As três forças que estão redefinindo a pecuária moderna

Entenda como clima, tecnologia e gestão de pessoas estão transformando a o setor — e por que o fator humano é decisivo nesta equação

Por Redação em 7 de maio, 2026

Atualizado: 07/05/2026 - 09:29

Fazenda de pecuária moderna com linhas de árvores bem cuidadas, plantações diversificadas e áreas de pastagem
Foto: Minerva Foods

A pecuária brasileira passou por uma transformação profunda desde a década de 1950, quando mais de 60% da população vivia no campo. A mudança não foi apenas em escala, mas na própria lógica produtiva, saindo de um modelo extrativista para um modelo pautado por eficiência, ancorado no que o zootecnista Antônio Chaker, coordenador do Instituto de Métricas do Agro (Inttegra), chamou de “três forças da pecuária moderna” em artigo publicado no portal DBO.

Como analisa o zootecnista Luiz Josahkian, no portal Globo Rural, a estabilização econômica a partir dos anos 1990 com o Plano Real, somada à globalização e ao aumento da concorrência, reduziu as margens e elevou o nível de exigência do mercado. A partir desse momento, a pecuária de baixa produtividade, com menor qualidade de produto e ciclos mais longos, deixou de ser competitiva. O setor, então, foi forçado a se reinventar.

A resposta veio por meio da incorporação de técnicas modernas de produção, que vão do manejo mais eficiente de pastagens ao uso de genética superior, passando por maior rigor sanitário e estratégias mais eficientes de uso da terra, como a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF). Os resultados dessa transformação são visíveis: redução da idade de abate, aumento da produção e consolidação do Brasil como líder global nas exportações de carne bovina, hoje presente em mais de 150 países, conforme destaca Josahkian.

A presença em mercados exigentes é reflexo da regularidade de fornecimento, do controle sanitário, da rastreabilidade e da padronização de qualidade, atributos que só se tornam possíveis em um sistema produtivo estruturado.

Para Chaker, esse movimento é alavancado por três forças centrais: as mudanças climáticas, o super ciclo tecnológico e a mudança de geração. Segundo ele, a capacidade de adaptação a esses vetores, aliada à gestão de pessoas e de dados, é o que diferencia propriedades tradicionais daquelas de alta performance.

Mudanças climáticas: produzir sob novas condições

A primeira dessas forças desloca o clima do papel de pano de fundo para o centro da estratégia produtiva. A irregularidade das chuvas, a maior frequência de eventos extremos e a pressão crescente sobre o uso da terra tornam a adaptação uma condição para a continuidade da atividade.

Nesse contexto, produzir mais já não é suficiente: é preciso produzir melhor, com maior eficiência no uso dos recursos e maior resiliência frente às variações ambientais. Sistemas como a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) ganham relevância justamente por permitir intensificar a produção sem a necessidade de expansão de área, ao mesmo tempo em que contribuem para a recuperação do solo e a manutenção do equilíbrio ambiental. Como mostra a publicação da Embrapa e a análise da WRI Brasil, esses sistemas ajudam a mitigar riscos climáticos, ao favorecer a retenção de umidade no solo, melhorar o microclima e reduzir a vulnerabilidade a períodos de seca prolongada. 

Ao mesmo tempo, o setor opera sob um arcabouço regulatório robusto, já que o Código Florestal Brasileiro, figura entre as legislações mais rigorosas entre países agroexportadores, como mostra o estudo conduzido pelo Climate Policy Initiative (CPI), em parceria com a Sociedade Rural Brasileira (SRB) e a Apex-Brasil. Um dos diferenciais é a Reserva Legal, mecanismo que exige a manutenção de áreas de vegetação nativa dentro das propriedades privadas. 

A combinação entre exigência legal e inovação produtiva cria um cenário em que a sustentabilidade deixa de ser uma agenda paralela e passa a integrar a lógica econômica da produção.

Super ciclo tecnológico: dados, velocidade e precisão

A segunda força identificada por Chaker está no ritmo acelerado da inovação tecnológica. O campo, antes marcado por decisões empíricas e baseadas na experiência acumulada, passa a incorporar ferramentas que ampliam o nível de controle e precisão da produção.

Sensores de monitoramento do solo e da pastagem, dispositivos de rastreamento individual de animais, drones para mapeamento de áreas e softwares de gestão são exemplos de tecnologias que já fazem parte da rotina de propriedades mais estruturadas. A tendência é que esses recursos se disseminem cada vez mais, inclusive em operações de menor porte.

Mais do que automatizar processos, essas tecnologias transformam a forma de decidir. Ao permitir o acesso a dados em tempo real, reduzem ineficiências, aumentam a previsibilidade e viabilizam ajustes finos na operação.

Esse avanço tecnológico também amplia a capacidade de monitoramento e gestão de aspectos como o bem-estar animal, ao permitir uma leitura mais contínua e baseada em dados das condições de produção, como aponta o estudo Animal Welfare Management in a Digital World, publicado na revista científica Animals. Ao mesmo tempo, essa base informacional contribui para reduzir assimetrias de percepção no mercado internacional, ao permitir que o setor comunique com maior precisão suas práticas produtivas, como indicam iniciativas como o Brazil Beef Report 2025, da ABIEC.

Nesse cenário, a tecnologia deixa de ser diferencial competitivo e passa a ser requisito de permanência.

Mudança de geração: pessoas como base da transformação

A terceira força está nas pessoas. A transformação da pecuária não depende apenas de clima e tecnologia, mas da capacidade de formar, engajar e gerir equipes preparadas para operar em um ambiente mais complexo.

A chamada mudança de geração, destacada por Chaker, não se limita à sucessão etária. Ela representa uma mudança de mentalidade na forma de conduzir a atividade, com maior foco em gestão, planejamento, dados e profissionalização.

A gestão de pessoas passa, portanto, a ser entendida como uma verdadeira tecnologia — de alto impacto e baixo custo — capaz de potencializar todos os demais investimentos. Sem equipes capacitadas, tecnologias avançadas não se traduzem em ganhos reais de produtividade.

Na prática, essa transformação se materializa em iniciativas que estruturam a transferência de conhecimento no campo. Um exemplo é o programa Laço de Confiança, citado por Rostyner Costa, gerente executivo de Relacionamento com Pecuaristas da Minerva Foods. A iniciativa promove treinamentos presenciais e online, dias de campo e acompanhamento técnico em áreas como nutrição animal, manejo sanitário, gestão da propriedade e rastreabilidade, com base em escuta ativa das demandas regionais.

Os resultados aparecem diretamente na operação: propriedades mais eficientes, maior padronização dos lotes, melhor aproveitamento de recursos naturais e carne de maior qualidade, com capacidade de acessar mercados mais exigentes, inclusive internacionais. Além disso, a troca de experiências entre produtores fortalece redes de confiança, acelerando a disseminação de boas práticas.

A modernização da pecuária, nesse sentido, deixa de ser um processo isolado e passa a ser construída coletivamente, com base em conhecimento, relacionamento e cooperação.

Um sistema em transformação contínua

Gados bovinos, em uma fazenda sob céu azul, representando a pecuária e a criação de gado no Brasil.
Foto: Minerva Foods

As três forças se sobrepõem e se reforçam, formando um sistema produtivo cada vez mais integrado. 

O clima impõe limites e exige adaptação. A tecnologia amplia a capacidade de resposta e controle. E as pessoas tornam essa resposta possível, ao interpretar dados, executar processos e tomar decisões.

Essa combinação redefine a pecuária contemporânea. O que antes era uma atividade baseada na expansão territorial e na lógica patrimonialista passa a se configurar como um sistema orientado por eficiência, gestão e adaptação contínua.

No fim, a transformação da pecuária não começa nem termina na tecnologia ou nas condições ambientais. Ela começa e termina nas pessoas — que são, ao mesmo tempo, a razão das mudanças e o elo que sustenta sua continuidade.

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Fontes de referência:


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