O dia 5 de junho, o Dia Mundial do Meio Ambiente — criado pela ONU em 1972 durante a Conferência de Estocolmo — convida governos, empresas e cidadãos a debater os desafios ambientais do planeta. Nesse contexto, a pecuária bovina quase sempre aparece na conversa como uma das atividades de maior impacto. E, realmente, a atividade tem peso relevante no balanço de emissões brasileiro e no uso do solo. Mas reduzir esse debate a uma sentença genérica de que “a pecuária é poluente” ignora uma distinção fundamental estabelecida pela ciência: o impacto ambiental da pecuária não é fixo. Ele depende do modelo produtivo.
A atividade no debate climático
A pecuária ocupa hoje posição de destaque nas discussões ambientais no Brasil. Estudos e inventários de emissões apontam que a atividade reúne impactos ligados tanto ao desmatamento e à mudança de uso da terra quanto às emissões de metano do rebanho e ao consumo energético da cadeia produtiva. Nesse contexto, o debate deixou de ser apenas “pecuária versus meio ambiente” e passou a considerar uma variável cada vez mais relevante: o modelo de produção adotado. Estudos indicam que práticas como recuperação de pastagens, ajuste da lotação animal e sistemas integrados podem reduzir emissões e ampliar o sequestro de carbono no solo.
Dados do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG), do Observatório do Clima, mostram que a agropecuária respondeu por 29% das emissões brutas do Brasil em 2024, enquanto a mudança de uso da terra representou 42%. A redução do desmatamento foi, inclusive, o principal fator por trás da queda de 16,7% nas emissões nacionais no período.
A outra fonte relevante é a emissão de metano entérico, gás produzido durante a digestão dos ruminantes. Aqui, o modelo produtivo faz toda a diferença. Pesquisas da Embrapa mostram que, mesmo nos biomas onde predominam sistemas extensivos, como Pantanal, Caatinga e Pampa, se o manejo for adequado, os estudos indicam que há sequestro de carbono ao longo dos anos. A emissão de metano pode diminuir com o ajuste do número de animais à oferta de pasto. E em pastagens bem manejadas, a cobertura vegetal, que mantém o solo vivo e a matéria orgânica em formação, atua como sumidouro de carbono, compensando parte das emissões dos animais.
ILPF: quando a pecuária passa a sequestrar mais do que emite

A Integração Lavoura-Pecuária-Floresta(ILPF) combina, na mesma área, lavoura, pastagem e floresta em rotação, integrando diferentes ciclos produtivos para melhorar a fertilidade do solo, ampliar a biodiversidade, aumentar a produtividade por hectare e reduzir a pressão por abertura de novas áreas. Segundo a Rede ILPF, associação público-privada que reúne Embrapa, cooperativas e empresas do agronegócio, cerca de 17 milhões de hectares já adotam algum sistema de integração no Brasil. A meta do Plano ABC+ do governo federal é chegar a 10,1 milhões de hectares com ILPF até 2030.
Um dos avanços mais significativos da pesquisa agropecuária brasileira recente é a demonstração de que a pecuária pode, sob determinadas práticas, ter balanço líquido de carbono negativo, ou seja, sequestrar mais do que emite. Um estudo realizado no maior experimento de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) do país, conduzido pela Embrapa Agrossilvipastoril (MT), mediu o balanço de carbono equivalente de quatro sistemas produtivos ao longo de quatro anos. Em todos eles, o sequestro superou as emissões. O sistema de Integração Pecuária-Floresta (IPF) teve o maior saldo positivo: 51,3 toneladas de CO₂ equivalente por hectare. Já o sistema ILPF completo sequestrou 39,5 tCO₂eq/ha. Mesmo a pecuária em sistema convencional, nas condições controladas do experimento, teve balanço positivo.
Os resultados reforçam uma mudança importante na discussão ambiental sobre a atividade: além de reduzir impactos, determinados modelos produtivos conseguem aumentar o estoque de carbono no solo e na vegetação, especialmente quando associados à recuperação de pastagens e à manutenção da cobertura vegetal.
Pastagens degradadas: o passivo e a oportunidade
Publicação da Agência Gov, dados da Embrapa e do Banco Mundial apontam que, dos 160 milhões de hectares de pastagens no Brasil, cerca de 35 milhões estão em degradação severa, com perda de cobertura vegetal, baixa produtividade e maior vulnerabilidade à erosão. Pastagens degradadas emitem mais carbono, têm menor capacidade de sequestro e menor produtividade por animal, o que leva o produtor a ocupar mais terra para manter o mesmo volume de produção, e também acarreta na necessidade de mais tempo de engorda do gado, o que também causa aumento nas emissões de metano.
A recuperação dessas áreas é uma das estratégias com maior potencial de impacto positivo. Segundo a Embrapa, pastagens recuperadas podem sequestrar mais de 1,0 a 1,5 tonelada de carbono por hectare ao ano, além de proporcionar engorda mais rápida dos animais e maior produtividade por área. Um estudo do Lapig/UFG encomendado pelo Ministério da Agricultura mostrou que, entre 2010 e 2018, o Brasil recuperou 26,8 milhões de hectares de pastagens degradadas — número superior à meta de 15 milhões de hectares estabelecida pelo Plano ABC. A área total com pastagens em degradação severa recuou de 34,3% para 25,2% no período.
Da fazenda à indústria: o modelo produtivo como variável decisiva
O impacto ambiental de um quilo de carne não é o mesmo em todas as fazendas. Ele varia conforme a genética do rebanho, a qualidade da pastagem, a idade de abate, o uso ou não de sistemas integrados e a presença ou ausência de cobertura florestal. Essa variação é documentada e pode ser mensurada.
Em projetos de medição de carbono desenvolvidos em parceria com a Embrapa e o Imaflora, a Minerva Foods avaliou 22 propriedades fornecedoras no Brasil, representando 70 mil hectares e mais de 250 mil cabeças de gado. O resultado: 95% das propriedades tinham emissões abaixo da média nacional e dez eram carbono negativo. A empresa reduziu a idade média de abate em 10 a 12 meses em relação à média brasileira, o que resulta em menos tempo de emissão de metano por animal.
Essas práticas estão formalizadas no Programa Renove, iniciativa da Minerva Foods que apoia produtores na adoção de tecnologias de baixa emissão de carbono, rotação de pastagem, semiconfinamento, ILPF, melhoramento genético, e certifica o balanço de carbono das fazendas participantes com verificação de terceira parte, alinhada ao GHG Protocol e às Diretrizes do IPCC. Em 2023, a empresa também lançou a Linha Zero Carbon Impact, com produtos provenientes de fazendas sem desmatamento nos últimos 20 anos que utilizam créditos de carbono para compensar emissões em todo o processo produtivo, conforme informado no Relatório de Sustentabilidade 2023.
O meio ambiente tem a ver com o “como”, não apenas com o “quê”
A pergunta certa não é “pecuária ou meio ambiente?”. É “que tipo de pecuária?” Uma atividade que desmata, deixa o solo exposto e mantém animais em pastagens degradadas tem impacto ambiental real e significativo. Mas uma atividade que recupera pastagens, adota sistemas integrados, reduz a idade de abate e mantém cobertura florestal pode, ao mesmo tempo, produzir alimento e contribuir para o sequestro de carbono. A ciência já demonstrou que essa combinação é possível. O desafio agora é de escala: tornar esse modelo acessível à maioria dos produtores, especialmente os pequenos e médios, e garantir que as políticas públicas, as linhas de crédito e a demanda do mercado internacional apontem, de forma consistente, nessa direção. Nesse contexto, programas como o Renove, da Minerva Foods, buscam incentivar a adoção de práticas de baixa emissão de carbono por produtores rurais, com apoio técnico voltado à recuperação de pastagens, integração de sistemas produtivos e melhoria da eficiência da produção.
No Dia Mundial do Meio Ambiente, reconhecer esse caminho não é absolver a pecuária de suas responsabilidades. É apostar que a transição é possível e que ela já começou.
Links de referência
- Agência Gov/EBC – Embrapa e Banco Mundial discutem estratégias para o uso sustentável de pastagens em degradação (2023)
- Embrapa Agrossilvipastoril – Sistemas ILPF mitigam emissão de gases de efeito estufa no bioma Amazônia (2023)
- Embrapa – Um novo olhar sobre as emissões da pecuária brasileira
- Embrapa/ATERmais Digital – Recuperação de pastagens degradadas: estratégia para reduzir emissões de GEE
- Minerva Foods – Programa Renove
- Minerva Foods – Relatório de Sustentabilidade 2023
- Ministério da Agricultura e Pecuária – Estudo mostra redução de 26,8 milhões de hectares de pastagens degradadas em áreas que adotaram o Plano ABC (2020)
- My Minerva / Rede ILPF – ILPF é estratégia para reduzir emissões na agropecuária e ampliar acesso ao mercado de carbono
- Observatório do Clima/SEEG – Emissões do Brasil têm a maior queda em 16 anos (2025)
- PNUMA – Dia Mundial do Meio Ambiente 2025 mobiliza compromissos e ações para acabar com a poluição por plástico