O Brasil encerrou 2025 com o maior volume e valor já registrados em suas exportações de carne bovina, consolidando-se como um dos principais fornecedores globais de proteína animal. Segundo dados oficiais compilados pela Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC), o País exportou 3,50 milhões de toneladas, um crescimento de 20,9% em relação a 2024, com receita de US$ 18,03 bilhões, alta de 40,1% no mesmo período.
A carne bovina in natura respondeu pela maior parte desse desempenho, com 3,09 milhões de toneladas exportadas e 16,61 bilhões em receita. Ao longo do ano, os embarques brasileiros alcançaram mais de 170 países, evidenciando tanto o aumento de escala, quanto o esforço de diversificação geográfica.
China lidera, mas dependência segue como ponto de atenção
A China manteve-se como principal destino da carne bovina brasileira em 2025, concentrando 48% do volume exportado. Foram 1,68 milhão de toneladas, o que gerou 8,90 bilhões em receita. A centralidade do mercado chinês continua sendo um dos pilares do desempenho brasileiro, mas também representa um fator de vulnerabilidade diante de mudanças regulatórias ou comerciais.
Apesar de seguir como destino dominante, a China anunciou a adoção de medidas de salvaguarda que incluem tarifas adicionais sobre importações de carne bovina que excedam determinados volumes, com vigência prevista a partir de 2026. Segundo diretrizes do Ministério do Comércio da China (Mofcom), o novo regime impõe uma cota anual de 1,1 milhão de toneladas para o Brasil, com tarifa de 12% para os volumes dentro da quota e uma sobretaxa de 55% sobre qualquer volume excedente — o que eleva a tributação total para 67% e visa proteger a rentabilidade dos pecuaristas chineses. A medida inclui ainda um sistema de monitoramento de gatilhos, com alertas emitidos conforme o consumo das cotas, e prevê revisões anuais de volume até 2028, conforme dados oficiais do governo chinês e análises da DATAGRO Pecuária.
Matéria do Valor International sugere que a medida pode reduzir o ritmo das importações chinesas nos próximos anos, o que aumenta a pressão sobre exportadores altamente dependentes desse mercado. Nesse cenário, ganha força a necessidade de consolidar mercados alternativos, ampliar o valor médio por tonelada exportada, especialmente com produtos de alto valor agregado, e atender exigências crescentes de rastreabilidade e conformidade ambiental.
América do Norte: oportunidades com volatilidade
Na sequência, os Estados Unidos ocuparam a segunda posição, com 271,8 mil toneladas e 1,64 bilhão em compras. O ranking dos principais destinos foi completado por Chile, União Europeia, Rússia e México, que vêm ganhando relevância como alternativas estratégicas para reduzir a concentração em um único mercado.
O mercado norte-americano segue relevante para o setor brasileiro, tanto pelo volume, quanto pelo valor agregado. No entanto, 2025 também expôs a volatilidade desse corredor comercial. Segundo reportagem da Reuters, o México superou os EUA como segundo maior destino da carne bovina brasileira em determinado momento do ano, após a adoção de novas tarifas pelos Estados Unidos. O movimento levou autoridades mexicanas a acelerar auditorias para ampliar o número de frigoríficos brasileiros habilitados, abrindo uma janela de oportunidade para o avanço no mercado latino-americano.
União Europeia e diversificação ganham peso estratégico

O crescimento das exportações para a União Europeia e para países da América Latina reforça uma tendência clara: a diversificação deixou de ser apenas uma estratégia defensiva e passou a integrar o modelo de crescimento do setor. Em um contexto de maiores instabilidades geopolítica e comercial, ampliar o portfólio de destinos tornou-se essencial para sustentar volumes e mitigar riscos.
Esse movimento é particularmente relevante diante da perspectiva de mudanças no principal mercado do Brasil.
Sustentabilidade e rastreabilidade como ativos de mercado
A agenda ambiental vem deixando de ser apenas reputacional para se tornar um fator concreto de competitividade no comércio internacional de proteínas. Um exemplo disso é a entrada em vigor plena da Lei Antidesmatamento da União Europeia (EUDR), a partir de dezembro de 2026, que passará a exigir que exportadores de carne bovina comprovem, por meio de georreferenciamento e rastreabilidade total, que o produto não é oriundo de áreas desmatadas após 31 de dezembro de 2020 —mesmo que o desmate tenha sido legal perante a legislação brasileira.
Saiba mais: Até 2032 todo rebanho bovino brasileiro deve estar rastreado individualmente
Um mercado maior, mas também mais complexo
O desempenho recorde de 2025 reposicionou o Brasil em um novo patamar no mercado global de proteína bovina. No entanto, o cenário à frente tende a exigir mais sofisticação estratégica. A combinação de dependência chinesa, volatilidade tarifária, novas exigências ambientais e disputa por mercados premium deve moldar as decisões do setor nos próximos anos.
Mais do que crescer em volume, o desafio passa a ser crescer com inteligência comercial, ampliando destinos, agregando valor e garantindo previsibilidade em um ambiente global cada vez mais pautado em disrupções.
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