Os medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1, como a semaglutida e a tirzepatida, mudaram o tratamento da obesidade. Nos estudos clínicos, eles reduzem de 5% a 18% do peso corporal e o número de pessoas em uso cresce rapidamente.
Junto com a gordura, porém, parte do peso perdido é massa muscular. E como o remédio reduz muito o apetite, muita gente passa a comer pouco, e algumas vezes mal, justamente na fase em que o corpo mais precisa de nutrientes de qualidade.
Em 2025, quatro sociedades científicas americanas (o Colégio Americano de Medicina do Estilo de Vida, a Sociedade Americana de Nutrição, a Associação de Medicina da Obesidade e a The Obesity Society) publicaram um documento conjunto sobre as prioridades nutricionais para quem usa essas medicações (Mozaffarian et al., 2025). Vamos entender o que ele recomenda e como montar o prato para que o emagrecimento venha da gordura, preservando o máximo possível de músculo.
O que a balança não mostra
No estudo STEP 1, que levou à aprovação da semaglutida para obesidade, os participantes avaliados por exame de composição corporal perderam em média 13,6 kg. Desses, 8,3 kg eram gordura e 5,3 kg (38%) eram massa magra, que inclui músculo, água e outros tecidos não gordurosos (Wilding et al., 2021). Como o músculo corresponde a cerca de metade da massa magra, algo próximo de 20% do peso perdido foi músculo. Com a tirzepatida, no estudo SURMOUNT-1, o padrão foi semelhante, com cerca de três partes de gordura para cada parte de massa magra perdida (Jastreboff et al., 2022).
Cabe uma ressalva importante. Essa proporção não é exclusiva das canetas e aparece em qualquer emagrecimento grande e rápido, como após cirurgia bariátrica ou dietas de muito baixa caloria. Quanto músculo se perde depende da velocidade da perda, do tamanho do déficit calórico, da ingestão de proteína e, principalmente, da presença ou não de treino de força (Mozaffarian et al., 2025). É um efeito que pode ser modificado.
Por que preservar músculo importa
O músculo é o principal tecido que retira glicose do sangue, contribui para o gasto energético de repouso e sustenta força, equilíbrio e autonomia. Perder massa muscular aumenta o risco de quedas, fraturas e fragilidade e piora a qualidade de vida. O documento conjunto destaca como mais vulneráveis as pessoas mais velhas, as mulheres na peri e na pós-menopausa, os sedentários e quem não faz treino de força (Mozaffarian et al., 2025).
Há também uma questão de longo prazo. Quando a medicação é suspensa, o peso tende a voltar. Na extensão do STEP 1, um ano depois de parar a semaglutida, os participantes recuperaram cerca de dois terços do peso que haviam perdido (Wilding et al., 2022). Se o que saiu foi músculo e o que volta é principalmente gordura, a pessoa pode terminar o ciclo com uma composição corporal pior do que a do início. Proteger o músculo durante o tratamento é uma forma de proteger o resultado.
Proteína: quanto e como

Com o apetite reduzido, a ingestão calórica de quem usa GLP-1 cai de 16% a 39% (Mozaffarian et al., 2025). Quando se come menos, cada refeição precisa entregar mais.
Quanto. O documento cita metas de 1,2 a 1,6 g de proteína por quilo de peso por dia durante a fase de emagrecimento ativo. Em pessoas com obesidade, calcular pelo peso atual superestima a necessidade, e uma alternativa prática é trabalhar com uma meta absoluta de 80 a 120 g de proteína por dia (Mozaffarian et al., 2025). Esse número deve ser ajustado com o médico ou nutricionista, especialmente em quem tem doença renal.
Por que funciona. Uma meta-análise de 24 ensaios clínicos mostrou que, em dietas com restrição calórica e o mesmo total de calorias, uma ingestão maior de proteína reduziu a perda de massa magra e aumentou a perda de gordura em comparação com dietas de proteína padrão (Wycherley et al., 2012).
Como. Duas estratégias simples fazem diferença. A primeira é começar a refeição pela proteína, antes que a saciedade chegue (Mozaffarian et al., 2025). A segunda é distribuí-la ao longo do dia, em refeições menores e mais frequentes, o que também ajuda a controlar a náusea. Porções de 20 a 40 g de proteína por refeição são uma boa referência para estimular a síntese muscular (Jäger et al., 2017).
Onde entra a carne
Quem usa GLP-1 precisa de alimentos que concentrem muita proteína em pouco volume. A carne bovina magra se encaixa bem nesse critério. Uma porção de 100 g de um corte magro cozido, como patinho, alcatra ou filé mignon, fornece em torno de 30 g de proteína completa, com todos os aminoácidos essenciais e boa quantidade de leucina, o aminoácido que dispara a síntese de proteína muscular.
Ela também fornece nutrientes que ficam em risco quando se come pouco. O documento conjunto cita a vitamina B12 entre os nutrientes que merecem atenção durante o tratamento, e a carne é uma das principais fontes alimentares dessa vitamina, além de ferro heme, de alta absorção, e zinco.
O estudo recomenda que a carne vermelha seja consumida com moderação, dentro de uma alimentação variada, e que carnes processadas, como embutidos, sejam evitadas (Mozaffarian et al., 2025). Na prática, isso significa escolher cortes magros e in natura, em porções adequadas, alternando com peixes, ovos, frango, laticínios e leguminosas ao longo da semana. Dentro desse padrão, a carne bovina é uma das formas mais eficientes de alcançar a meta de proteína.
O preparo também conta. A medicação torna o esvaziamento do estômago mais lento, e refeições grandes ou muito gordurosas pioram náusea e diarreia. Preparações grelhadas, assadas ou cozidas, porções menores e cortes sem gordura aparente costumam ser mais bem toleradas, sobretudo no início do tratamento e nos aumentos de dose.
Treino de força: a outra metade da equação

Proteína sem estímulo não constrói músculo. As sociedades recomendam que o GLP-1 seja prescrito junto com um programa estruturado de exercícios, com treino de força pelo menos três vezes por semana e no mínimo 150 minutos semanais de atividade aeróbica moderada (Mozaffarian et al., 2025).
Um ensaio clínico dinamarquês mostra o tamanho dessa diferença. Após uma fase inicial de dieta, adultos com obesidade foram divididos em quatro grupos e acompanhados por um ano. A combinação de exercício com liraglutida, um GLP-1 de geração anterior, reduziu o percentual de gordura corporal em 3,9 pontos, cerca do dobro do obtido com cada estratégia isolada, e foi a única a melhorar a sensibilidade à insulina e o condicionamento cardiorrespiratório (Lundgren et al., 2021).
Se eu pudesse deixar uma única mensagem para quem está começando o tratamento, seria esta: a caneta ajuda a comer menos, mas é o treino de força que sinaliza ao corpo que o músculo precisa ser mantido.
Sinais de que a alimentação não está adequada
O documento conjunto lista alguns sinais de deficiência nutricional que merecem atenção durante o tratamento (Mozaffarian et al., 2025):
- Cansaço além do esperado
- Queda de cabelo acentuada
- Fraqueza muscular ou dificuldade em tarefas que antes eram fáceis, como subir escadas
- Pele descamando ou com coceira
- Cicatrização lenta
- Hematomas sem motivo aparente
Diante desses sinais, o caminho é conversar com o médico. Exames laboratoriais e a avaliação da composição corporal, por exemplo com bioimpedância, ajudam a acompanhar se a perda de peso está vindo de onde deveria.
Na prática
- Comece cada refeição pela proteína.
- Distribua proteína em todas as refeições, com 20 a 40 g em cada uma.
- Prefira cortes magros e in natura, grelhados, assados ou cozidos, e evite embutidos.
- Varie as fontes ao longo da semana: carne bovina, peixes, ovos, frango, laticínios e leguminosas.
- Faça treino de força pelo menos três vezes por semana, somado a atividade aeróbica.
- Nos dias de náusea, faça refeições menores e mais frequentes e mantenha a hidratação.
- Mantenha o acompanhamento médico e nutricional durante todo o tratamento, e também depois dele.
A medicação reduz o apetite, mas não escolhe de onde o peso sai. Essa parte depende do que vai para o prato e do estímulo que o músculo recebe. Comer menos exige comer melhor, e proteína de qualidade somada ao treino de força é o que separa emagrecer com saúde de simplesmente perder peso.
- Jäger R, Kerksick CM, Campbell BI, et al. International Society of Sports Nutrition Position Stand: protein and exercise. J Int Soc Sports Nutr. 2017;14:20. PMID: 28642676.
- Jastreboff AM, Aronne LJ, Ahmad NN, et al. Tirzepatide Once Weekly for the Treatment of Obesity. N Engl J Med. 2022;387(3):205-216. PMID: 35658024.
- Lundgren JR, Janus C, Jensen SBK, et al. Healthy Weight Loss Maintenance with Exercise, Liraglutide, or Both Combined. N Engl J Med. 2021;384(18):1719-1730. PMID: 33951361.
- Mozaffarian D, Agarwal M, Aggarwal M, et al. Nutritional priorities to support GLP-1 therapy for obesity: a joint advisory from the American College of Lifestyle Medicine, the American Society for Nutrition, the Obesity Medicine Association, and The Obesity Society. Obes Pillars. 2025;15:100181. PMID: 40673264.
- Wilding JPH, Batterham RL, Calanna S, et al. Once-Weekly Semaglutide in Adults with Overweight or Obesity. N Engl J Med. 2021;384(11):989-1002. PMID: 33567185.
- Wilding JPH, Batterham RL, Davies M, et al. Weight regain and cardiometabolic effects after withdrawal of semaglutide: The STEP 1 trial extension. Diabetes Obes Metab. 2022;24(8):1553-1564. PMID: 35441470.
- Wycherley TP, Moran LJ, Clifton PM, Noakes M, Brinkworth GD. Effects of energy-restricted high-protein, low-fat compared with standard-protein, low-fat diets: a meta-analysis of randomized controlled trials. Am J Clin Nutr. 2012;96(6):1281-1298. PMID: 23097268.
Dúvidas mais comuns
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Sim, medicamentos como semaglutida e tirzepatida podem levar à perda de massa muscular. Estudos mostram que cerca de 38% a 50% do peso perdido pode ser massa magra (que inclui músculo, água e outros tecidos não gordurosos), não apenas gordura. No estudo STEP 1 com semaglutida, dos 13,6 kg perdidos em média, 5,3 kg eram massa magra, o que corresponde a aproximadamente 20% de perda muscular. Essa proporção também ocorre em outros tipos de emagrecimento rápido, como após cirurgia bariátrica ou dietas muito restritivas.
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O músculo é essencial para a saúde geral: é o principal tecido que remove glicose do sangue, contribui para o gasto energético em repouso e sustenta força, equilíbrio e autonomia. Perder massa muscular aumenta o risco de quedas, fraturas, fragilidade e piora a qualidade de vida. Além disso, quando a medicação é suspensa, o peso tende a voltar principalmente como gordura. Se o que saiu foi músculo e o que volta é gordura, a pessoa pode terminar com uma composição corporal pior do que no início do tratamento.
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As recomendações das principais sociedades científicas americanas sugerem 1,2 a 1,6 g de proteína por quilo de peso por dia durante a fase de emagrecimento ativo. Uma meta prática e absoluta é consumir entre 80 a 120 g de proteína por dia, que deve ser ajustada com médico ou nutricionista, especialmente para quem tem doença renal. Distribuir a proteína em refeições menores e mais frequentes, com 20 a 40 g por refeição, ajuda a estimular a síntese muscular e controlar a náusea.
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Duas estratégias simples fazem diferença: comece cada refeição pela proteína, antes que a saciedade chegue, pois o medicamento reduz muito o apetite; e distribua a proteína em refeições menores e mais frequentes ao longo do dia. Porções de 20 a 40 g de proteína por refeição são uma boa referência para estimular a síntese muscular. Essa distribuição também ajuda a controlar a náusea, um efeito colateral comum das canetas emagrecedoras.
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A carne bovina magra é eficiente porque concentra muita proteína em pouco volume. Uma porção de 100 g de um corte magro cozido fornece cerca de 30 g de proteína completa com todos os aminoácidos essenciais e boa quantidade de leucina, que dispara a síntese de proteína muscular. Além disso, fornece nutrientes críticos quando se come pouco: vitamina B12, ferro heme de alta absorção e zinco. O ideal é escolher cortes magros e in natura, preparados grelhados, assados ou cozidos, e variar com peixes, ovos, frango, laticínios e leguminosas ao longo da semana.
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O treino de força é essencial porque a proteína sozinha não constrói músculo sem estímulo adequado. As sociedades científicas recomendam treino de força pelo menos três vezes por semana, somado a 150 minutos semanais de atividade aeróbica moderada. Um estudo dinamarquês mostrou que a combinação de exercício com medicação GLP-1 reduziu o percentual de gordura corporal em 3,9 pontos, cerca do dobro do obtido com cada estratégia isolada, e foi a única a melhorar a sensibilidade à insulina e o condicionamento cardiorrespiratório.
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Quando a medicação é suspensa, o apetite volta e o peso tende a ser recuperado. Estudos mostram que um ano após parar a semaglutida, os participantes recuperaram cerca de dois terços do peso perdido. Se o que saiu foi principalmente músculo e o que volta é gordura, a composição corporal pode ficar pior do que no início. Por isso, manter o treino de força e a alimentação adequada durante e após o tratamento é fundamental para proteger o resultado e a saúde a longo prazo.
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Alguns sinais de deficiência nutricional merecem atenção: cansaço além do esperado, queda de cabelo acentuada, fraqueza muscular ou dificuldade em tarefas que antes eram fáceis (como subir escadas), pele descamando ou com coceira, cicatrização lenta e hematomas sem motivo aparente. Diante desses sinais, é importante conversar com o médico. Exames laboratoriais e avaliação da composição corporal, por exemplo com bioimpedância, ajudam a acompanhar se a perda de peso está vindo de onde deveria e se a alimentação precisa ser ajustada.