Boi que consome menos e produz mais: a ciência por trás da eficiência

Animais Nelore mais eficientes podem consumir até 31,8% menos alimento no confinamento sem comprometer o ganho de peso, mostra estudo da Universidade Federal de Uberlândia

Por Marcia Tojal em 21 de maio, 2026

Atualizado: 20/05/2026 - 13:15

Pasto ao ar livre, com destaque para um boi, focinho voltado para a câmera
Foto: Alfredo Maiquez / Shutterstock

Imagine dois bois com o mesmo peso, a mesma raça e o mesmo tempo no cocho. Um deles consome quase um terço a menos de ração e, ainda assim, chega ao abate com o mesmo ganho de peso que o companheiro. Parece contraditório, mas o fenômeno tem nome e foi objeto do estudo conduzido com bovinos jovens da raça Nelore por pesquisadores da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Trata-se do Consumo Alimentar Residual (CAR), que está no centro de uma das fronteiras mais promissoras da pecuária brasileira: o melhoramento genético voltado não só para o animal que ganha mais peso, mas para o animal que apresenta melhor eficiência produtiva, consumindo menos alimento.

O que é o Consumo Alimentar Residual?

O CAR é calculado como a diferença entre o consumo real de alimento e o consumo esperado com base no peso corporal e na taxa de crescimento do animal. Um animal com CAR negativo é considerado “eficiente” porque consome menos do que o previsto para manter o peso corporal e o crescimento esperados. Já um boi com CAR positivo consome mais do que o esperado para o mesmo resultado.

A grande vantagem do CAR em relação a outras medidas de eficiência, como a conversão alimentar tradicional, é que ele é independente do peso corporal e do ganho de peso do animal. Isso significa que ao selecionar animais de CAR negativo, o produtor não está necessariamente escolhendo animais menores ou com menor desempenho, está escolhendo animais biologicamente mais econômicos. Conforme explica artigo publicado no BeefPoint, a triagem para CAR seleciona animais de menor exigência de manutenção e menor consumo, sem alterar o ganho de peso ou peso adulto.

O que mostrou o estudo da UFU

Baias verdes dentro de um curral de criação, com a cabeça para fora e feno espalhado no chão
Embrapa (Foto: Dalízia Aguiar)

Pesquisas conduzidas na Fazenda Capim Branco da UFU utilizaram o sistema de cochos eletrônicos GrowSafe, tecnologia canadense que identifica cada animal por meio de brincos com identificação por radiofrequência (RFID) e registra automaticamente o consumo individual, para avaliar touros Nelore jovens, em provas de eficiência alimentar com 70 dias de avaliação efetiva.

Os resultados apontam que animais mais eficientes podem consumir até 31,8% menos alimento na fase de confinamento, sem comprometer o ganho de peso. Uma diferença que, em escala de rebanho, representa uma virada econômica significativa.

Por que isso importa tanto para o bolso do produtor?

A resposta é direta: a alimentação representa entre 70% e 80% dos custos totais de produção em sistemas de confinamento. Portanto, qualquer redução nesse item tem efeito imediato na margem do produtor.

Conforme explica a revisão da cooperativa de melhoramento genético CRV sobre o uso do CAR como critério de seleção, esse processo permite que o mesmo nível de produção seja alcançado com um menor volume de insumos, o que melhora diretamente a competitividade do sistema.

O impacto também se projeta no longo prazo por meio do melhoramento genético. Touros selecionados para consumo alimentar residual (CAR) negativo tendem a transmitir essa característica aos seus descendentes, permitindo menor consumo de alimento sem comprometer o desempenho. 

Programas de seleção conduzidos pelo Instituto de Zootecnia de São Paulo demonstram que a utilização de Diferenças Esperadas na Progênie (DEPs), como critério de seleção, permite ganhos consistentes ao longo das gerações, com efeitos mensuráveis no consumo das progênies. As DEPs referem-se justamente à estimativa do valor genético de um animal e indica o desempenho médio esperado de seus descendentes em determinada característica, em comparação com a média da população. Neste caso, a herdabilidade moderada observada para características como CAR e IMS — próxima de 0,22 na literatura científica — reforça que a eficiência alimentar responde à seleção genética, consolidando-se como uma ferramenta estratégica para aumentar a eficiência produtiva e reduzir custos na pecuária de corte também no longo prazo.

A conexão com a sustentabilidade

Boi branco em primeiro plano, com placa amarela no ouvido, alimentando-se em um curral com outros animais ao fundo
Imagem gerada digitalmente

A eficiência alimentar não é apenas um ganho econômico. Ela também tem impacto ambiental direto. Isso porque, animais que consomem menos alimento para produzir a mesma quantidade de carne geram, por definição, menos resíduos por quilo produzido: menos dejetos, menos consumo de água e menos pressão sobre pastagens e áreas de cultivo de grãos para ração.

Uma pesquisa do Instituto de Zootecnia de São Paulo com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) concluiu que, ao comparar animais extremos em eficiência alimentar, os mais eficientes emitiram 9% menos gás metano e produziram 20% menos dejetos do que os menos eficientes — com 24% menos de consumo de alimento. 

Além disso, estudos da FAPESP apontam que o CAR apresenta consistência  ao longo das diferentes fases e sistemas de produção, como confinamento e pastejo, o que reforça seu potencial como critério permanente de seleção nos programas de melhoramento.

O Brasil e a corrida pela genética eficiente

O Nelore é a raça predominante no rebanho brasileiro e nas pesquisas sobre CAR no País, mas a literatura científica disponível no Scot Consultoria é direta ao afirmar que países como Austrália e Estados Unidos estão “cerca de 10 anos à frente” do Brasil nessa área. A diferença está no tempo de dados acumulados e na escala dos programas de melhoramento focados em eficiência.

A boa notícia é que o movimento está acelerando. Além das pesquisas conduzidas pela UFU, iniciativas como as do Qualitas Melhoramento Genético incorporam o CAR como pilar na identificação de reprodutores. A ferramenta da genômica, que permite estimar o CAR com maior precisão e mais rapidez, sem necessidade de longos períodos de teste, começa a ganhar espaço e tem o potencial de democratizar o acesso ao melhoramento por eficiência alimentar.

E o impacto não fica só no confinamento: estudo da FAPESP investiga também a consistência da característica em animais criados a pasto, o que abriria caminho para que a eficiência alimentar contribua com a redução de emissões também nos sistemas extensivos, que dominam a pecuária brasileira.

Fontes de referência:


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