A adoção de pastagens bem manejadas – rotacionadas, adubadas e com forragem de alto valor nutritivo – é uma das estratégias mais eficientes para aumentar a produtividade da pecuária de corte por hectare e ainda reduzir a pressão pela abertura de novas áreas.
Em um cenário em que 28 milhões de hectares de pastagens estão em níveis intermediários ou severos de degradação em áreas com muito bom e bom potencial agropecuário natural, como revelam os dados da Embrapa sobre o Brasil, ela se torna ainda mais relevante. A situação se destaca em estados como Mato Grosso, Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Pará, intensivos em atividades agrícolas.
Além dos impactos ambientais, o outro lado desta realidade é o impacto negativo sobre a produtividade. O manejo inadequado do solo compromete a capacidade de suporte das pastagens, ou seja, a quantidade de animais que uma área consegue sustentar de forma saudável e contínua. Com a perda dessa capacidade, muitos produtores passam a enxergar a abertura de novas áreas como solução para manter ou alimentar o rebanho, ainda que existam alternativas mais eficientes e sustentáveis, como a recuperação de áreas degradadas por meio da adoção de técnicas como sistemas de integração (como Lavoura-Pecuária-Floresta), que restauram a saúde do solo e, consequentemente, aceleram a engorda do boi.
Especialistas da Aegro apontam que a produção pode saltar de 2 arrobas (em um pasto degradado) para até 12 arrobas por hectare/ano (em um pasto recuperado e bem manejado). Isso representa um aumento de 500% na engorda do boi, sem a necessidade de expandir áreas. Esse salto ocorre graças a práticas como:
- Rotação de pastagens, que permite descanso e rebrota adequada das plantas de cobertura;
- Adubação e correção do solo, que repõem nutrientes essenciais;
- Controle de espécies de plantas invasoras e ajuste da lotação animal, evitando o superlotação;
- Recuperação direta ou indireta, com uso de culturas agrícolas para restaurar a fertilidade e acelerar a geração de matéria orgânica.
ILPF: integração que transforma a área rural
Entre as estratégias mais promissoras, destaca-se a ILPF (Integração Lavoura-Pecuária-Floresta), que combina diferentes sistemas produtivos na mesma área ao longo do ano. Esse modelo melhora a fertilidade do solo, aumenta a ciclagem de nutrientes, reduz a erosão do solo e amplia a biodiversidade, além de proporcionar maior conforto térmico aos animais e, em alguns casos, novas fontes de renda.
Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária, a ILPF permite a restauração de áreas degradadas, além de reduzir a necessidade de agroquímicos. Esse conjunto de ações, se bem executado, também traz benefícios financeiros aos produtores, pois permite maior previsibilidade nos ganhos financeiros ao longo do ano. Além disso, o sistema contribui para o balanço positivo de carbono, já que as árvores e o solo capturam CO₂ (dióxido de carbono) que seria emitido para a atmosfera.
Protocolos de manejo ao redor do Brasil

Devido à grande diversidade climática e de solos, há a necessidade de adaptar os sistemas de produção de acordo com a região. Empresas e instituições de pesquisa, como Embrapa e Rede ILPF, têm desenvolvido cultivares de espécies forrageiras adaptadas – técnicas de plantio direto em pastagens, além da integração de modelos de recuperação que incorporam agricultura temporária em formação de pasto. O sistema Santa Fé é um dos exemplos de técnicas incorporadas no Cerrado, como mostra essa matéria.
Já na região norte, para intensificar a pecuária sem desmatar na região da Amazônia, conforme abordado pelo projeto Amazônia 2030, utilizam-se sistemas como o pastejo rotacionado (divisão do pasto em áreas menores), cruzamento para melhorar a genética, inseminação artificial e terminação em currais (piquetes) em tempo parcial (semiconfinamento) ou integral (confinamento), com alimentação à grãos e outros, depois de passar a maior parte da vida no pasto. Nestes casos de confinamento e semiconfinamento, a fase de engorda chegou a ser entre 11 e 23 vezes mais produtiva do que nas fazendas tradicionais de baixa produtividade
No Sudeste, a maximização da produção de massa verde (forragem total produzida naturalmente na pastagem) tem na adubação nitrogenada uma boa prática que também amplia a qualidade da pastagem, embora a prática demande disponibilidade hídrica e temperaturas mais altas. No estado de São Paulo, a Embrapa Pecuária Sudeste recomenda que ela seja feita entre os meses de março e outubro, quando o clima está mais quente e há maior incidência de chuva. “O nitrogênio é um dos nutrientes essenciais para o desenvolvimento das plantas, juntamente com o fósforo (P) e potássio (K). O N proporciona aumento da produção de pastagem e, consequentemente, possibilita elevar o número de animais por hectare”, diz a publicação.
No Nordeste semiárido, as condições de manejo também são específicas. Por isso, sistemas de captação de água da chuva, como barragens subcutâneas, fazem parte das práticas recomendadas para criar a infraestrutura hídrica necessária para o manejo sustentável, que contempla práticas agroecológicas, como a rotação de culturas, cultivos consorciados (prática de cultivar duas ou mais espécies vegetais na mesma área simultaneamente ou com sobreposição de ciclos) e adubação orgânica com o uso de esterco ou outros componentes, conforme o documento Tecnologias de Convivência com o Semiárido Brasileiro.
Cultivares de capins adaptados, plantio direto em pastagens, recuperação indireta com agricultura e Integração Lavoura-Pecuária-Floresta são estratégias que, desde que bem aplicadas pelos produtores, são capazes de proporcionar uma pecuária mais produtiva, sustentável e alinhada aos padrões internacionais de conservação ambiental.
Fontes de referência
- A pecuária é o grande vilão do efeito estufa? Entenda o ciclo do metano bovino
- Barragem subterrânea
- Eficiência da adubação nitrogenada da pastagem depende de condições climáticas
- ILP e ILPF na Recuperação de Pastagens: Guia Completo [2025]
- ILPF é estratégia para reduzir emissões na agropecuária e ampliar acesso ao mercado de carbono
- ILPF transforma pastagens degradadas em áreas produtivas
- Integração Lavoura, Pecuária e Floresta – ILPF
- Políticas para desenvolver a pecuária na Amazônia sem desmatamento
- TecnologiaS de Convivência com o Semiárido BRASILEIRO