Bem-estar animal é geração de valor ao negócio, afirma pesquisadora

Bem-estar animal não é apenas uma pauta ética — é um ativo econômico

Por Márcia Tojal em 10 de julho, 2026

Atualizado: 10/07/2026 - 14:05

Paisagem de campo verde com árvores e um rebanho de bois pastando em área rural, transmitindo bem-estar animal e boas práticas de manejo para geração de valor ao negócio.
Foto: Minerva Foods

Você sabia que mais de 75% das perdas econômicas por qualidade na cadeia de carne bovina uruguaia estão concentradas em hematomas e problemas de pH inadequado ou cortes escuros? Esse dado foi revelado pela 4ª Auditoria de Qualidade de Carne do Uruguai e publicado pelo portal Valor Carne. Conduzido pelo INIA em cooperação com a Universidade de Colorado, o estudo avaliou detalhadamente 3.207 animais em sete frigoríficos exportadores para quantificar perdas do campo ao frigorífico. Os resultados confirmaram que a grande maioria das perdas financeiras de qualidade continua diretamente associada ao manejo e bem-estar animal, tanto no estabelecimento produtor quanto nas etapas pré-abate.

A pesquisadora Dra. Marcia del Campo, cientista principal do INIA Uruguai e responsável por liderar o projeto, defende que os diagnósticos integrados, que agora engloba desde a avaliação de bem-estar no campo até o abate, reforçam uma tese central: o bem-estar animal é, antes de tudo, um elemento estratégico para a geração de valor em toda a cadeia pecuária. 

Perdas milionárias mensuradas ao longo da história

Nesta quarta edição, a auditoria, que dá continuidade a uma metodologia aplicada sistematicamente a cada cinco anos desde 2003 em parceria com a Universidade de Colorado (EUA), revelou que a cadeia uruguaia continua sofrendo perdas milionárias devido a problemas de qualidade. Embora o relatório recente não apresente uma cifra global única em dólares, essa quantificação monetária é uma marca histórica do projeto: a 1ª Auditoria (2002) apontou que o setor deixava de perceber cerca de US$ 58,5 milhões anuais. A 3ª edição quantificou esse prejuízo em cerca de US$ 30 milhões por ano. Na edição mais recente, os hematomas e o pH inadequado (com consequentes cortes escuros) representam, sozinhos, mais de 75% de todo o prejuízo econômico de qualidade identificado.

Todas essas perdas têm origem comum: manejo inadequado no campo, no transporte e no pré-abate, como instalações com pontas e bordas cortantes, uso de choques elétricos em excesso, superlotação nos currais de espera, jejum prolongado, viagens longas sem descanso e condutores sem capacitação para transportar carga viva. 

A nova auditoria revelou, por exemplo, que a incidência média de carcaças com pelo menos um hematoma atingiu expressivos 76,5% no pós abate. Como documenta a revisão de Marcia sobre estratégias de promoção do bem-estar na América Latina, esses fatores elevam os níveis de cortisol e adrenalina nos animais, depletam o glicogênio muscular e comprometem o processo bioquímico de conversão do músculo em carne após o abate.

O resultado prático aparece no produto final e no bolso. A carne fica mais escura, seca, tem sua textura comprometida e vida útil reduzida. Financeiramente, as carcaças são desvalorizadas, com cortes rejeitados por importadores exigentes que requerem pH estritamente inferior a 5,8. 

O estudo de 2024 comprovou estatisticamente essa relação direta entre estresse físico e qualidade bioquímica: animais sem hematomas registraram apenas 8,8% de rejeição por pH elevado, enquanto aqueles que sofreram de quatro a cinco hematomas viram esse índice de rejeição quase dobrar, saltando para 15,8%. Por outro lado, o levantamento também trouxe avanços significativos: 96,6% das peças avaliadas apresentaram cor normal de carne visualmente — uma redução histórica de cortes escuros impulsionada pela menor idade de abate e melhor terminação alimentar (especialmente dietas de confinamento) —, e confirmou que os frigoríficos exportadores operam em conformidade com as exigências internacionais de bem-estar animal pré-abate.

O artigo “Bem-estar animal também tem impacto sobre a qualidade da carne” detalha os mecanismos fisiológicos desse processo, explicando como o estresse pré-abate altera o pH final da carne e compromete cor, textura e capacidade de retenção de água. Paralelamente, o artigo “O que está por trás da qualidade da carne bovina?” contextualiza como o bem-estar é apenas um dos elos de uma cadeia de decisões que determina o que o consumidor encontra no prato.

O caso uruguaio: bem-estar animal como política de Estado e diferencial exportador

O Uruguai é o único país do Mercosul que realiza auditorias periódicas de qualidade da cadeia cárnica. A metodologia, desenvolvida pelo INAC e pelo INIA a partir de uma parceria com a Universidade do Colorado (EUA), é aplicada a cada cinco anos desde 2002 — com a 4ª edição publicada em 2024. O exercício permite ao setor visualizar a evolução das perdas, identificar os pontos críticos da cadeia e propor medidas corretivas com base em evidências.Essa abordagem sistemática se traduz em vantagem competitiva real: estudos do INIA Tacuarembó mostram que sistemas de classificação de carcaças e critérios de qualidade bem estruturados permitem ao Uruguai diferenciar sua carne nos mercados de alto valor (Europa, Japão e EUA) com prêmios de preço associados à rastreabilidade, ao bem-estar e à qualidade sensorial verificável.Marcia del Campo sintetiza a lógica: quando o produtor entende que o bem-estar do animal impacta diretamente o resultado financeiro — menos perdas, melhor carne, melhores mercados —, a adoção de boas práticas deixa de depender de convicção ética e passa a ser uma decisão de negócio.

Manejo sem violência: ciência, não romantismo

A expressão pode soar suave, mas tem embasamento técnico preciso. O que Del Campo e pesquisadores do INIA chamam de “manejo sem violência” é a aplicação de princípios de etologia — o estudo do comportamento animal — para reduzir o estresse em cada ponto de contato com o ser humano: na movimentação nos currais, no embarque, no transporte e no pré-abate. O projeto uruguaio consolidou essa visão científica ao expandir a avaliação para além da indústria, incorporando diagnósticos diretamente no nível de campo (nas fazendas). Com isso, os pesquisadores obtiveram a chamada “película completa” (visão integral) do bem-estar animal em todos os elos da cadeia produtiva.

Isso inclui o uso de instalações projetadas de acordo com o comportamento natural dos bovinos, como corredores curvos que aproveitam o instinto de retornar, iluminação adequada para evitar que sombras causem recusa de avanço, superfícies antiderrapantes que reduzem quedas e fraturas. O manejo de baixo estresse desenvolvido pelo zoólogo americano Bud Williams, e amplamente estudado pela cientista e ativista americana Temple Grandin, demonstrou que bovinos conduzidos com calma e respeito ao seu comportamento natural chegam ao frigorífico com menor depleção de glicogênio, o que se traduz diretamente em melhor pH da carne.

Leia também: Cinco domínios: a ciência do bem-estar animal na prática

Três dimensões de valor: econômico, de produto e de mercado

O bem-estar animal bem gerenciado gera valor em três dimensões simultâneas:

Imagem gerada digitalmente

O impacto econômico direto mais visível é a redução de hematomas e contusões. Cada hematoma identificado na linha de abate representa descarte de carne, um custo que recai inteiramente sobre o frigorífico ou sobre o preço pago ao produtor.

No valor do produto, a alteração de qualidade mais frequente é a carne DFD (Dark, Firm and Dry — escura, firme e seca), causada por estresse prolongado antes do abate. A carne PSE (sigla para Pale, Soft and Exudative – pálida, mole e exsudativa), embora mais comum em suínos e aves, também pode ocorrer em bovinos, com incidência bem menor. Trata-se de uma alteração na qualidade da carne caracterizada por coloração mais clara, textura flácida e baixa capacidade de retenção de água. O problema está associado a uma queda muito rápida do pH logo após o abate, geralmente desencadeada por estresse intenso pouco antes da insensibilização. Como consequência, a carne perde mais líquido, reduz seu rendimento industrial e pode apresentar pior qualidade sensorial após o preparo.

No valor de mercado, a maior valorização de produtos com atributos diferenciados é evidenciado pelas tendências em diferentes mercados, como mostram os novos hábitos de compra dos americanos e dos europeus. Além disso, regulamentações internacionais estão elevando o bem-estar animal de um diferencial ético para um requisito de acesso a mercados de alta qualidade.

Cenário regulatório internacional como vetor de transformação

O Regulamento (CE) nº 1099/2009 (proteção de animais no abate) exige que frigoríficos exportadores garantam padrões equivalentes de proteção e manejo humanitário. Embora as normas detalhadas de bem-estar dentro das fazendas, como a Diretiva 98/58/CE do Conselho, e as de transporte interno na Europa não sejam aplicadas automaticamente aos parceiros comerciais de fora do bloco, a Comissão Europeia está atualmente revisando suas leis com propostas para endurecer as regras de transporte interestadual e de longa distância

De acordo com dados oficiais do Eurobarômetro e de consultas públicas da Comissão Europeia, há uma forte pressão social de cidadãos europeus para estender todos os padrões éticos de criação e manejo do bloco aos produtos importados para garantir uma concorrência justa no mercado interno. Essa tendência de vincular tarifas preferenciais a critérios produtivos específicos — como no acordo comercial da União Europeia com a Austrália, que atrela o acesso de carne bovina a requisitos de produção baseados em pasto — serve de alerta comercial para os exportadores do Mercosul.

Consumidor também influencia as mudanças

A pressão por bem-estar animal não vem apenas da regulação, mas também do mercado. O relatório Power of Meat 2026, publicado anualmente pela The Food Industry Association e pelo Meat Institute, mostra que 67% dos consumidores americanos buscam informações sobre a origem dos alimentos. Além disso, atributos como bem-estar animal e impacto ambiental já influenciam a decisão de compra, ampliando o conceito de qualidade para além do sabor.

Esse movimento é particularmente visível no crescimento dos produtos com certificação de bem-estar, como os selos como “livre de crueldade” (cruelty-free), “criado com bem-estar” e equivalentes europeus. Pesquisa publicada na Redalyc mostra que consumidores expostos a informações sobre práticas de manejo se mostram propensos a pagar mais por produtos certificados, sinalizando uma oportunidade de mercado para produtores e frigoríficos que investem em boas práticas e as tornam verificáveis.

A convergência entre bem-estar, sustentabilidade e rastreabilidade é cada vez mais tratada como um único ativo. Carnes com atributos especiais já conquistam espaço em mercados premium globais, com o bem-estar animal, nesse contexto, deixando de ser um custo a gerenciar e passando a ser um argumento de venda.

Bem-estar é onde a ética e o negócio se encontram

A mensagem que emerge do trabalho de Marcia del Campo e do INIA, e que os dados das auditorias de qualidade uruguaias confirmam com consistência, é que o bem-estar animal não precisa ser defendido apenas com argumentos morais. Ele se sustenta com planilhas, com resultados de auditoria e com acesso a mercados.

Quando quase a totalidade das perdas na cadeia produtiva da carne tem origem em problemas de bem-estar, a pergunta relevante para o produtor, o frigorífico e o exportador não é “por que investir em bem-estar animal?”, mas “quanto custa não investir?”