Sombra que engorda! Conforto térmico para o gado aumenta a conversão alimentar

Medida simples, que reduz a exposição dos bovinos a estresse térmico em até 85%, reduz necessidade de consumo de água, e permite que energia seja direcionada à ganho de peso.

Por Rafael Motta em 8 de abril, 2026

Atualizado: 06/07/2026 - 14:48

Imagem gerada digitalmente

Um artigo publicado na revista Animals, que apresenta um estudo conduzido pela Minerva Foods em parceria com o Welfare Footprint Institute, concluiu que oferecer sombra adequadamente, tanto em espaços confinados como abertos, reduz a exposição dos bovinos a estresse térmico severo em cerca de 85%.

Segundo os pesquisadores, o estresse térmico afeta o bem-estar animal e a produtividade em regiões tropicais. Isso acontece porque o ambiente impõe uma carga de calor muito maior do que a capacidade fisiológica dos animais de dissipá-lo. O estudo mostra que, em 65% das regiões analisadas, abrangendo 636 municípios no Brasil, Argentina, Colômbia, Paraguai e Uruguai, o gado enfrenta 280 a 2.800 horas anuais de desconforto térmico moderado a intenso, o que provoca redução da ingestão de alimentos, problemas digestivos, imunossupressão e maior risco de doenças infecciosas, bem como maior mortalidade.

As vantagens não se resumem ao conforto térmico: elas se refletem também na forma de benefícios econômicos. O artigo referencia um estudo que  focou na fase de terminação (110 – 120 dias), na qual o ganho de peso é mais acentuado: bovinos Nelore (Bos indicus) com acesso a estruturas de sombra personalizadas ganharam até 8 kg de carcaça quente (peso do animal logo após abate e limpeza) a mais em comparação ao grupo sem controle de sombra, durante o mesmo período. 

De acordo com o estudo, ainda que os animais registrem um ganho de peso mais conservador de, por exemplo, 5 kg, é possível gerar entre US$ 15 e US$ 19 a mais de receita nos mesmos períodos de terminação (três vezes ao ano). O lucro líquido (subtraindo o custo médio de sombra, que é de US$ 2,3 por animal) gira em torno de US$ 12 a US$ 16 por animal, ou seja, são cerca de US$ 12 mil a US$ 15,7 mil, por mil animais terminados. 

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Por que o estresse térmico afeta tanto as espécies adaptadas?

Mesmo espécies “adaptadas”, como a Nelore, não conseguem lidar com o calor direto do sol, que faz a sensação térmica sobre o animal passar dos 40 °C, além da umidade elevada que impede a evaporação eficiente, e de semanas (ou mesmo meses) de exposição ao sol sem alívio. Caracterizada por pelagem clara, maior capacidade de sudorese e menor produção metabólica de calor, essa foi a principal espécie analisada pelos pesquisadores.

A sombra, portanto, se configura-se como uma ferramenta estratégica na pecuária, com impacto direto sobre o ganho de peso e  eficiência reprodutiva. Sua aplicação permite o controle de variáveis ambientais que afetam diretamente o metabolismo dos animais. Ao reduzir a carga térmica, ela permite que o gado diminua seu gasto energético direcionado à termorregulação, ou seja, a manter sua temperatura corporal estável. Dessa forma, a energia fica “livre” para executar funções produtivas — como ganho de peso e produção de leite. “Bovinos com acesso à sombra apresentaram temperatura da superfície corporal 5 °C menor, taxa respiratória de 10 respirações por minuto inferior (termo técnico que se refere à frequência respiratória) e ingestão diária de água 3,4 L menor em comparação aos animais sem sombra, além de uma melhoria de 4,5% na conversão alimentar”, afirma o estudo. 

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