O setor pecuarista chega a 2026 em um momento de transição, marcado por projeções otimistas e por desafios que vão moldar o desempenho ao longo do ano. As estimativas para o próximo ciclo combinam fatores como oscilações do ciclo pecuário, avanço de tecnologias mais robustas, foco crescente em sustentabilidade e impactos dos acordos comerciais internacionais. Todos esses elementos definem um cenário dinâmico para produtores e formuladores de políticas.
As projeções para o próximo ano indicam movimentos claros nos dois principais segmentos da pecuária. Na pecuária de corte, a expectativa é de menor disponibilidade de bovinos em 2026, consequência do maior abate de fêmeas nos ciclos anteriores, contexto que está combinado com um consumo doméstico aquecido, responsável por cerca de 70% da demanda nacional. No leite, a tendência é de aumento da oferta global, o que pode pressionar os preços para baixo no Brasil, especialmente se o PIB não apresentar crescimento robusto.
Essas análises foram discutidas no Benchmark Agro, promovido pela CNA, onde especialistas como Larissa Mouro (CNA), Thiago Rodrigues (Sebrae/MG), Glauco Carvalho (Embrapa Gado de Leite) e Fernando Silveira (Senar/SC) anteciparam as projeções e reforçaram a importância da eficiência produtiva e da gestão de custos para garantir a rentabilidade das propriedades.
No painel de corte, Antônio Chaker (Instituto Inttegra) e Rafael Ribeiro (CNA) também destacaram a necessidade da integração lavoura-pecuária-floresta e do uso de tecnologia para maximizar margens e garantir a manutenção do meio ambiente.
Setor pecuarista busca novos modelos

Em reportagem do Globo Rural, a CEO da Agrifatto, Lygia Pimentel, destaca que o abate de fêmeas tornou o Brasil mais competitivo internacionalmente, com preços aproximadamente 22% mais baixos que os principais concorrentes. Andréa Angelo, estrategista da Warren, projeta uma cotação de arroba entre R$ 320 e R$ 360 ao longo de 2026, com alta de até 10% nos preços da carne bovina.
Por outro lado, Oswaldo Pereira Júnior, da Acrimat, traz uma visão mais otimista para Mato Grosso, maior produtor do país: o especialista prevê aumento nos abates e a estabilização no abastecimento interno durante o período.
A adoção de inteligência artificial (IA) na pecuária, avalia Pedro Paulo Pires, pesquisador e médico-veterinário da Embrapa Gado de Corte, “deve mudar a atividade no país”, como afirmou em entrevista ao Canal Rural. A tecnologia permite que produtores coletem dados precisos sobre animais, pastagens e manejo, simplificando e potencializando a gestão.
Sensores instalados em brincos eletrônicos já monitoram temperatura, peso e localização dos animais em tempo real, transmitindo informações a longas distâncias sem necessidade de leitores específicos. Isso possibilita decisões estratégicas rápidas, como ajustes no manejo nutricional e identificação de pastagens menos produtivas. A IA também antecipa cenários econômicos, orientando o melhor momento para venda dos animais com base em tendências do mercado global.
Sinergia entre iniciativas públicas e privadas
As sugestões de Pires demonstraram alinhamento com a fala do ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro, ao destacar a ênfase inédita em sustentabilidade e gestão de riscos climáticos no novo Plano Safra. De acordo com o portal Agro+, cerca de R$ 516 bilhões em recursos foram alocados para reforçar planos de crédito voltados à sustentabilidade, além de estimular boas práticas nas fazendas.
A gestão de riscos climáticos, a recuperação de áreas degradadas e o estímulo à baixa emissão de carbono são prioridades que dialogam diretamente com as demandas do mercado internacional e com a necessidade de garantir competitividade e segurança alimentar. O setor pecuarista é chamado a protagonizar essa transformação, alinhando-se às tendências globais e às exigências dos acordos comerciais.
Relatórios recentes do Itaú BBA e do Rabobank apontam que o setor atravessa um período de ajustes estruturais, marcado por crédito mais restrito, margens comprimidas e maior exigência de gestão financeira.
De acordo com o Itaú BBA, o setor atravessa sua “terceira safra consecutiva”, marcada por crédito rural restrito, aumento da inadimplência e necessidade de gestão financeira rigorosa. O banco ressalta que o produtor precisará manter a “guarda alta”, já que o espaço para erros será mínimo diante da combinação entre commodities em baixa, câmbio volátil e insumos em alta.
O Rabobank reforça essa visão, destacando que o ano será de ajustes estruturais e reorganização dentro da porteira. Embora as margens sigam comprimidas, o Brasil mantém vantagem competitiva pela eficiência produtiva, câmbio favorável às exportações e capacidade de adaptação do produtor rural.
Segundo o Data Bridge Market Research, o mercado global de transformação digital deve ultrapassar US$ 5 trilhões até 2031, e o agro está entre os vetores desse crescimento. Para 2026, o setor deve consolidar três grandes frentes tecnológicas: mecanização inteligente, biotecnologia aplicada e plataformas digitais integradas. Mesmo com margens apertadas, essas frentes serão sustentadas por forte demanda externa e custo alimentar estabilizado.
Leitura de mercado: a visão dos especialistas
Para João Martins, presidente da Confederação de Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), 2025 foi “um ano normal”, justamente porque o setor conseguiu fazer algo que parecia improvável: mesmo com restrição de crédito e problemas climáticos, o país bateu um novo recorde de produção. Segundo ele, esse desempenho ajudou a evitar um novo descumprimento da meta inflacionária.
Já o valor bruto de produção (VBP) da pecuária deve evoluir 2,2% e chegar a R$ 528 bilhões em 2026, além de crescimento de 4,7% da bovinocultura de corte. Para mitigar eventuais entraves no crescimento, a CNA aponta a necessidade de articular soluções estruturais que “promovam previsibilidade, confiança e resiliência”.
Uma dessas estratégias é a expansão da produção sem a necessidade de abertura de novas áreas. Um estudo apontado pela Agricultural Systems, com participação de pesquisadores da Embrapa, alerta que os mecanismos tradicionalmente utilizados na pecuária ignoram variáveis como estratégias de pastejo, composição da pastagem e pastejo seletivo dos animais.
Métodos como benchmarking, agrupamento climático, análise de fronteira e modelos de sistemas de produção foram abordados pelos profissionais. A pesquisadora da Embrapa Pecuária Sudeste, Patrícia Menezes Santos, aponta que “essas ferramentas auxiliam a identificar áreas que tenham maior potencial de aumento de produtividade”, apontando caminhos para intensificação sem desmatamento.
Mesmo diante de um cenário de ajustes, o setor pecuário dispõe de estratégias e ferramentas capazes de ampliar a eficiência produtiva e reduzir vulnerabilidades. A combinação entre intensificação sem expansão de área, gestão baseada em dados e adoção de tecnologias permite produzir mais em propriedades menores, com ganhos de produtividade e sustentabilidade. Esse movimento reforça a capacidade de adaptação do setor e aponta para um ciclo de maior equilíbrio entre oferta, competitividade e atendimento à demanda.
Fontes de referência:
Menor oferta de bovinos em 2026 para abate deve encarecer a carne
Pecuária do futuro: como a inteligência artificial deve mudar a atividade no País – Giro do Boi
Sustentabilidade e gestão de riscos ganham protagonisno no Plano Safra 2025-2026
Crédito rural para iniciantes: entenda o Plano Safra 2024/2025
CNA aponta cenário de incertezas e crescimento mais comedido do agro em 2026
Agricultural Systems | Journal | ScienceDirect.com by Elsevier