A neutralidade de carbono tem sido um dos principais objetivos de empresas comprometidas com a mitigação das mudanças climáticas. Seja pela conscientização de que essas alterações nos padrões do clima e intensificação de eventos extremos são um risco, seja com o objetivo de se diferenciar e conquistar novos mercados, investidores ou linhas de financiamento, ou até mesmo por pressões regulatórias.
Mas o que é um produto carbono neutro?

Produtos de carbono neutro são aqueles cujas as emissões de gases de efeito estufa durante seu ciclo de vida são equiparadas aos volumes de gases evitados, capturados ou compensados.
Para fazer essa conta, existem ferramentas reconhecidas. Uma delas é o GHG Protocol (Greenhouse Gas Protocol): uma metodologia utilizada como padrão por vários países, incluindo o Brasil, para contabilizar e reportar as emissões de escopo 1 (aquelas emitidas pelas operações próprias da empresa), de escopo 2 (as emitidas em função do consumo de energia) e as de escopo 3 (emitidas pela cadeia de valor). Consequentemente, ajuda a gerenciar as emissões de empresas, cidades e demais organizações.
Além do GHG Protocol, existe a norma internacional ISO 14068-1:2023 – Climate change management — Carbon neutrality, que define os princípios, requisitos e diretrizes para alcançar e declarar a neutralidade de carbono.
Antes da ISO 14068, o PAS 2060 (British Standards Institution – BSI) era utilizado, sendo o primeiro padrão técnico reconhecido internacionalmente para certificação de neutralidade de carbono.
Do berço ao túmulo ou do berço ao portão

Conforme definições do IPCC (2021), a neutralidade do carbono refere-se à condição em que as emissões antropogênicas de CO₂ associadas a uma determinada entidade — que pode ser um país, organização, setor ou produto — são integralmente balanceadas por remoções antropogênicas de CO₂. Em escalas não globais, como a de produtos agropecuários, a neutralidade do carbono é geralmente avaliada a partir da perspectiva do ciclo de vida, incorporando tanto emissões diretas quanto indiretas. Nesse sentido, adota-se a abordagem “do berço ao túmulo” (cradle-to-grave), que considera todas as etapas do ciclo de vida do produto, desde a extração ou produção da matéria-prima até o pós-consumo. No caso da carne, essa abordagem inclui, por exemplo, as emissões associadas à criação do animal, ao processamento, à distribuição e ao consumo final, que devem ser compensadas por remoções equivalentes para que se possa falar em neutralidade do carbono.
No entanto, diante da impossibilidade de mensurar as emissões na etapa de consumo, os programas setoriais mapeiam e delimitam as fontes de emissões até a etapa de distribuição no varejo, por ser o ponto em que o produtor e a indústria têm controle direto das emissões. Neste caso, o ciclo é chamado de “berço ao portão” (cradle-to-gate).
Carbono neutro nas prateleiras

O conceito Carne Carbono Neutro (CCN) criado pela Embrapa e reconhecido pela FAO é representado por um selo alusivo à produção de bovinos de corte sob sistemas de integração obrigatória com árvores, ou seja, considerando a etapa da produção apenas na fazenda.
Já o selo carbono neutro, concedido pela Minerva Foods por meio programa Renove, tem como requisito que toda a pegada de carbono da produção — desde fazenda, passando por indústria e transporte até o cliente final — seja mensurada, reduzida e compensada. A empresa também conta com o selo Low Carb, que atesta um pegada de carbono reduzida. Ambas são certificadas, com identificação pela Food Chain ID.
O programa adota uma metodologia alinhada ao GHG Protocol e à ISO 14064, que preveem o cálculo detalhado das fontes de emissões relevantes na fazenda — como a fermentação entérica e o manejo de dejetos — e a compensação por meio de boas práticas pecuárias, como sistemas integrados, rotação de pastagens e plantio de leguminosas, que promovem o sequestro de carbono no solo.
Caso ainda haja emissões residuais, o saldo remanescente pode ser compensado pela subsidiária MyCarbon, usando créditos de carbono gerados em projetos de plantação e conservação de florestas na América do Sul. Os produtos com certificação carbono neutro ou baixo carbono também são provenientes de fazendas selecionadas zero desmatamento nos últimos 10 anos e que possuem Planos de Redução de Emissões de Gases de Efeito Estufa.
Para garantir a credibilidade do processo, é realizada uma auditoria externa independente conduzida pela FoodChain ID, empresa global especializada em certificações de sustentabilidade e rastreabilidade, que realiza auditorias técnicas in loco e valida os cálculos de emissões e remoções declarados pelos produtores. A atuação da certificadora assegura que os resultados sejam cientificamente consistentes, auditáveis e transparentes. Essa verificação é o que permite que a alegação de neutralidade de carbono ou de baixo carbono seja reconhecida nos mercados mais exigentes, conferindo credibilidade internacional ao selo.
Carbono neutro como diferencial competitivo

A mudança de perspectiva não parte apenas de mercados internacionais. Um estudo publicado pela Embrapa identificou que pessoas com maior renda, escolaridade e idade estão mais propensas a valorizar atributos ambientais na carne bovina. Por meio de 402 entrevistas realizadas em todo o território nacional, o levantamento apurou que muitos estão dispostos a investir em produtos com menor impacto ambiental. Com o tempo, a tendência é que outras camadas sociais passem a aderir a esse comportamento, fazendo com que os produtos de carbono neutro e reduzido se tornem o novo padrão.
Com transparência, os selos de produtos carbono neutro ou baixo é uma forma não só de atender à demanda de um público cada vez mais engajados nas questões ambientais, mas também um instrumento para que o consumidor possa exercer um papel mais ativo na transição para modelos de produção sustentáveis, transformando seu ato de comprar em posicionamento, direcionamento e pressão por mudanças. Dessa forma, cada decisão é uma forma de reforçar o elo entre escolhas individuais, esforço global e impactos coletivos.
Fontes de referência:
- Carne Carbono Neutro: um novo conceito para carne sustentável produzida nos trópicos
- Carne de origem certificada: garantia de segurança, qualidade e sustentabilidade da fazenda ao consumidor
- Certificação carne carbono neutro – América Latina
- Crédito de carbono transforma sustentabilidade em valor econômico no agronegócio
- GHG Protocol
- Perfil do consumidor brasileiro disposto a pagar por práticas de produção animal ambientalmente sustentáveis.