Rastreabilidade bovina, muito além da conformidade ambiental, um pilar de bem-estar

Impulsionada pelo compliance ambiental, tecnologia também beneficia o bem-estar animal e até a segurança do alimento.

Por Roberto Francellino em 28 de novembro, 2025

Atualizado: 06/07/2026 - 14:12

Vaca leiteira em fazenda de criação de gado na arejamento ao céu aberto, com numerosos animais ao fundo, destacando o ambiente rural e o bem-estar animal.
Foto: Minerva Foods

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Quando se fala em rastreabilidade na pecuária bovina, o debate público é dominado pela pressão por compliance ambiental, impulsionada por acordos como os Termos de Ajustamento de Conduta (TACs) e a nova regulação anti-desmatamento da União Europeia (EUDR). A rastreabilidade está rapidamente deixando de ser um diferencial para se tornar uma “licença para operar”. Mas essa tecnologia também beneficia outros dois pilares: o bem-estar animal e a segurança do alimento.

A infraestrutura de dados foi criada, principalmente, para endereçar questões relativas ao desmatamento. Mas o mesmo “brinco” ou “chip” que serve como prova de uma origem livre de desmatamento é a ferramenta que permite o monitoramento da saúde individual e a garantia da cadeia de custódia sanitária. Assim, a pauta ambiental está, na prática, financiando e acelerando a adoção de tecnologias que elevam todo o padrão da cadeia.

Do ferro quente ao biomonitor

A história da identificação bovina no Brasil é marcada pela evolução tecnológica. O ponto de partida, por séculos, foi a marcação a fogo. Seu único propósito era a prova de propriedade. Contudo, essa técnica causa dor e estresse ao animal, além de deixá-lo suscetível a infecções e danificar permanentemente o couro, reduzindo seu valor comercial.

O primeiro elemento a contribuir para diminuir o uso dessa prática foi a criação do Sistema Brasileiro de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos (Sisbov), que introduziu o brinco visual como padrão, um avanço sobre a marca a fogo, mas ainda um sistema passivo. 

A medida foi impulsionada pela segurança do alimento e pelo acesso a mercados – uma resposta às crises sanitárias ocorridas na Europa nos anos 1990, como a “Doença da vaca louca” (encefalopatia espongiforme bovina). Países importadores, especialmente a União Europeia, passaram a exigir a capacidade de rastrear o animal “da fazenda à mesa” como condição de compra. 

A etapa seguinte foi impulsionada pela identificação eletrônica (EID). A introdução da tecnologia de Identificação por Radiofrequência (RFID) permitiu a automatização da coleta de dados. Brincos eletrônicos e o bolus intraruminal (um transponder de cerâmica que se aloja no rúmen do animal, contendo um chip) eliminaram erros de digitação e automatizaram registros de manejo, como pesagem e vacinação.

Hoje, na era da Pecuária de Precisão (PLF), a identificação evolui de um “número” para um “biomonitor”. Colares eletrônicos que monitoram o tempo de ruminação (um indicador primário de saúde) e sensores de temperatura, alguns desenvolvidos pela Embrapa e posicionados no canal auditivo do animal, permitem o monitoramento da saúde em tempo real.

O fim da marca a fogo: o exemplo de São Paulo

No estado de São Paulo, historicamente, a marcação a fogo era usada para diversos fins, incluindo o controle de vacinação. Em 2024, a Secretaria de Agricultura e Abastecimento de São Paulo (SAA) publicou a Resolução SAA nº 78/24, que eliminou a obrigatoriedade da marcação a fogo para fêmeas bovinas e bubalinas vacinadas contra brucelose. A nova resolução estabeleceu um modelo alternativo baseado em bottons (brincos) de cores específicas (amarelo ou azul, dependendo da cepa da vacina).

A justificativa oficial do governo paulista para a mudança foi a busca por uma “abordagem mais humanizada” e uma drástica “redução de estresse nos animais”. O Executivo paulista destacou ainda que a mudança “valoriza a pecuária paulista, promovendo boas práticas” e, crucialmente, “abrindo novas oportunidades no mercado internacional”. No entanto, os machos continuam suscetíveis à marcação a fogo, uma vez que a resolução não faz menção direta a eles.

A pecuária de precisão e o bem-estar mensurável

Homem montando cavalo enquanto observa rebanho de gado em campo aberto sob céu nublado na fazenda.
Foto: MS Cattle / Shutterstock

A Pecuária de Precisão (PLF) aplica tecnologias de monitoramento para gerenciar a saúde e a produção de animais individualmente, em vez de por médias de rebanho. Estudos científicos demonstram correlações diretas entre o comportamento do animal (como a reatividade no curral) e indicadores fisiológicos de estresse, como níveis elevados do hormônio cortisol. 

A tecnologia PLF permite esse gerenciamento em tempo real. Sensores de ruminação em colares ou de temperatura em brincos e bolus permitem a detecção precoce de doenças, dias antes dos sintomas visuais (como isolamento ou perda de apetite). Isso resulta em três ganhos:

  • Ganho de bem-estar: O sofrimento do animal é reduzido. A Minerva Foods, por exemplo, alinha seu compromisso de bem-estar animal aos cinco domínios reconhecidos internacionalmente, materializando-o em políticas e monitoramento contínuo.
  • Ganho econômico: o tratamento precoce é mais eficaz e a taxa de mortalidade diminui.
  • Ganho de segurança do alimento: o uso de antibióticos torna-se mais direcionado e reduzido, beneficiando toda a cadeia.

Identificação individual como pilar da segurança do alimento

A identificação individual é, atualmente, a ferramenta de gestão de risco mais eficaz na pecuária, atuando de duas formas:

  1. Prevenção: o sistema é a base para o monitoramento de “pontos críticos”. Ele permite registrar o uso de medicamentos veterinários, garantindo o respeito ao período de carência e evitando resíduos químicos na carne. Também valida o histórico de vacinação e o status sanitário de cada animal, garantindo a conformidade com certificações obrigatórias, como o Serviço de Inspeção Federal (SIF).
  1. Reação (recall): em um cenário de surto de doença, como Febre Aftosa, ou contaminação microbiológica, a rastreabilidade permite identificar exatamente quais animais, de quais fazendas, tiveram contato com o problema. Isso permite um recall, protegendo a saúde pública e salvando o restante do mercado.

Os desafios para a identificação universal

Embora haja avanços na rastreabilidade do rebanho brasileiro, a implementação de um sistema de rastreio individual universal enfrenta desafios estruturais. 

O primeiro é o custo. A implementação de brincos eletrônicos, leitores e softwares representa um custo que recai sobre o produtor. E nem sempre há garantia de um “prêmio” (pagamento adicional) pela carne rastreada. 

O segundo desafio é a inclusão do pequeno produtor. A pecuária brasileira é pulverizada, com milhões de propriedades. Muitos produtores na base da cadeia possuem menos capital, infraestrutura e familiaridade tecnológica para adotar e gerenciar os sistemas digitais.

O terceiro, e mais complexo, é o “gargalo” do fornecedor indireto. A cadeia é segmentada: frigoríficos compram de fornecedores diretos (engorda), que por sua vez compram de fornecedores indiretos (cria e recria). É nessa pulverização que pode ocorrer a “lavagem de gado” — animais de áreas ilegais (desmatamento) são movidos para uma fazenda legalizada antes da venda final, quebrando a rastreabilidade.

Convergência e transparência na cadeia

Resolver esses desafios é o foco atual da indústria e do setor público. Soluções de governança, como o Grupo de Trabalho de Fornecedores Indiretos (GTFI), buscam cruzar dados públicos, como a Guia de Trânsito Animal (GTA)  e o Cadastro Ambiental Rural (CAR), para mapear o fluxo do gado.

Ao mesmo tempo, a tecnologia avança. Plataformas baseadas em blockchain estão sendo usadas para criar registros imutáveis, garantindo a transparência dos fornecedores. Iniciativas da indústria, como o Programa Renove da Minerva Foods, já trabalham junto a pecuaristas para implementar práticas avançadas, que incluem a medição de emissões e a rastreabilidade como parte de uma produção mais sustentável.

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