individualmente com as famílias (mais de 60 no total) para analisar a situação de cada fazenda, identificar suas metas e apoiá-las no atingimento delas. Como muitas propriedades sofriam com baixa produtividade devido à escassez de forragem para o rebanho e incidência de solos degradados, os produtores aprenderam estratégias focadas em melhorar o solo e gerir os recursos naturais de forma mais sustentável. O grande trunfo foi conseguir aumentar a disponibilidade de forragem, o que se provou fundamental para melhorar a eficiência de todo o sistema, mesmo enfrentando condições climáticas adversas recentes, como secas severas e escassez de água.

O planejamento forrageiro consiste na técnica de ajustar a quantidade de forragem oferecida à condição corporal dos animais e evitar o sobrepastoreio. Dessa forma, o gado não fica alocado por muito tempo em uma mesma área ao  ponto de degradá-la. Assim, aumenta-se o potencial da regeneração natural da cobertura vegetal, o consequente aumento da área de fotossíntese das pastagens e a retenção de carbono nas folhas e raízes das plantas.

Essa combinação de fatores resultou na redução de 16% na intensidade das emissões de gases de efeito estufa por quilo de carne, provando que a adaptação climática caminha lado a lado com a eficiência produtiva. Além de mitigar as emissões, essa prática também gerou um aumento visível na flora, na presença de pássaros e na biodiversidade geral das propriedades.

Simbiose internacional

Bois uruguaios em campo aberto com cercado ao fundo, representando a simbiose internacional entre tecnologia e manejo de campo
Foto: Martin Bianco Ricci / Shutterstock

O case de sucesso mostra que a pecuária do futuro não precisa expandir para grandes áreas a fim de manter a produtividade, mas sim, precisa de inteligência aplicada. Para os produtores, isso significa mais arrobas e maior resiliência do rebanho em anos de eventos climáticos extremos; já para o setor como um todo, o avanço está associado à consolidação de modelos produtivos que combinam desempenho econômico com redução da pegada ambiental e geração de valor agregado.

No Brasil, o Plano ABC+ (2020 – 2030) se configura como a principal política pública alinhada, em alguma medida, ao modelo uruguaio, ao articular metas produtivas e compromissos climáticos. Coordenado pelo Ministério da Agricultura, ele promove tecnologias que aumentam a produtividade ao mesmo tempo em que reduzem emissões de GEE.

Seus principais eixos são a recuperação de pastagens degradadas, Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), manejo sustentável, fixação biológica de nitrogênio no solo, florestas plantadas e sistemas agroflorestais. A operacionalização ocorre, sobretudo, por meio de instrumentos econômicos e financeiros, com destaque para linhas de crédito específicas no âmbito do Plano Safra, alinhadas às metas nacionais de mitigação climática.

Apesar das convergências em termos de diretrizes, há diferenças estruturais entre os planos ABC e Ganaderia: enquanto o governo uruguaio mira diretamente nos produtores familiares, oferecendo assistência técnica contínua e monitoramento ambiental detalhado, o brasileiro funciona como uma política de caráter abrangente, contemplando diferentes perfis de produtores e sistemas produtivos, com maior flexibilidade, porém menor grau de direcionamento individualizado.

Dúvidas mais comuns

Pecuária climaticamente inteligente é um modelo de produção que integra práticas sustentáveis para aumentar a produtividade enquanto reduz emissões de gases de efeito estufa. No projeto uruguaio 'Ganadería y Clima', essa abordagem combinou manejo adequado do solo, gestão eficiente de recursos naturais e planejamento forrageiro, resultando em redução de 16% na intensidade das emissões por quilo de carne e aumento de 50% na renda das famílias produtoras.

O planejamento forrageiro consiste em ajustar a quantidade de forragem oferecida conforme a condição corporal dos animais, evitando o sobrepastoreio. Essa prática impede que o gado permaneça muito tempo em uma mesma área, permitindo a regeneração natural da cobertura vegetal, aumentando a fotossíntese das pastagens e a retenção de carbono. Como resultado, aumenta-se a disponibilidade de forragem, melhora-se a eficiência do sistema produtivo e reduzem-se as emissões de gases de efeito estufa.

O projeto demonstrou resultados expressivos: cerca de 60% das famílias produtoras elevaram significativamente sua renda líquida, com redução média de 7% nos custos e aumento médio de 50% na renda já no primeiro ano. Além disso, a produção de gado por hectare aumentou em média 10,3% e a de ovelhas, 15%, comprovando que a inteligência aplicada ao manejo pecuário gera tanto desempenho econômico quanto ambiental.

Os extensionistas rurais são consultores profissionais que trabalham individualmente com as famílias produtoras para analisar a situação de cada fazenda, identificar metas e apoiar seu atingimento. No projeto uruguaio, eles foram fundamentais para orientar os produtores sobre estratégias de melhoria do solo, gestão sustentável de recursos naturais e planejamento forrageiro, transformando propriedades com baixa produtividade em sistemas mais eficientes e resilientes.

Além de mitigar emissões de gases de efeito estufa, as práticas de pecuária climaticamente inteligente geram aumento visível na flora, na presença de pássaros e na biodiversidade geral das propriedades. O manejo adequado do solo e o planejamento forrageiro permitem a regeneração natural da vegetação, criando um ambiente mais equilibrado que beneficia tanto a produção quanto o ecossistema local.

Ambos os planos promovem tecnologias que aumentam produtividade e reduzem emissões, mas diferem em sua operacionalização. O governo uruguaio mira diretamente nos produtores familiares, oferecendo assistência técnica contínua e monitoramento ambiental detalhado. Já o Plano ABC+ brasileiro funciona como uma política abrangente, contemplando diferentes perfis de produtores e sistemas produtivos, com maior flexibilidade, porém menor grau de direcionamento individualizado.

A pecuária do futuro não precisa expandir territorialmente, mas sim aplicar inteligência aos processos produtivos. O case uruguaio demonstra que através de manejo eficiente do solo, planejamento forrageiro adequado e gestão sustentável de recursos naturais, é possível aumentar a produção por hectare, melhorar a resiliência do rebanho em eventos climáticos extremos e gerar valor agregado, combinando desempenho econômico com redução da pegada ambiental.

O Plano ABC+ (2020-2030) tem como principais eixos a recuperação de pastagens degradadas, Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), manejo sustentável, fixação biológica de nitrogênio no solo, florestas plantadas e sistemas agroflorestais. Sua operacionalização ocorre através de instrumentos econômicos e financeiros, com destaque para linhas de crédito específicas no âmbito do Plano Safra, alinhadas às metas nacionais de mitigação climática.