Bem-estar animal impacta 66 metas dos ODS, diz estudo

Estudo internacional mostra que práticas de bem-estar animal contribuem diretamente para o avanço de diversas metas da Agenda 2030, integrando impacto socioambiental e econômico.

Por Marcia Tojal em 10 de fevereiro, 2026

Atualizado: 05/02/2026 - 10:27

Gados pastando em um campo verde sob céu claro, promovendo bem-estar animal e o cuidado com os animais de fazenda.
Foto: Minerva Foods

A discussão sobre sustentabilidade na produção de alimentos tem avançado para além de indicadores puramente ambientais ou econômicos. Questões como saúde pública, segurança alimentar, resiliência dos sistemas produtivos e responsabilidade social passaram a ocupar um lugar central nas agendas globais. Nesse contexto, o bem-estar animal vem ganhando relevância como um elemento estruturante da sustentabilidade.

Sustentabilidade, bem-estar animal e a Agenda 2030

Embora o bem-estar animal não apareça de forma explícita entre os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU), a literatura científica vem demonstrando que ele está profundamente conectado ao alcance de metas centrais da Agenda 2030. Segurança alimentar, saúde pública, ação climática e padrões responsáveis de produção e consumo são alguns dos eixos diretamente impactados pelas condições em que os animais são criados, manejados e integrados aos sistemas produtivos.

Essa relação foi analisada de forma sistemática no estudo conduzido por Linda Keeling e outros pesquisadores da Swedish University of Agricultural Sciences, publicado na revista Frontiers in Veterinary Science. O artigo, intitulado “Animal Welfare and the United Nations Sustainable Development Goals”, avaliou de que maneira melhorias no bem-estar animal se relacionam com os diferentes objetivos e metas dos ODS, mesmo na ausência de menção direta ao tema nos documentos oficiais da ONU.

O estudo se baseou na avaliação de especialistas em ciência animal e sustentabilidade, que analisaram a relação entre bem-estar animal e cada um dos 17 ODS, considerando também suas 169 metas específicas. Os resultados mostram que 66 dessas metas têm relação direta ou são relevantes para o bem-estar animal. 

Sinergias entre bem-estar animal e desenvolvimento sustentável

Uma das conclusões centrais do trabalho é que a relação entre bem-estar animal e os ODS é, em grande parte, sinérgica. Em outras palavras, ações que promovem melhores condições de vida aos animais tendem a contribuir positivamente para o avanço de metas globais, em vez de gerar conflitos. Da mesma forma, políticas e iniciativas voltadas ao desenvolvimento sustentável frequentemente criam condições mais favoráveis para a melhoria do bem-estar animal.

No campo da segurança alimentar, associado ao ODS 2, o bem-estar animal está ligado à saúde e à produtividade dos rebanhos. Animais criados em condições adequadas à espécie tendem a apresentar menor incidência de doenças, melhor desempenho produtivo e maior eficiência no uso de recursos. Isso fortalece sistemas alimentares mais estáveis e resilientes, especialmente em contextos de pressão crescente sobre a produção de alimentos. O próprio estudo de Keeling aponta que, embora existam tensões históricas entre aumento de produção e bem-estar animal, há espaço para alinhamento quando práticas sustentáveis são adotadas de forma integrada.

A saúde pública, contemplada pelo ODS 3, é outro eixo diretamente relacionado. Condições precárias de manejo animal estão associadas a maiores riscos de disseminação de doenças infecciosas, incluindo zoonoses. Melhorar o bem-estar animal contribui para reduzir esses riscos, reforçando abordagens integradas como o conceito de One Health, que reconhece a interdependência entre saúde humana, animal e ambiental. Essa conexão é destacada no artigo como uma das formas mais evidentes pelas quais o bem-estar animal dialoga com a agenda global de saúde.

No que diz respeito ao consumo e à produção responsáveis, tema central do ODS 12, o estudo identifica uma das relações mais fortes com o bem-estar animal. Práticas produtivas que respeitam as necessidades fisiológicas e comportamentais dos animais tendem a exigir maior transparência, rastreabilidade e responsabilidade ao longo das cadeias de valor. Isso responde a uma demanda crescente da sociedade por sistemas alimentares mais éticos e sustentáveis, além de incentivar mudanças nos padrões de consumo.

Bem-estar animal, clima e conservação de ecossistemas

As conexões também se estendem aos ODS ambientais, como ação contra a mudança do clima, vida na água e vida terrestre. Estratégias de manejo que incorporam o bem-estar animal frequentemente caminham junto com práticas de menor impacto ambiental, como uso mais eficiente de recursos naturais, redução de perdas produtivas e maior resiliência dos sistemas agropecuários. O estudo aponta que essas combinações são particularmente relevantes quando se analisam metas ligadas à conservação de ecossistemas e ao uso sustentável da biodiversidade.

Além das dimensões ambiental e sanitária, o bem-estar animal também se relaciona com aspectos sociais dos ODS, como redução das desigualdades e promoção de meios de vida sustentáveis. Em muitas regiões do mundo, especialmente em países em desenvolvimento, a criação animal é uma fonte essencial de renda e segurança econômica para comunidades rurais e grupos vulneráveis. Melhorar o bem-estar dos animais pode contribuir para a estabilidade desses meios de vida, fortalecendo a dimensão social da sustentabilidade.

A principal mensagem do estudo “Animal Welfare and the United Nations Sustainable Development Goals” é que o bem-estar animal não deve ser tratado como um tema isolado ou apenas ético, mas como um componente estrutural da sustentabilidade. Mesmo fora do texto oficial dos ODS, ele atravessa dezenas de metas da Agenda 2030 e influencia diretamente os resultados esperados em áreas-chave do desenvolvimento global.

Diante disso, incorporar o bem-estar animal como indicador, não só de sustentabilidade, mas também de qualidade na produção representa um passo relevante para alinhar práticas produtivas às metas globais. Essa abordagem amplia a capacidade de resposta do setor aos desafios contemporâneos, como segurança alimentar, saúde pública e crise climática, ao mesmo tempo em que reforça a coerência entre desempenho econômico, responsabilidade social e cuidado ambiental.


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