Menos calorias, novos negócios: o efeito do GLP-1 no carrinho de compras

Entenda como canetas emagrecedoras estão mudando o consumo e por que o exercício é vital para transformar a perda de peso em saúde.

Por Redação em 25 de maio, 2026

Atualizado: 25/05/2026 - 13:41

Fundo claro com seringas e frascos simulados de Ozempic e fitas métricas com números, sugerindo tratamento com glp-1 e controle de peso por dosagem.
Foto: Edugrafo / Shutterstock

As canetas emagrecedoras, que são medicamentos agonistas do receptor de GLP-1 (hormônio intestinal que regula a glicose no sangue, reduz o apetite e influencia o metabolismo), como Ozempic, Mounjaro e Wegovy, deixaram de impactar apenas consultórios médicos e passaram a influenciar também o comportamento de consumo. Nos Estados Unidos, os chamados “remédios emagrecedores” já alteram a forma como os norte-americanos têm comprado alimentos nos supermercados. 

Um estudo da Cornell SC Johnson College of Business, intitulado The No-Hunger Games: How GLP-1 Medication Adoption is Changing Consumer Food Demand, analisou dados de transações de um painel de 150 mil domicílios vinculados a pesquisas proprietárias sobre a adoção desses fármacos. Em julho de 2024, cerca de 16,3% dos domicílios dos EUA tinham pelo menos um usuário de GLP-1, o que corresponde a cerca de 8,3% da população do país. “Quase metade dos domicílios adotantes em nossa amostra relatam tomar medicamentos GLP-1 para perda de peso”, afirmam os pesquisadores.

Essa mudança mostrou um impacto maior nos domicílios de alta renda, com uma redução que chegou a 8,2% nos gastos com alimentos. Além disso, houve uma diminuição geral de 8% nos gastos em redes de fast food, cafeterias e restaurantes de serviço rápido. Esses ajustes persistiram durante o primeiro ano de uso do medicamento, embora com alguma atenuação após seis meses.

Entre as categorias mais afetadas, destacam-se os ultraprocessados, como salgadinhos (-10,1%), panificação doce (-8,8%) e biscoitos (-6,5%). Entretanto, praticamente todos os grupos alimentares foram impactados, incluindo carnes (-5,8%), ovos (-5,7%), pães (-5,2%) e até vegetais frescos (-5%). Leite fresco e cremes (-4,2%) também tiveram quedas durante o período. 

O “paradoxo funcional”

Idosa fazendo alongamento no parque ao ar livre, em uma esteira verde, com outras pessoas ao fundo praticando exercícios de alongamento
Foto: BearFotos / Shutterstock

Além da alimentação adequada, a prática de atividade física ganhou papel central nos protocolos envolvendo GLP-1. O estudo SEMALEAN, publicado no periódico Diabetes, Obesity and Metabolism, fornece uma síntese detalhada sobre como esses medicamentos influenciam a composição corporal e a funcionalidade muscular em pacientes com obesidade. Diferente de preocupações comuns sobre a perda indiscriminada de tecidos, o estudo demonstra um “paradoxo funcional”: a melhora da força muscular, apesar de uma redução quantitativa inicial de massa magra.

Entre fevereiro de 2022 e novembro de 2024, 115 pacientes receberam 2,4 mg de semaglutida (princípio ativo dessa classe de medicamento) semanalmente, ao longo de 12 meses. Os pacientes apresentaram uma perda de peso médio de 10% aos 7 meses e 13% aos 12 meses. A gordura corporal total diminuiu 14,3% aos 7 meses e atingiu 18,9% de redução ao final de um ano, com foco significativo na gordura visceral.

Os pesquisadores observaram que a substância não está apenas suprimindo o apetite: ela permite uma remodelação corporal favorável ao reduzir drasticamente a gordura visceral, além de melhorar a qualidade do músculo remanescente. Por isso, os especialistas reforçam que a realização de atividades físicas regulares são “obrigatórias” e “essenciais” diante da mudança no estilo de vida, além das interações medicamentosas.

A importância da proteína durante o tratamento 

Homem preparando um prato de comida na cozinha, ajustando os ingredientes em uma frigideira/assadeira com legumes e carne; imagem associada a glp-1 para contexto de alimentação e estilo de vida saudável.
Imagem gerada digitalmente

Medicamentos desse tipo diferem de qualquer intervenção anterior, como dietas ou políticas de taxação de bebidas açucaradas (tributos aplicados a produtos com alto teor de açúcar) pois atuam diretamente nos sinais de fome do corpo. Os autores do estudo explicam que eles imitam um hormônio natural do organismo e atuam no cérebro para reduzir o apetite e aumentar a sensação de saciedade, o que ajuda a diminuir a ingestão calórica. 

Esse movimento acende um alerta importante, pois os consumidores precisam tomar cuidados para garantir que os nutrientes essenciais não sejam negligenciados. Um artigo publicado pelo coordenador do curso de Medicina do Centro Universitário São Camilo de São Paulo, Raphael Einsfeld, e o nutricionista Marcus Quaresma, explica que a margem de ingestão proteica para pessoas sedentárias gira em torno de 0,6 a 1 g/kg/dia, enquanto pessoas fisicamente ativas devem consumir entre 1,6 e 2,2 g/kg/dia. Pessoas idosas devem consumir entre 1,2 e 1,6 g/kg/dia.

“As proteínas de origem animal são consideradas mais eficientes para a manutenção e o aumento da massa e força musculares devido ao seu alto valor biológico e perfil de aminoácidos essenciais”, orientam. Patinho, filet mignon e maminha, assim como outros cortes magros, são recomendados.

Fontes de referência:


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