Recuperação de pastagens degradadas: mais produtividade sem abrir novas áreas

Como a recuperação de pastagens degradadas permite aumentar produtividade e rentabilidade na pecuária, com redução de custos e sem expansão territorial.

Por Marcia Tojal em 25 de fevereiro, 2026

Atualizado: 25/02/2026 - 15:00

Um campo de pastagem degradada ao lado de uma área de recuperação de pastagens com cerca de arame, demonstrando o processo de recuperação ambiental.
Foto: MS Cattle/ Shutterstock

Durante décadas, a expansão da pecuária no Brasil esteve associada à abertura de novas áreas. Hoje, esse paradigma vem sendo substituído por uma estratégia mais eficiente e sustentável: recuperar pastagens degradadas para produzir mais na mesma área. A adoção de técnicas agronômicas, sistemas integrados e manejo adequado tem demonstrado que é possível elevar produtividade e rentabilidade sem ampliar fronteiras agrícolas.

Segundo a Embrapa,  a degradação de pastagens ocorre quando há perda de vigor das forrageiras, redução da cobertura vegetal do solo e diminuição da capacidade de suporte animal — quadro geralmente associado ao manejo inadequado, à ausência de correção do solo e à falta de reposição de nutrientes.

A redução da cobertura do solo não representa apenas um problema produtivo. Quando o solo permanece descoberto, ele fica mais exposto ao sol, à chuva e ao vento, o que acelera a decomposição da matéria orgânica e favorece a liberação de carbono na forma de dióxido de carbono (CO₂). Além disso, alterações nos processos biológicos do solo podem intensificar emissões de óxido nitroso (N₂O), um gás de efeito estufa com elevado potencial de aquecimento global.

O solo também é um ecossistema vivo, abrigo de microrganismos, fungos, insetos e outros organismos essenciais à ciclagem de nutrientes e à manutenção da fertilidade. Sem cobertura vegetal, aumentam a temperatura e a perda de umidade, reduzindo a atividade biológica e, consequentemente, a biodiversidade edáfica.

O resultado é um sistema menos resiliente, ambientalmente mais vulnerável e economicamente ineficiente, com menor produtividade por área e maior pressão por abertura de novas áreas.

O que significa recuperar uma pastagem degradada

Muda de planta crescendo na recuperação de pastagens, promovendo a regeneração do solo e a sustentabilidade na agricultura.
Foto: Jenya Smyk/ Shutterstock

A recuperação de pastagens não se limita à simples rebrota do capim e de outras plantas de cobertura. Ela envolve um conjunto de práticas técnicas, definidas a partir do grau de degradação da área. Entre as principais ações estão:

  • diagnóstico do solo e do nível de degradação;
  • correção da acidez e fertilidade do solo;
  • adubação de manutenção ou renovação;
  • reimplantação ou consorciação de forrageiras adaptadas;
  • ajuste da taxa de lotação e do manejo do pastejo.

Essas medidas permitem restabelecer a capacidade produtiva do solo e da pastagem, refletindo diretamente no desempenho animal.

Integração lavoura-pecuária como ferramenta de recuperação

Entre as estratégias mais eficazes está a Integração Lavoura-Pecuária (ILP). Nesse sistema, culturas agrícolas e pastagens se alternam ou coexistem na mesma área, promovendo a recuperação física, química e biológica do solo.

Um estudo conduzido pelo Grupo de Políticas Públicas (GPP), da USP, no âmbito do Projeto TEEB Agricultura & Alimentos (TEEB AgriFood), mostra que a ILP contribui para o aumento da matéria orgânica, melhora da fertilidade e maior eficiência no uso de insumos, além de permitir que a área gere receita também com a produção agrícola durante o processo de recuperação.

Produzir mais sem abrir novas áreas

A recuperação de pastagens degradadas tem papel central na intensificação sustentável da pecuária. Um estudo publicado na Royal Society Open Science indica que a melhoria da produtividade das pastagens brasileiras permitiria expandir a produção pecuária sem a necessidade de conversão de áreas naturais, reduzindo a pressão sobre florestas e biomas nativos. E também que a recuperação de milhões de hectares de pastagens degradadas no país poderia aumentar significativamente o número de animais suportados por hectare, apenas com ganhos de eficiência produtiva.

Impactos diretos na rentabilidade do produtor

Do ponto de vista econômico, a recuperação de pastagens está associada a ganhos consistentes de produtividade por hectare, o que melhora indicadores como arrobas produzidas, diluição de custos fixos e retorno sobre o investimento.

Levantamento da FGV Agro estima que os custos médios de recuperação de pastagens variam conforme o nível de degradação e o bioma, situando-se entre aproximadamente R$ 979 e R$ 1.541 por hectare para áreas moderadamente degradadas e entre R$ 1.563 e R$ 2.100 por hectare para áreas severamente degradadas.

No cenário agregado analisado pelo estudo, a recuperação de 15 milhões de hectares demandaria cerca de R$ 21,17 bilhões em investimentos. A receita potencial estimada, no entanto, alcança R$ 36,77 bilhões, gerando um excedente de aproximadamente R$ 15,6 bilhões — o que representa cerca de 74% acima do valor investido.

Mesmo em um cenário mais conservador, com receita projetada de R$ 21,75 bilhões, o resultado ainda supera o investimento inicial, indicando equilíbrio econômico.

Além disso, ao evitar a abertura de novas áreas, o produtor reduz custos associados à regularização ambiental e à infraestrutura básica, concentrando recursos na melhoria do sistema produtivo já existente.

Recuperação de pastagens e políticas públicas

No Brasil, a recuperação de pastagens degradadas é um dos pilares das políticas de agricultura de baixo carbono. Iniciativas como o Programa ABC e o Programa Nacional de Conversão de Pastagens Degradadas em Sistemas Sustentáveis incentivam financeiramente e tecnicamente a adoção dessas práticas.

De acordo com o Ministério da Agricultura e Pecuária, a recuperação dessas áreas é vista como estratégica para aumentar a produção agropecuária nacional ao mesmo tempo em que se reduzem emissões e impactos ambientais.

Eficiência produtiva como caminho para o futuro

A recuperação de pastagens degradadas consolida-se como uma das principais respostas para os desafios contemporâneos da pecuária: produzir mais, com menor impacto e maior eficiência econômica. Ao transformar áreas subutilizadas em sistemas produtivos mais equilibrados, a estratégia reforça a competitividade do setor e reduz a necessidade de expansão territorial.

Mais do que uma solução ambiental, trata-se de uma possibilidade produtiva e econômica que amplia o papel da pecuária brasileira no cenário global.

Links de referência:

Recuperação de pastagens degradadas

Impactos econômicos, sociais, humanos e ambientais da recuperação de pastagens degradadas no Brasil

Degraded pastures in Brazil: improving livestock production and forest restoration

COSTS OF RECOVERING DEGRADED PASTURES IN THE BRAZILIAN STATES AND BIOMES

Recuperação de pastagens degradadas é destaque das políticas de sustentabilidade


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