Crise sanitária nos EUA aquece exportações de carne bovina do Brasil

Com o rebanho no menor nível desde 1952 e o avanço da bicheira-do-novo-mundo na fronteira, os EUA enfrentam um vácuo de oferta que deve ser preenchido pelas exportações de carne bovina do Brasil.

Por Rafael Motta em 26 de agosto, 2026

Atualizado: 27/08/2026 - 12:44

Mosca pousada sobre uma folha verde, com asas e olhos visíveis, em close-up com fundo desfocado. A imagem destaca detalhes do inseto e da textura das folhas, em ambiente natural. exportações de carne bovina
Foto: Rmd_17 / Shutterstock

 A confirmação recente de surtos da bicheira-do-novo-mundo (Cochliomyia hominivorax) em território norte-americano e ao longo da fronteira mexicana fez com que o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) acendesse o alerta vermelho. Dados oficiais apontam que o rebanho atual atingiu o menor índice desde 1952 – fazendo com que os Estados Unidos tenham que importar carne para manter o mercado interno devidamente abastecido. O número de cabeças de gado caiu 13% desde 2019, chegando a aproximadamente 27,9 milhões.

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O avanço da chamada “praga do México”, entretanto, funciona como um catalisador estrutural: o fenômeno deve impulsionar as exportações de carne bovina do Brasil para patamares históricos ao longo do segundo semestre de 2026.

Entenda o retorno da “Praga Fantasma”

A bicheira-do-novo-mundo não é uma ameaça desconhecida para os pecuaristas norte-americanos, mas sua reaparição representa um retrocesso sanitário de proporções alarmantes. Causada pelas larvas da mosca-varejeira, que se alimentam de tecidos vivos de animais de sangue quente, a infestação – também conhecida como miíase traumática – pode deteriorar órgãos vitais e levar os animais à morte em poucos dias se não for tratada de forma acelerada e agressiva. 

Conforme detalhado pelo Brazil Journal, a rastreabilidade dos animais infestados é a forma mais comum de disseminação da praga, o que torna o controle de trânsito pecuário uma prioridade crítica. Os Estados Unidos haviam erradicado o parasita de seu território doméstico em 1966, mantendo desde então uma rigorosa barreira biológica na América Central, baseada na liberação de insetos estéreis, para evitar a reintrodução da praga a partir do sul.

De acordo com a Exame Agro, o surto atual deve dificultar ainda mais os planos do governo atual de reduzir os preços da carne bovina no país. Em abril, o preço da carne moída, matéria-prima principal dos hambúrgueres, atingiu o preço-recorde de US$ 6,90 por libra-peso. Esse é o índice mais alarmante já registrado da série histórica do Bureau of Labor Statistics (BLS), órgão que metrifica estatísticas trabalhistas nos EUA.

Como o Brasil pode se beneficiar disso?

Vista aérea de um grande rebanho de gado branco pastando em um pasto verdejante, cercado por árvores sob um céu parcialmente nublado, ilustrando a próspera indústria pecuária que sustenta as exportações de carne bovina.
Foto: Minerva Foods

Neste hiato de ofertas, o agronegócio brasileiro se posiciona como o ator central e estratégico do mercado global de carne bovina. Detentor do maior rebanho comercial do mundo e registrando seguidos recordes de produtividade, o Brasil vive o momento oposto ao norte-americano, caracterizado por uma elevada disponibilidade de animais para o abate e por um status sanitário robusto, livre da bicheira-do-novo-mundo em suas regiões exportadoras regulamentadas. A competitividade brasileira no mercado externo também depende de mecanismos de inspeção sanitária da carne, como o SIF, que verificam estabelecimentos e produtos destinados ao comércio interestadual e à exportação.

Conforme analisa Fernando Iglesias em entrevista ao Exame Agro, especialista em pecuária da consultoria Safras & Mercado, a escassez física de carne nos Estados Unidos atingiu um nível de severidade tamanho que a tendência de alta nas compras de proteína brasileira se manterá inabalável ao longo do segundo semestre de 2026, independentemente do sucesso ou velocidade das medidas de contenção biológica contra a mosca-varejeira no Texas. “O surto agrava uma situação que já era delicada. A oferta de animais está muito restrita e a recuperação do rebanho será lenta. Por isso, independentemente da evolução da doença, a tendência é que o Brasil siga ampliando as vendas de carne bovina para o mercado americano ao longo deste ano.”

A necessidade da indústria de processamento e das redes de varejo dos Estados Unidos de cumprir seus contratos de fornecimento deve levar o país a absorver os custos das tarifas adicionais e outras barreiras comerciais. Com isso, o valor pago ao exportador brasileiro aumenta, ampliando suas margens. Segundo João Figueiredo, líder de pecuária da Datagro, os Estados Unidos devem importar cerca de 200 mil toneladas a mais, elevando o volume total para aproximadamente 500 mil toneladas.

Dúvidas mais comuns

A bicheira-do-novo-mundo (Cochliomyia hominivorax) é uma infestação causada pelas larvas da mosca-varejeira, que se alimentam de tecidos vivos de animais de sangue quente. Também conhecida como miíase traumática, essa praga pode deteriorar órgãos vitais e levar os animais à morte em poucos dias se não for tratada rapidamente. Os Estados Unidos haviam erradicado o parasita em 1966, mas sua reaparição recente representa um retrocesso sanitário significativo que compromete a saúde do rebanho americano.

O rebanho americano caiu 13% desde 2019, chegando a aproximadamente 27,9 milhões de cabeças de gado. Essa redução foi causada por uma combinação de fatores, incluindo a crise sanitária provocada pela reaparição da bicheira-do-novo-mundo, a baixa oferta de carne no mercado e as dificuldades econômicas enfrentadas pelos pecuaristas norte-americanos. Essa escassez forçou os Estados Unidos a aumentar suas importações de carne para manter o mercado interno adequadamente abastecido.

O Brasil se posiciona como ator central no mercado global de carne bovina, possuindo o maior rebanho comercial do mundo e registrando recordes de produtividade. Com status sanitário robusto e livre da bicheira-do-novo-mundo em suas regiões exportadoras regulamentadas, o Brasil está bem posicionado para aumentar suas exportações para os Estados Unidos. Espera-se que o país amplie suas vendas de carne bovina para patamares históricos ao longo do segundo semestre de 2026, com previsão de importações americanas aumentarem em cerca de 200 mil toneladas.

A crise de oferta de carne nos Estados Unidos atingiu níveis severos, com o preço da carne moída atingindo o recorde de US$ 6,90 por libra-peso em abril, o maior índice já registrado pela série histórica do Bureau of Labor Statistics. Essa escassez física de carne é tão grave que a tendência de alta nas compras de proteína brasileira se manterá inabalável ao longo de 2026, independentemente do sucesso das medidas de contenção biológica contra a mosca-varejeira.

A rastreabilidade dos animais infestados é a forma mais comum de disseminação da praga, tornando o controle de trânsito pecuário uma prioridade crítica. Os Estados Unidos mantinham desde 1966 uma rigorosa barreira biológica na América Central, baseada na liberação de insetos estéreis, para evitar a reintrodução da praga a partir do sul. O surto atual demonstra como o movimento de animais infectados pode comprometer rapidamente os esforços de contenção sanitária.

O SIF (Serviço de Inspeção Federal) é um mecanismo de inspeção sanitária da carne que verifica estabelecimentos e produtos destinados ao comércio interestadual e à exportação. Esse sistema garante que a carne bovina brasileira atenda aos mais altos padrões sanitários, reforçando o status sanitário robusto do Brasil e sua capacidade de fornecer carne segura e confiável para o mercado internacional, especialmente em momentos de crise como o atual.

A indústria de processamento e as redes de varejo dos Estados Unidos precisam cumprir seus contratos de fornecimento com clientes. Diante da escassez severa de carne doméstica, essas empresas não têm alternativa senão absorver os custos das tarifas adicionais e outras barreiras comerciais para importar carne brasileira. Isso resulta em aumento do valor pago ao exportador brasileiro, ampliando suas margens de lucro mesmo com as barreiras comerciais impostas.

Segundo João Figueiredo, líder de pecuária da Datagro, os Estados Unidos devem importar cerca de 200 mil toneladas a mais de carne bovina, elevando o volume total para aproximadamente 500 mil toneladas. Essa expansão significativa nas importações reflete a gravidade da crise sanitária e da escassez de oferta doméstica, criando uma oportunidade histórica para os exportadores brasileiros de carne bovina.