O papel do Brasil na segurança alimentar global

Com inovação e vanguarda técnica, pecuária brasileira tem o potencial de atender à crescente demanda mundial por proteínas.

Por Marcia Tojal em 5 de novembro, 2025

Atualizado: 04/11/2025 - 12:30

Gado Nelore com chip na orelha esquerda, tecnologia que promove a rastreabilidade e sustentabilidade, para ilustrar matéria sobrw o papel do Brasil na segurança alimentar global
Foto: Minerva Foods

De acordo com as estimativas e projeções populacionais oficiais do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da Organização das Nações Unidas (ONU), revisadas em 2024, a população mundial deve atingir cerca de 9,7 bilhões em 2050. Esse cenário, combinado à limitação crescente dos recursos naturais e as pressões sobre os sistemas produtivos, impõe desafios profundos à segurança alimentar mundial – um dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

Já conhecido como “celeiro do mundo”, o Brasil tem o potencial de atender a essa demanda com produtividade, eficiência e sustentabilidade.

8,2 bilhões de habitantes e recursos pressionados

Considerando que em 2025 a população global é estimada em 8,2 bilhões, o avanço populacional previsto para os próximos 25 anos representa um crescimento de aproximadamente 18%. Embora a taxa de crescimento populacional tenha sido de cerca de 34% nos últimos 25 anos — evidenciando uma desaceleração reflexo da queda das taxas de fecundidade em diversas regiões — o fato de que áreas agrícolas, solos férteis e recursos hídricos estarem cada vez mais escassos e degradados torna o cenário desafiador para a segurança alimentar. 

Estudo da Food and Agriculture Organization of the United Nations (FAO) mostra que os sistemas de terra, solo e água estão “em ponto de ruptura” devido ao uso insustentável, comprometendo a produtividade agrícola. 

Segundo o documento, “a degradação induzida pelo homem afeta 34% das terras agrícolas”. A informação é corroborada pela segunda edição do Global Land Outlook, publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), em colaboração com a FAO e a Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (UNCCD, na sigla em inglês). O relatório mostra que entre 20% e 40% da área terrestre global está degradada ou em processo de degradação em diferentes extensões e graus.

A limitação de terras produtivas e a degradação do solo representam um obstáculo crescente à expansão das produções agrícola e pecuária. Dessa forma, a demanda por alimentos tende a crescer em ritmo mais acelerado do que a expansão de novas áreas agricultáveis — hoje praticamente estagnada devido à limitação de terras disponíveis e à necessidade de preservar ecossistemas naturais. 

Gados caminhando em um pasto integrado com vegetação florestal ao lado.
Foto: Minerva Foods

Segurança alimentar num contexto de população mundial crescente

Neste cenário, o desafio de alimentar uma população mundial crescente de forma segura e sustentável posiciona o Brasil em um papel de protagonismo. Conhecido como celeiro do mundo, o País é o maior exportador de carne bovina e o segundo maior produtor. Exportando para mais de 160 países, demonstra sua capacidade de atender a diferentes exigências, inclusive, as mais rigorosas, seja em termos de sustentabilidade, de segurança e de qualidade do alimento.

O protagonismo brasileiro

Esse protagonismo decorre de uma combinação rara de fatores, a começar pela sua própria natureza. O Brasil reúne condições naturais favoráveis, como abundância de água doce, chuvas abundantes, clima tropical  e vastas áreas agricultáveis já consolidadas.

Sustentado por um avanço tecnológico expressivo na produção agropecuária, o País tem ampliado sua produtividade sem necessidade de conversão de novas áreas, como demonstra o Efeito Poupa-Terra, indicador da eficiência agrícola brasileira reconhecido pela FAO e pelo Ipea.

Esse resultado é impulsionado por investimentos contínuos em melhoramento genético, manejo sustentável de pastagens, integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) e uso racional de bioinsumos, práticas que reduzem emissões de gases de efeito estufa, regeneram o solo, promovem a circularidade de recursos, entre outros benefícios. 

Além disso, a matriz energética majoritariamente renovável e o reconhecimento internacional em práticas de baixo carbono reforçam sua credibilidade como um fornecedor estratégico de alimentos, fibras e energia em um mundo que busca simultaneamente segurança alimentar e sustentabilidade ambiental.

Segurança alimentar e a tecnologia como motor da vanguarda brasileira

O crescimento da pecuária brasileira não se deu apenas em escala, mas em eficiência, sustentabilidade e qualidade. Este avanço é resultado direto do investimento contínuo em tecnologia, rastreabilidade e saúde animal.

Segundo o Índice Agrotech GS1 Brasil 2025, nos últimos cinco anos a adoção de tecnologias no campo tem crescido de modo expressivo, com destaque para automação, monitoramento remoto e controle nutricional de precisão. Considerando as diferentes etapas do ciclo, incluindo preparo e manejo do solo, além de criação e alimentação dos rebanhos, a pecuária registrou um avanço de 29% em automação.

Essas inovações são reforçadas por programas públicos e privados, como o Plano ABC+, que estimula práticas de baixa emissão, e o Programa Renove, da Minerva Foods, que impulsiona uma agropecuária sustentável, rentável e de baixa emissão de carbono

A tradição agrícola combinada à ciência também resulta em avanços significativos, como destaca a ONU na contextualização do ODS 2 – Segurança alimentar e nutricional e agricultura sustentável – “há muitos elementos do conhecimento tradicional dos agricultores que, enriquecidos pelos conhecimentos científicos mais recentes, podem dar suporte a sistemas alimentares produtivos por meio do manejo sólido e sustentável do solo, da terra, da água, dos nutrientes e das pragas, além do uso mais amplo de fertilizantes orgânicos.”

Rastreabilidade, novo avanço em curso

Um avanço em curso é a rastreabilidade, que deixou de ser diferencial competitivo para se tornar requisito. 

Atualmente, o Brasil já conta com dois sistemas oficiais de rastreamento na pecuária: o (Sistema Brasileiro de Identificação e Certificação de Origem Bovina e Bubalina (SISBOV), que surgiu de uma demanda da  União Europeia e se ampliou para outros mercados, e o SISBOV 076, aplicado aos animais vivos destinados a mercados internacionais. O número 76 é uma identificação nacional de todo bovino brasileiro rastreado, seguido de 12 números. O registro é feito em microchips implantáveis, brincos eletrônicos, bolus intra-ruminal ou bottoms, que permitem a leitura por radiofrequência.

Embora representem um avanço importante em transparência e controle sanitário, os sistemas precisam evoluir em integração, cobertura e digitalização. É o que propõe o Plano Nacional de Rastreabilidade da Pecuária, lançado em 2024 pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), que busca superar esses desafios ao estabelecer uma plataforma nacional unificada e metas de adesão gradual até 2032.

A medida visa não apenas atender às novas exigências de mercados internacionais – como a União Europeia, que passará a demandar comprovação de desmatamento zero —, mas também agregar valor à carne brasileira, reforçando sua imagem de produto seguro, sustentável e competitivo.

Entre potencialidades e desafios

Segundo o relatório OECD-FAO Agricultural Outlook 2024-2033, a América Latina e o Caribe desempenham um papel central na oferta global de alimentos. Entre 2021 e 2023, a região respondeu por 13% do valor líquido da produção agropecuária e pesqueira mundial e por 18% das exportações totais, resultado impulsionado principalmente pela América do Sul. O documento destaca que “dadas suas condições favoráveis de recursos, a América Latina e o Caribe são grandes contribuidoras para a agricultura mundial”, evidenciando o potencial do bloco — e, em especial, do Brasil — como fornecedor estratégico de alimentos em escala global. 

A projeção é que o Brasil, assim como os Estados Unidos, respondam, cada um, por cerca de 20% das exportações globais de carnes até 2033, consolidando o papel brasileiro nessa cadeia global. 

O futuro da competitividade da região, no entanto, dependerá de fatores como eficiência no uso de insumos, abertura ao comércio e estratégias eficazes de mitigação e adaptação às mudanças climáticas.

Ao mesmo tempo, a FAO adverte que terra, solo e água estão sob forte pressão, exigindo ganhos de produtividade e eficiência (e não a simples expansão de área) para sustentar a oferta global de alimentos. No caso brasileiro, o potencial produtivo é reforçado por vantagens estruturais, como a disponibilidade de água doce (cerca de 12% das reservas superficiais do planeta, conforme estudos OCDE/ANA), e por ganhos recentes de competitividade e escala nas proteínas animais, com recordes de exportação de carne bovina reportados por entidades do setor.

Segurança alimentar e os desafios internos a serem superados

Mas para consolidar esse protagonismo, o Brasil, assim como seus vizinhos, precisa superar desafios estruturais e sociais persistentes. O relatório da FAO lembra que “a segurança alimentar é um desafio permanente” e que os avanços obtidos desde o início dos anos 2000 começaram a se reverter após 2014, quando o progresso na redução da pobreza estagnou. 

A combinação de crises sucessivas, como a pandemia da COVID-19, guerra na Ucrânia, inflação de alimentos e aumento do custo de vida, agravou a vulnerabilidade alimentar em toda a região, afetando especialmente mulheres e populações rurais. 

Embora a recuperação econômica e programas de proteção social tenham atenuado parte dos impactos, o documento aponta que a desigualdade, a instabilidade macroeconômica e a dependência do comércio externo continuam a limitar o ritmo de melhoria.

Com o PIB per capita regional projetado para atingir US$ 10,9 mil até 2033, ainda 20% abaixo da média global, a OCDE e a FAO concluem que o crescimento futuro dependerá de políticas consistentes de inclusão social, estabilidade econômica e sustentabilidade ambiental. 

O potencial do Brasil como provedor de alimentos para o mundo está claro, mas sua concretização exige reduzir desigualdades, fortalecer a resiliência produtiva e manter o equilíbrio entre competitividade e preservação ambiental.

Fontes de referência:

Dúvidas mais comuns

Conforme a FAO, a segurança alimentar ocorre quando todas as pessoas têm acesso físico, social e econômico permanente a alimentos seguros, nutritivos e em quantidade suficiente para satisfazer suas necessidades nutricionais. No contexto global, trata-se de um desafio permanente que envolve garantir essa disponibilidade e acesso para uma população mundial crescente, considerando a limitação de recursos naturais e a degradação dos sistemas de terra, solo e água.

O Brasil reúne uma combinação rara de fatores que o posicionam como protagonista na segurança alimentar global. O país possui abundância de água doce (cerca de 12% das reservas superficiais do planeta), chuvas abundantes, clima tropical favorável e vastas áreas agricultáveis já consolidadas. Além disso, combina essas vantagens naturais com avanço tecnológico expressivo, matriz energética majoritariamente renovável e reconhecimento internacional em práticas de baixo carbono, consolidando sua credibilidade como fornecedor estratégico de alimentos.

O Brasil utiliza o chamado Efeito Poupa-Terra, um indicador de eficiência agrícola reconhecido pela FAO e pelo Ipea. Esse resultado é impulsionado por investimentos contínuos em melhoramento genético, manejo sustentável de pastagens, integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) e uso racional de bioinsumos. Essas práticas reduzem emissões de gases de efeito estufa, regeneram o solo, promovem a circularidade de recursos e permitem que o país amplie sua produtividade sem necessidade de conversão de novas áreas.

De acordo com as estimativas e projeções populacionais oficiais da ONU revisadas em 2024, a população mundial deve atingir cerca de 9,7 bilhões em 2050. Considerando que em 2025 a população global é estimada em 8,2 bilhões, esse avanço representa um crescimento de aproximadamente 18% nos próximos 25 anos, embora a taxa de crescimento tenha desacelerado em comparação aos últimos 25 anos.

Os principais desafios incluem a limitação crescente de recursos naturais, a degradação dos sistemas de terra, solo e água, e a pressão sobre os sistemas produtivos. Estudos da FAO mostram que 34% das terras agrícolas sofrem degradação induzida pelo homem, e entre 20% e 40% da área terrestre global está degradada ou em processo de degradação. A demanda por alimentos tende a crescer em ritmo mais acelerado do que a expansão de novas áreas agricultáveis, exigindo ganhos de produtividade e eficiência.

A rastreabilidade deixou de ser um diferencial competitivo para se tornar um requisito essencial. O Brasil conta com dois sistemas oficiais: o SISBOV (Sistema Brasileiro de Identificação e Certificação de Origem Bovina e Bubalina) e o SISBOV 076, que utilizam microchips, brincos eletrônicos ou bolus intra-ruminal para identificação por radiofrequência. O Plano Nacional de Rastreabilidade da Pecuária, lançado em 2024, busca criar uma plataforma nacional unificada para atender às novas exigências de mercados internacionais, como a União Europeia, e agregar valor à carne brasileira.

A tecnologia é fundamental para o avanço da pecuária brasileira em eficiência, sustentabilidade e qualidade. Segundo o Índice Agrotech GS1 Brasil 2025, nos últimos cinco anos a adoção de tecnologias no campo cresceu expressivamente, com destaque para automação, monitoramento remoto e controle nutricional de precisão. A pecuária registrou um avanço de 29% em automação, reforçado por programas como o Plano ABC+ e o Programa Renove, que estimulam práticas de baixa emissão de carbono e agropecuária sustentável.

Além dos desafios globais, o Brasil enfrenta desafios estruturais e sociais persistentes, como desigualdade, instabilidade macroeconômica e dependência do comércio externo. A FAO aponta que os avanços na redução da pobreza estagnaram após 2014, e crises sucessivas como a pandemia, guerra na Ucrânia e inflação agravaram a vulnerabilidade alimentar. Com o PIB per capita regional projetado em US$ 10,9 mil até 2033, ainda 20% abaixo da média global, o crescimento futuro dependerá de políticas consistentes de inclusão social, estabilidade econômica e sustentabilidade ambiental.