Luciana Haddad: liderança na medicina de alta complexidade e voz ativa pela equidade na ciência

Especialista em transplantes e ex-presidente da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), construiu carreira em um ambiente historicamente masculino. Hoje, amplia o acesso à ciência defendendo que meninas possam ocupar qualquer espaço.

Por Marcia Tojal em 3 de março, 2026

Atualizado: 27/03/2026 - 10:06

Luciana Haddad, falando com entusiasmo durante evento relacionado ao setor de agronegócio, destacando o papel das mulheres na atividade pecuária.
Luciana Haddad (Foto: Divulgação)

Durante anos, Luciana Haddad foi a primeira a chegar e a última a sair do hospital. “Eu nunca dizia não”, disse em entrevista para o portal My Minerva Foods. Em um ambiente majoritariamente masculino, ela acreditava que precisava fazer mais para ser tratada como igual.

A virada veio com a maternidade. “Eu só me dei conta de que falava sim para tudo quando eu tive filho.” A partir dali, o desafio, acompanhado de auto-cobrança, passou a ser outro: dizer não ou ao trabalho, ou ao filho.

Esse ponto de inflexão ajuda a entender a trajetória da médica especialista em transplantes que hoje soma quase 30 anos como pesquisadora, além de ser ex-presidente da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO).

Crescer em um ambiente masculino

Equipe de cirurgiões realizando uma cirurgia especializada, com foco na expertise de Luciana Haddad em procedimentos cirúrgicos
Luciana Haddad (Foto: Acervo Pessoal)

Formada em cirurgia e depois cirurgia digestiva, Luciana iniciou a carreira em um cenário em que era a única mulher entre residentes. “Quase não tinha assistentes.” Ela relembra situações que hoje seriam inaceitáveis: comentários como “lindinha”, tentativas de proximidade física e frases como “vai chorar?”, reforçando a ideia de que mulheres seriam mais frágeis ou emotivas, eram recorrentes. “Coisas que se acontecessem hoje talvez não passassem sem uma denúncia.”

Quando começou, mulheres em posições de liderança eram ainda mais raras. “Temos visto cada vez mais, é importante trazer esse exemplo, mas ainda são minoria”, destaca ela.

Alta performancee limites

Para ser reconhecida, Luciana adotou uma estratégia clara: excelência máxima e alta disponibilidade. “Eu achava que era a única forma de ser considerada igual.” Isso significava assumir tudo. “Até abusaram de mim nesse sentido.” Com o tempo, percebeu que esse modelo não era sustentável. “Também temos que saber nos colocar e impor limites.”

Referências que mostraram que era possível

Entre suas inspirações está Angelita Gama, cirurgiã coloproctologista, pesquisadora na Universidade de São Paulo (USP), primeira médica-cirurgiã da América Latina a receber a medalha Bigelow, que homenageia cirurgião cuja trajetória representa uma contribuição de destaque ao progresso científico e ao ensino da cirurgia, além de ser a única mulher entre os 34 já premiados. Luciana acompanhou seus últimos anos de atuação e descreve a experiência como um privilégio.

Em casa, os exemplos também eram fortes: mãe médica, ativa profissionalmente, e avó professora, independente. “Eu já tinha essa visão de que não era fácil, mas era possível.”

Maternidade, geração e mudança cultural

Filhos de Luciana Haddad, usando roupas casuais e bicicletas, em um cenário com árvores e cerca de metal ao fundo.
Luciana Haddad (Foto: Acervo Pessoal)

Mãe de uma menina de 16 anos e um menino de 14, Luciana percebe diferenças geracionais. “Minha filha já nasceu nesse mundo onde as mulheres já se vêem diferentes, feministas, independentes.” 

Ao mesmo tempo, Luciana Haddad reconhece a necessidade de educar os meninos diante de um “machismo estrutural” ainda presente. Para ela, a transformação passa por parceria: “Precisamos nos unir. Tendo homens como parceiros, não como inimigos”. Mas também destaca a importância das parcerias entre as próprias mulheres, indo na contramão de um histórico social em que as mulheres eram instigadas a competir e defender seus territórios. “Havia homens que diziam que não se podia ter mais mulheres na equipe.. Hoje trabalho com um monte de mulheres e é ótimo.” 

Do hospital às redes: Luciana Haddad leva ciência às pessoas

Luciana segue atuando no serviço de transplantes do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, além da carreira acadêmica como professora e pesquisadora.

Nos últimos três anos, passou a investir na divulgação científica por meio do canal FalaLu no Instagram e no YouTube. A decisão surgiu durante a pandemia da Covid-19, quando começou a produzir vídeos explicativos e compartilhar nas redes sociais. Depois, ampliou os temas para atividade física, alimentação, hábitos de saúde e qualidade de vida. “Muitas vezes as informações estão aqui na Academia, mas se não virar algo que ajude a vida das pessoas, não faz sentido.” Para ela, a ciência é ponderada e precisa ser explicada com equilíbrio.

Uma mensagem para meninas

Ao falar com meninas interessadas na ciência, Luciana é direta: “É um universo apaixonante. Não existe tédio, não existe falta de desafios”. Como mensagem geral, ela é categórica: “Meninas podem fazer o que quiserem. O mundo é nosso cada vez mais.” Ainda há barreiras, mas, para ela, a união fortalece o caminho, e o desafio é combustível para ir mais longe.

Leia mais: Protagonismo feminino no agro: da gestão à ciência, uma transformação em curso

Dúvidas mais comuns

Mulheres em medicina enfrentam barreiras significativas, incluindo comentários desrespeitosos, tentativas de proximidade física indevida e questionamentos sobre sua capacidade emocional. Historicamente, mulheres em posições de liderança eram ainda mais raras, e muitas precisavam adotar estratégias de excelência máxima e alta disponibilidade para serem reconhecidas como iguais. Além disso, há um machismo estrutural que ainda persiste, exigindo que as mulheres se unam e trabalhem em parceria para transformar essa realidade.

Luciana Haddad teve um ponto de inflexão importante ao se tornar mãe, quando percebeu que precisava aprender a dizer não. Anteriormente, ela acreditava que precisava fazer mais para ser tratada como igual em um ambiente majoritariamente masculino, o que a levava a aceitar tudo. Com a maternidade, compreendeu a importância de impor limites e reconheceu que o modelo de alta performance contínua não era sustentável, permitindo-se uma vida mais equilibrada.

A participação feminina na medicina traz impactos positivos concretos, como uma visão mais diversa no atendimento e estilos de cuidado que se refletem em empatia, comunicação e humanização. Ter mulheres em diferentes setores e posições de liderança aumenta consideravelmente a capacidade de inovação, criação e humanização das organizações, além de contribuir para uma prática mais representativa e inclusiva.

A união entre mulheres é fundamental para fortalecer o caminho no ambiente científico. Luciana Haddad destaca a importância de parcerias entre as próprias mulheres, indo na contramão de um histórico social em que eram instigadas a competir. Além disso, é essencial ter homens como parceiros, não como inimigos, e trabalhar juntos para transformar a cultura organizacional e eliminar barreiras estruturais.

A divulgação científica é essencial para traduzir informações acadêmicas em conteúdo acessível que ajude a vida das pessoas. Luciana Haddad iniciou seu trabalho em redes sociais durante a pandemia de Covid-19, expandindo temas para atividade física, alimentação e qualidade de vida. Para ela, se a ciência não se transformar em algo que beneficie a população, não faz sentido, sendo necessário explicar a ciência com equilíbrio e clareza.

Os pilares do empoderamento feminino incluem: empoderamento econômico, que garante liberdade financeira às mulheres; liderança, permitindo que ocupem posições de destaque; igualdade de oportunidade, assegurando acesso equitativo; e educação e formação, fornecendo ferramentas para desenvolvimento profissional. Esses pilares trabalham juntos para criar uma base sólida de transformação e independência feminina.

As gerações mais jovens já nascem em um mundo onde as mulheres se veem como diferentes, feministas e independentes, diferentemente das gerações anteriores. Luciana Haddad percebe essa mudança em sua filha de 16 anos, que cresce com uma visão mais progressista. Porém, ainda há necessidade de educar os meninos diante do machismo estrutural, tornando fundamental a transformação cultural através da parceria e da educação desde a infância.

Luciana é direta ao afirmar que a ciência é um universo apaixonante, sem tédio ou falta de desafios. Sua mensagem geral é categórica: meninas podem fazer o que quiserem, e o mundo é cada vez mais nosso. Embora ainda existam barreiras, ela acredita que a união fortalece o caminho e que o desafio é combustível para ir mais longe na carreira científica.