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O impacto na nutrição quando a carne sai do prato

Estudos apontam que dietas vegetarianas ou veganas podem levar à carência de micronutrientes essenciais, os quais poderiam ser facilmente balanceados por meio do consumo moderado de carne. A relação custo-benefício na alimentação também é impactada de acordo com as escolhas pessoais.

Por Rafael Motta em 10 de março, 2026

Atualizado: 17/08/2026 - 21:03

Três cortes de carne vermelha em uma tábua de madeira, simbolizando a importância de padrões dietéticos saudáveis na alimentação, com impacto na nutrição.
Foto: Minerva Foods

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Um estudo de modelagem alimentar, técnica matemática usada por nutricionistas e cientistas para estimar o que aconteceria com a saúde, analisou os efeitos da retirada de uma porção diária de carne ou aves de dietas enquadradas como Padrões Dietéticos Saudáveis (HDP). Os resultados mostraram que essa exclusão pode reduzir em mais de 10% a ingestão de nutrientes essenciais, como proteína, ferro, zinco e vitaminas do complexo B. 

A análise, publicada no MDPI (Multidisciplinary Digital Publishing Institute), considerou a retirada de uma porção de 85 gramas de carne ou frango, quantidade compatível com diretrizes nutricionais tradicionais. Ao realizar simulações sem essa porção, os pesquisadores observaram quedas consistentes em micronutrientes fundamentais à saúde, mesmo depois de ajustes calóricos para tentar compensá-los. 

Por que a redução no consumo de carne voltou aos debates?

Questões ambientais, econômicas e de saúde estão entre os principais fatores que impulsionam discussões sobre a redução (ou mesmo a anulação)  do consumo de carne em diferentes países. Contudo, os dados da pesquisa reforçam que estratégias de substituição devem ser incorporadas à dieta para evitar deficiências nutricionais. 

Um exemplo é o ferro. O mineral presente em alimentos vegetais é do tipo não heme, cuja absorção pelo organismo é significativamente menor quando comparada ao ferro heme, encontrado em carnes. Isso significa que dietas desequilibradas podem comprometer os estoques de ferro e aumentar o risco de anemia. O problema é acentuado em mulheres em idade fértil. Segundo essa revisão bibliográfica, publicada no PubMed, “as perdas de ferro por sangramento podem ser substanciais e a perda excessiva de sangue menstrual é a causa mais comum de deficiência de ferro em mulheres”, diz o estudo, complementando que “durante a gravidez, há um aumento significativo na necessidade de ferro devido ao rápido crescimento da placenta e do feto e à expansão da massa globular.”.

No gráfico abaixo pode-se observar a curva de necessidade diária desse grupo por idade, segundo necessidade estimada pelo United States Department of Agriculture (USDA) – Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), sintetizado neste artigo do Departamento de Nutrição da Universidade da Califórnia: “A Ingestão Diária Recomendada (IDR) de ferro para todos os grupos etários de homens e mulheres na pós-menopausa é de 8 mg/dia, e para mulheres na pré-menopausa é de 18 mg/dia. A diferença entre os valores dos dois grupos está relacionada principalmente à necessidade de repor as perdas de ferro decorrentes da menstruação. Mulheres grávidas necessitam de ainda mais ferro: 27 mg/dia. Para crianças de ambos os sexos, entre 6 meses e 11 anos de idade, a IDR é de 11 mg/dia.: 

Figura 4: Evolução da necessidade nutricional de ferro para as mulheres de 4 a mais de 50 anos.

Fonte: Elaborado pela Adeca Agronegócios 2025 – grupo de consultoria da ESALQ/USP filiado ao Cepea, com base em USDA, 2020. 

Uma revisão de 2024, publicada no MDPI, destaca a vitamina B12 que existe naturalmente em carnes. Sua deficiência pode causar anemia megaloblástica, fadiga intensa, alterações neurológicas e cognitivas. A literatura científica ainda aponta que esse é o principal ponto de atenção na dieta de vegetarianos e de veganos, sendo recomendável fazer uso de suplementação sistemática para evitar problemas no longo prazo. 

A deficiência de vitamina D, por sua vez, afeta amplos segmentos da população, independentemente do padrão alimentar. No entanto, ainda segundo o estudo,  dietas veganas estavam associadas a uma menor ingestão de vitamina D em comparação com dietas onívoras e outras dietas vegetarianas, ou a uma ingestão inferior ao valor de referência (com base em 11 estudos com um total de 4703 participantes). Esse quadro pode levar à fragilidade óssea, redução da imunidade e risco cardiometabólico. Embora o sol seja o principal responsável pela síntese da vitamina D no organismo, os alimentos de origem animal funcionam como um suporte crítico, fornecendo a vitamina D3 pré-formada e as gorduras necessárias para sua absorção.

Segundo dados do Ministério da Saúde, cerca de 30% das mulheres em idade fértil no Brasil apresentam anemia. A prevalência é mais elevada em grupos de baixa renda e em populações de regiões com maior insegurança alimentar, onde a carne e o peixe – fontes de ferro de alta absorção – são frequentemente os primeiros a serem cortados da dieta devido ao custo.

Dieta com menos carne e HDP: é possível? 

Sim, mas com ressalvas. Os estudos apontam a necessidade de construir um planejamento nutricional adequado para garantir o suprimento de micronutrientes essenciais. No entanto, os custos envolvendo alimentação tendem a aumentar se esse for o objetivo. 

De acordo com o relatório da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) State of Food Security and Nutrition in the World 2025, o preço de uma dieta saudável na América Latina aumentou 3,8%, entre 2023 e 2024, chegando a R$ 30 por dia, a mais cara do mundo. A FAO entende como dieta saudável uma alimentação que inclui quatro aspectos principais: diversidade (dentro e entre grupos de alimentos), adequação (suficiência de todos os nutrientes essenciais em relação às necessidades), moderação (no caso de alimentação e nutrientes associados a resultados ruins para a saúde) e equilíbrio (ingestão de energia e macronutrientes).

Apesar da alta dos preços, a quantidade de brasileiros sem condições para pagar por alimentos melhores aumentou. Em 2017, o número de pessoas incapazes de custear dietas adequadas era de 57,2 milhões (cerca de 27% da população); em 2020, o número caiu para 42,1 milhões de pessoas (19,8% da população). Os índices poderiam ser ainda melhores se não fosse pelo aparecimento da pandemia. 

Dúvidas mais comuns

Segundo estudo de modelagem alimentar, a exclusão de uma porção diária de carne ou aves pode reduzir em mais de 10% a ingestão de nutrientes essenciais como proteína, ferro, zinco e vitaminas do complexo B. Essas deficiências podem ocorrer mesmo após ajustes calóricos para tentar compensá-los, tornando necessário um planejamento nutricional adequado para manter a saúde.

O ferro presente em alimentos vegetais é do tipo não heme, cuja absorção pelo organismo é significativamente menor quando comparada ao ferro heme, encontrado em carnes. Essa diferença é especialmente preocupante para mulheres em idade fértil, que necessitam de 18 mg de ferro diário (comparado aos 8 mg para homens), aumentando o risco de anemia se a dieta não for adequadamente planejada.

A vitamina B12 existe naturalmente em carnes e sua deficiência pode causar anemia megaloblástica, fadiga intensa e alterações neurológicas e cognitivas. A literatura científica aponta que esse é o principal ponto de atenção na dieta de vegetarianos e veganos, sendo recomendável fazer uso de suplementação sistemática para evitar problemas no longo prazo.

Dietas veganas estão associadas a uma menor ingestão de vitamina D em comparação com dietas onívoras. Embora o sol seja o principal responsável pela síntese da vitamina D no organismo, os alimentos de origem animal funcionam como suporte crítico, fornecendo vitamina D3 pré-formada e as gorduras necessárias para sua absorção, o que pode levar à fragilidade óssea e redução da imunidade.

Sim, mas com ressalvas e necessidade de planejamento nutricional adequado. É possível substituir 100 g de carne por uma concha de leguminosas (feijões, ervilha, lentilha, grão de bico), mas os custos envolvendo alimentação tendem a aumentar. Segundo a FAO, uma dieta saudável na América Latina custa em média R$ 30 por dia, sendo a mais cara do mundo.

Reduzir ou eliminar a carne pode aumentar significativamente os custos da alimentação. De acordo com relatório da FAO, o preço de uma dieta saudável na América Latina aumentou 3,8% entre 2023 e 2024. Essa situação é particularmente desafiadora para populações de baixa renda, onde a carne e o peixe – fontes de ferro de alta absorção – são frequentemente os primeiros alimentos cortados da dieta devido ao custo.

Mulheres em idade fértil necessitam de 18 mg de ferro diário (comparado aos 8 mg para homens e mulheres pós-menopausa), devido às perdas menstruais. Durante a gravidez, essa necessidade aumenta para 27 mg diários. No Brasil, cerca de 30% das mulheres em idade fértil apresentam anemia, com prevalência ainda maior em grupos de baixa renda onde a carne é frequentemente eliminada da dieta.

A FAO define dieta saudável como aquela que inclui quatro aspectos principais: diversidade (dentro e entre grupos de alimentos), adequação (suficiência de todos os nutrientes essenciais), moderação (no caso de nutrientes associados a resultados ruins para a saúde) e equilíbrio (ingestão apropriada de energia e macronutrientes). Esses critérios devem ser mantidos mesmo ao reduzir o consumo de carne.