Tecnocarne: o que o boi China ensina sobre previsibilidade e coordenação na cadeia da carne

Painel do evento discutiu como previsibilidade, confiança, inteligência de mercado e objetivos compartilhados podem ajudar produtores e indústrias a enfrentar exigências sanitárias, volatilidade global e a disputa por animais de qualidade.

Por Paula Caires em 24 de junho, 2026

Atualizado: 17/08/2026 - 19:44

Quatro homens vestidos com trajes profissionais estão sentados no palco, diante de um cenário azul e branco na TecnoCarne. Eles parecem fazer parte de um painel de discussão sobre como superar barreiras à produtividade nas fábricas dentro da cadeia da carne da Tecnocarne.
Foto: Mayara Araújo (Foto: F14 – Fotografia/ Divulgação Informa Eventos)

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O Brasil levou décadas para se consolidar como o maior exportador mundial de carne bovina, saindo da posição de um país que precisava importar o alimento. Ao longo dessa trajetória, desenvolveu uma capacidade de adaptação que hoje permite respostas rápidas a novas demandas do mercado. A adequação dos produtores às exigências impostas pela China tornou-se um dos principais exemplos apresentados durante o painel Indústria e seus Indicadores: A Indústria Frigorífica no Passado, Presente e Futuro – Desafios e Oportunidades, mediado por Thiago Bernardino de Carvalho, pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) e professor da Esalq/USP e da Fatep, no Tecnocarne – evento realizado em São Paulo nos dias 16 e 17 de junho.

“O boi China é um bom exemplo de rapidez que o mercado consegue se ajustar. Não existia esse boi no Brasil”, afirmou Juan Lebrón, gerente do Departamento Internacional da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ). “Aí apareceu esse boi com exigência de idade, entre outras especificações, e o produtor teve uma rapidez de resposta absurda.”

Para Lebrón, a experiência demonstra a capacidade de adaptação do produtor brasileiro para acompanhar a evolução da cadeia. O desafio estaria em construir mecanismos capazes de traduzir as demandas dos mercados em informações claras, objetivas e previsíveis.

Quando existe uma demanda completa, previsível e objetiva, o produtor responde.

Juan Lebrón

Não se nasce líder: elos da cadeia precisam estar próximos para avançar

“O Brasil não acordou líder”, afirmou Lebrón. “Quem construiu isso foi o produtor, a indústria e a pesquisa.” A fala sintetiza a transformação da pecuária brasileira nas últimas décadas, diretamente relacionada aos avanços sanitários iniciados nos anos 1990, especialmente no combate à febre aftosa. A evolução permitiu ao país acessar mercados cada vez mais exigentes e consolidar sua posição de liderança mundial nas exportações de carne bovina.

Foi nesse contexto que o debate trouxe uma reflexão sobre a necessidade de aproximar os diferentes elos da cadeia produtiva. “Se não tiver clareza do que se quer, para quem é e o que tenho que produzir, precisamos organizar essa cadeia de forma geral para que todo mundo entenda um pouco do outro”, afirmou Lebrón. “Falta conhecimento entre as partes, entender melhor o que o outro faz.”

Essa aproximação torna-se ainda mais importante em um cenário em que diferentes mercados exigem padrões específicos de produção, rastreabilidade, idade dos animais e requisitos sanitários.

Previsibilidade, desejo (e desafio) em comum

Cinco homens estão sentados em um palco diante de uma tela grande em uma conferência, falando para o público. Ao fundo, são visíveis estandes de exposição e sinalização do evento da TecnoCarne e da Arena de Conteúdo, destacando a importância da TecnoCarne, da cadeia da carne, no setor.
Foto: Mayara Araújo (Foto: F14 – Fotografia/ Divulgação Informa Eventos)

A previsibilidade apareceu como um dos temas centrais do debate, tanto para produtores quanto para a indústria. “O maior anseio é a previsibilidade”, afirmou Lebrón.

Segundo ele, essa necessidade tornou-se ainda mais evidente com o avanço do confinamento no Brasil, sistema que exige investimentos antecipados em alimentação, manejo e estrutura produtiva. “Se você consegue essa previsibilidade do comprador, inclusive de preço, consegue enxergar sua margem e ver que pode investir em algo que terá um retorno seguro. Fica tudo mais fácil”, explicou.

A indústria, contudo, também depende dessa segurança. “Quanto maior a afinidade entre a indústria e o produtor, maiores as possibilidades de previsibilidade para todos nesse mercado”, acrescentou.

Paulo Mustefaga, consultor e diretor de Relações Institucionais da Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo), ponderou, no entanto, que essa busca por estabilidade ocorre em um ambiente sujeito a inúmeras variáveis externas. Além das exigências sanitárias impostas por mercados estratégicos, como a China, o setor convive com oscilações geopolíticas capazes de alterar custos logísticos e rotas comerciais.

Estamos falando de um mercado que detectou uma substância e essa empresa é suspensa. Se ela é a principal compradora de um estado, toda previsibilidade vai por água abaixo.

Paulo Mustefaga

Governança trouxe mais segurança, mas ainda há espaço para evoluir

A previsibilidade avançou nos últimos anos em função das mudanças na própria estrutura das empresas frigoríficas. Segundo Lebrón, a relação entre pecuaristas e indústria já foi marcada por maiores incertezas, especialmente nas décadas de 1980 e 1990, quando havia um risco mais elevado em relação à liquidez das companhias. “Hoje você tem uma segurança muito maior e a abertura de capital foi uma transformação enorme, por se ganhar transparência e segurança”, afirmou.

O movimento de abertura de capital de grandes frigoríficos, intensificado nos anos 2000, trouxe consigo exigências relacionadas à divulgação de resultados, auditorias independentes, controles internos e práticas mais robustas de governança corporativa, contribuindo para ampliar a confiança entre os diferentes agentes da cadeia.

Na avaliação do executivo, embora esse processo tenha melhorado, na média, a relação entre produtores e indústria, a forma de aquisição dos animais ainda evoluiu pouco ao longo do tempo. “A média melhorou, mas a forma de comprar continua a mesma. Falta um pouco de inteligência colocada dentro desse processo de compra”, observou.

Da confiança à inteligência aplicada

Gados pastam em um campo verde e gramado, com árvores altas e um céu azul límpido ao fundo, refletindo a qualidade e o cuidado presentes em toda a cadeia da carne
Foto: Minerva Foods

Na visão de Lebrón, ainda há espaço para aprimorar a forma como os animais são avaliados e como essas informações retornam aos produtores, permitindo ajustes mais precisos nos sistemas de produção. “A menor inteligência da indústria está na inteligência de compra”, avaliou.

Segundo ele, apesar dos avanços em governança e transparência, muitas decisões ainda são tomadas com base na experiência individual dos compradores, que precisam avaliar características produtivas, sistemas de criação e padrões regionais de oferta. “Você compra o que te é ofertado”, comentou. 

Para o executivo, existe espaço para ferramentas para monitorar com maior precisão o grau de aproveitamento dos animais, os rendimentos obtidos na indústria e a aderência da matéria-prima às exigências dos diferentes mercados. Além de aprimorar decisões de compra, esse tipo de informação poderia ajudar produtores a identificar oportunidades de melhoria e direcionar investimentos para atender mercados específicos. “A maior dificuldade do comprador de boi é administrar o relacionamento entre produtor e indústria”, resumiu.

É justamente nessa lacuna que iniciativas voltadas ao compartilhamento de conhecimento e ao acompanhamento técnico podem contribuir para aproximar os elos da cadeia. Na Minerva Foods, o programa Laço de Confiança busca substituir uma relação baseada exclusivamente na compra e venda por uma agenda contínua de capacitação, escuta ativa e troca de experiências entre indústria e fornecedores. Em artigo sobre o programa, o gerente executivo de Relacionamento com Pecuaristas da Companhia, Rostyner Costa, afirmou acreditar que “o setor evolui quando há confiança e cooperação entre indústria e produtor rural”. A iniciativa oferece suporte em áreas como nutrição animal, manejo sanitário, gestão das propriedades e rastreabilidade do rebanho, além de promover dias de campo, treinamentos e visitas técnicas voltadas às necessidades específicas de cada região.

Ao final do debate, os participantes convergiram para uma mesma conclusão: em uma cadeia cada vez mais globalizada e sujeita a mudanças rápidas, o diferencial competitivo pode estar menos na capacidade de aumentar a produção e mais na habilidade de construir relações de confiança, compartilhar informações e estabelecer objetivos comuns entre produtores, indústria e consumidores.

Dúvidas mais comuns

O 'boi China' refere-se a um padrão de bovino desenvolvido especificamente para atender às exigências do mercado chinês, incluindo especificações de idade e outras características produtivas. Sua importância reside em demonstrar a capacidade de adaptação rápida do produtor brasileiro às demandas de mercados específicos, evidenciando como a cadeia consegue responder com agilidade a novas exigências sem que essas raças existissem previamente no Brasil.

A previsibilidade é fundamental tanto para produtores quanto para a indústria, pois permite que os pecuaristas façam investimentos antecipados em alimentação, manejo e estrutura produtiva com segurança de retorno. Para a indústria, a previsibilidade facilita o planejamento de compras e processamento. Quando existe uma demanda clara, objetiva e previsível, o produtor consegue enxergar sua margem de lucro e investir em melhorias com confiança.

A abertura de capital de grandes frigoríficos, intensificada nos anos 2000, trouxe exigências de divulgação de resultados, auditorias independentes e controles internos mais robustos. Essas práticas de governança corporativa aumentaram significativamente a transparência e segurança nas transações, reduzindo os riscos de liquidez que marcavam as décadas de 1980 e 1990, e ampliando a confiança entre produtores e indústria.

Apesar dos avanços em governança e transparência, muitas decisões de compra ainda são tomadas com base na experiência individual dos compradores, sem ferramentas sofisticadas de monitoramento. Falta inteligência aplicada para avaliar com precisão o grau de aproveitamento dos animais, os rendimentos obtidos na indústria e a aderência da matéria-prima às exigências dos diferentes mercados, limitando a capacidade de otimizar decisões.

A aproximação entre produtores, indústria e pesquisa permite que cada elo compreenda melhor as necessidades e desafios do outro. Quando existe clareza sobre o que se quer produzir, para quem e com quais especificações, toda a cadeia consegue se organizar de forma mais eficiente. Essa colaboração é especialmente importante em um cenário globalizado onde diferentes mercados exigem padrões específicos de produção e rastreabilidade.

O programa Laço de Confiança busca substituir uma relação baseada exclusivamente em compra e venda por uma agenda contínua de capacitação, escuta ativa e troca de experiências entre indústria e fornecedores. Oferece suporte em nutrição animal, manejo sanitário, gestão de propriedades e rastreabilidade, além de promover dias de campo, treinamentos e visitas técnicas voltadas às necessidades específicas de cada região.

O Brasil desenvolveu uma capacidade de adaptação ao longo de décadas, saindo de um país que precisava importar carne para a posição de maior exportador mundial. Esse avanço foi impulsionado por avanços sanitários iniciados nos anos 1990, especialmente no combate à febre aftosa, que permitiram ao país acessar mercados cada vez mais exigentes e consolidar sua liderança nas exportações de carne bovina.

Além das exigências sanitárias impostas por mercados estratégicos como a China, o setor convive com oscilações geopolíticas que alteram custos logísticos e rotas comerciais. Mudanças regulatórias também podem impactar significativamente a previsibilidade, como quando uma substância é detectada e uma empresa compradora é suspensa, afetando toda a cadeia de fornecimento de uma região.