Antes visto apenas como um resíduo incômodo da pecuária, o esterco agora faz parte de uma agenda que combina produtividade agrícola, redução de custos, mitigação de riscos e sustentabilidade ambiental. Em um cenário global que demanda uma nova lógica econômica pautada pela circularidade dos recursos, esse material orgânico se destaca como insumo estratégico para melhorar a fertilidade do solo e reduzir a dependência de fertilizantes minerais — insumos sintéticos de alta solubilidade que, embora eficazes no curto prazo, trazem desafios ambientais e econômicos crescentes.
A substituição ganha urgência especialmente no que diz respeito aos fertilizantes nitrogenados, uma das principais fontes de emissão de gases de efeito estufa (GEE) no setor, de acordo com o relatório Agriculture, Forestry and Other Land Use (AFOLU). O impacto ocorre em duas frentes: o processo de fabricação desses fertilizantes minerais libera grandes quantidades de dióxido de carbono (CO₂), enquanto sua aplicação no campo gera emissões de óxido nitroso (N₂O). Este último é particularmente crítico, pois tem um potencial de aquecimento global cerca de 265 vezes maior que o do CO₂.
Paralelamente, de acordo com a Embrapa, a aplicação de esterco bovino, suíno ou de aves melhora a estrutura física do solo, aumenta a retenção de água e estimula a atividade microbiana – fatores essenciais para o desenvolvimento da vegetação. Além disso, o material é rico em nutrientes como nitrogênio, fósforo, potássio e micronutrientes que são liberados de forma gradual, o que garante maior eficiência nutricional e reduz os impactos oriundos de soluções sintéticas.
Contudo, embora não seja uma novidade, a adoção do esterco como adubo em escala industrial e tecnificada está dando os primeiros passos.
Quando o esterco começou a ganhar protagonismo?
Entre 2021 e 2022, a busca por alternativas aos fertilizantes sintéticos ganhou força devido à crise global de insumos, desencadeada pelos gargalos logísticos da pandemia e severamente agravada pela guerra entre Rússia e Ucrânia. O conflito atingiu o agronegócio ao restringir a oferta de matérias-primas essenciais, como potássio e nitrogênio, elevando os custos de produção e ameaçando a rentabilidade do campo. Esse cenário de incerteza levou os produtores a buscarem alternativas para garantir a continuidade dos negócios, inclusive, opções biológicas.
Conforme dados da Embrapa, o choque de oferta expôs a vulnerabilidade brasileira, uma vez que o País importava cerca de 85% dos fertilizantes utilizados anualmente. Diante da crise, a estatal intensificou as diretrizes do Plano Nacional de Fertilizantes, focando no desenvolvimento de tecnologias nacionais, como os bioinsumos e a remineralização de solos, para mitigar a dependência externa e buscar a soberania produtiva no setor.
Casos de sucesso no País
O uso de esterco como insumo agrícola fortalece a lógica da economia circular ao reintegrar ao sistema produtivo um material que, anteriormente, era tratado como um passivo ambiental. Em vez de gerar custos de descarte ou riscos de contaminação, o resíduo se converte em um ativo estratégico que melhora a saúde do solo e reduz a necessidade de fertilizantes minerais importados.
Um exemplo emblemático dessa transição no Brasil é o Condomínio de Agroenergia para Agricultura Familiar do Ajuricaba, no Paraná. O projeto pioneiro conecta propriedades rurais a um sistema de biodigestores que trata toneladas de dejetos bovinos e suínos. O processo gera duas frentes de valor: o biogás e o biofertilizante líquido, que é transportado para aplicação direta nas lavouras dos produtores, substituindo o adubo químico.
Além do aproveitamento direto no solo, o potencial energético desse material tem impulsionado projetos de escala industrial. Um dos principais casos de sucesso no País é a planta de biogás da Geo Biogás & Tech em parceria com a Cocal, em Narandiba/SP. A unidade utiliza resíduos agroindustriais para a produção de biometano e energia elétrica em larga escala. Segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), o biogás agropecuário já desponta como uma das fontes mais promissoras para a expansão da matriz energética brasileira, transformando passivos orgânicos em combustível renovável para frotas e indústrias.
Presente e futuro dos fertilizantes orgânicos e bioinsumos no Brasil
O Brasil já é considerado o líder global em agricultura biológica e, desde 2024, vem mudando significativamente o cenário de produção e adoção dos fertilizantes orgânicos e bioinsumos em termos de legislação e metas de monitoramento contribuindo para reposicionar o biofertilizante de um “substituto emergencial” para um componente estrutural do manejo.
Entre as mudanças divulgadas no Relatório Anual de Monitoramento do PNF, publicado no final de 2024 pelo Conselho Nacional de Fertilizantes e Nutrição de Plantas (CONFERT), vinculado ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), destacam-se:
- Aumentar a produção e oferta de fertilizantes orgânicos e organominerais em 25% até 2025 e 50% até 2030 (tendo 2023 como linha de base). A longo prazo, a meta é chegar a 500% de aumento até 2050.
- Expandir o uso de bioinsumos para nutrição de plantas para, no mínimo, 25% de toda a área plantada no Brasil até 2030. Para 2050, o objetivo é que 75% da área utilize essas tecnologias.
Sancionado em 23 de dezembro de 2024, o Novo Marco Legal de Bioinsumos (Lei nº 15.070/2024) é a mudança mais significativa, que trouxe mais clareza jurídica sobre a definição dos bioinsumos (produtos que utilizam microrganismos, enzimas ou extratos naturais para diversas funções) e, consequentemente, sua distinção em relação aos fertilizantes orgânicos (produtos compostos por matéria orgânica vegetal ou animal que servem como fonte de nutrientes para as plantas e melhoradores da estrutura física do solo).
A partir da nova lei, os bioinsumos deixam de ser tratados como “anexos” de agrotóxicos ou fertilizantes químicos e passam a ter categoria e regulamentação próprias, o que confere mais segurança jurídica.
A lei também legalizou e simplificou a produção de bioinsumos para uso próprio dentro das fazendas, o que deve acelerar a adoção em larga escala sem depender apenas da indústria. A previsão de mecanismos financeiros e tributários específicos para quem produz ou utiliza bioinsumos, visando baratear o custo para o produtor, é outra mudança que deve contribuir para a expansão do setor, que já está crescendo a uma taxa média de 22% ao ano, de 2021 a 2024. Na safra 2024/25 o crescimento foi de 13%, um avanço quatro vezes maior que a média global, segundo o relatório Bioinsumos no Brasil – Dados de Mercado do Setor, realizado pela CropLife Brasil em parceria com a consultoria Blink.
Fontes de referência:
- Artigo – Fertilizantes: vulnerabilidade brasileira e algumas ações para revertê-la
- Bioinsumos no Brasil – Dados de Mercado do Setor
- Carbono orgânico e as frações húmicas em diferentes horizontes diagnósticos de solos brasileiros.
- Chapter 7: Agriculture, Forestry, and Other Land Uses (AFOLU)
- Cocal Geo Biogás
- Como o Brasil reduz as emissões de GEE por quilo de carne?
- Novo Marco Legal de Bioinsumos (Lei nº 15.070/2024)
- Projeto em Itaipu trata os dejetos das criações de porcos e gado de leite
- Relatório Anual de Monitoramento do PNF