Produzir mais alimentos com menos recursos tornou-se um dos principais desafios do sistema alimentar global. O crescimento populacional e o aumento da renda ampliam a demanda por alimentos, especialmente por proteínas de maior densidade nutricional, ao mesmo tempo em que intensificam a pressão sobre terra, água e insumos produtivos.
O Capítulo 5 sobre Segurança Alimentar do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) indica que esse sistema já opera sob forte tensão: desde 1961, a produção de alimentos cresceu cerca de 30%, acompanhada por um aumento de aproximadamente 800% no uso de fertilizantes e pela duplicação da água destinada à irrigação. Ainda assim, 821 milhões de pessoas permanecem subnutridas, enquanto outras 2 bilhões estão acima do peso, evidenciando desequilíbrios na distribuição e no padrão de consumo.
Além da pressão por demanda, os efeitos das mudanças climáticas passam a impactar diretamente a capacidade produtiva. O aumento da temperatura, as secas e os eventos extremos já reduzem a produtividade agrícola em diversas regiões, especialmente em culturas como milho e trigo em latitudes mais baixas e áreas mais vulneráveis.
Paralelamente, o próprio sistema alimentar contribui para o agravamento desse cenário, sendo responsável por cerca de 21% a 37% das emissões globais de gases de efeito estufa (GEE). Esse movimento cria um ciclo de retroalimentação, no qual as mudanças climáticas afetam a produção de alimentos e, ao mesmo tempo, são intensificadas por ela, impactando diretamente os meios de subsistência — especialmente de populações dependentes da pecuária, que já enfrentam queda na produtividade das pastagens, perda de biodiversidade e impactos na reprodução animal.
Nesse contexto, o conceito de “fazer mais com menos” deixa de ser apenas uma diretriz de eficiência e passa a ser uma necessidade dos sistemas alimentares, orientando a transição para modelos produtivos mais resilientes, com menor intensidade de uso de recursos e menor impacto ambiental.
É nesse movimento que a pecuária bovina se reposiciona. No vocabulário moderno do agronegócio, a palavra “eficiência” mudou de contexto: se antes o foco era ampliar áreas de pastagem e o número de cabeças de gado, hoje produzir mais exige necessariamente produzir melhor.
Processos de inteligência aplicada ao uso de recursos passam a definir o motor da transformação produtiva. Trata-se de uma abordagem sistêmica que abrange desde o manejo do solo até a mesa dos consumidores, na qual cada gota de água, cada quilo de ração e cada etapa da logística são otimizados para gerar o máximo de valor com o menor impacto socioambiental possível.
Essa mudança de paradigma não ocorre apenas por pressão ambiental ou produtiva, mas também por exigência de mercado. À medida que cadeias globais se tornam mais rigorosas em critérios de rastreabilidade, desempenho e sustentabilidade, a eficiência produtiva passa a ser um fator determinante de competitividade.
Nesse cenário, a adoção de práticas mais eficientes e sustentáveis na pecuária brasileira vai além de ser uma estratégia de ganho operacional e passa a representar também acesso a mercados internacionais mais exigentes e de maior valor agregado, como os segmentos premium. Produzir mais com menos, portanto, consolida-se não apenas como resposta aos desafios globais, mas como um diferencial estratégico para inserção qualificada do Brasil nas cadeias globais de alimentos.
Recuperação e intensificação do campo
A chave é a produtividade por hectare, e não abrir novas áreas de vegetação nativa para ampliar a produção, a chamada intensificação sustentável. Segundo a Embrapa Gado de Corte, o rebanho bovino nacional mais que dobrou em um período de quatro décadas. Os dados consolidados pelo relatório Agricultura Tropical Sustentável mostra que enquanto a área ocupada por pastagens permaneceu estável, entre 160 e 190 milhões de hectares, a produção de carne bovina aumentou mais de 240%, passando de cerca de 3,5 milhões para 12 milhões de toneladas equivalentes de carcaça (TEC).
Esse fenômeno gerou o que os especialistas chamam de efeito poupa-terra. Sem ele, estima-se que seriam necessários mais 397 milhões de hectares para sustentar os níveis atuais de produção, caso a produtividade tivesse permanecido nos patamares de 1990. Se for considerado o horizonte temporal maior, de 1950 a 2006, chega-se a uma área estimada em 525 milhões de hectares. Para se ter uma ideia da magnitude do número, ele representa uma área 25% superior à do Bioma Amazônia do Brasil.
A recuperação de solos degradados passa também por um melhor manejo de pastagens, o que permite que o produtor transforme terras improdutivas em áreas altamente nutritivas para os animais.
Segundo a Embrapa, revitalizar o solo não apenas aumenta o bem-estar animal, como também o transforma em sequestrador de carbono. Sistemas como a Integração Lavoura-Pecuária permitem produzir carne e grãos no mesmo espaço, por exemplo. Com isso, a necessidade de adquirir suplementos para a dieta do gado e outros insumos dispendiosos pode ser reduzida, dando espaço ao consumo de materiais orgânicos e mais saudáveis; além de oferecer um benefício econômico para o produtor, que com a maximização do uso da terra, terá múltiplas fontes de receita e um fluxo de caixa mais estável ao longo do ano.
Nutrição de precisão: a ciência no cocho

Enquanto o manejo do solo cuida da base, a nutrição de precisão cuida do desempenho. Um estudo publicado pela Journal of Animal Health and Production demonstra que a alimentação de precisão levou a uma redução de 42,86% no desperdício de ração e a um aumento de 18% no ganho de peso diário em sistemas de confinamento (feedlots).
Tecnologias de automação foram validadas por meio de uma pesquisa realizada pelo Centro Integral de Nutrição de Pecuária de Corte (CINPEC). Segundo os estudiosos, 87% a 91% dos custos de produção em confinamentos se referem à nutrição dos animais; com a utilização de sensores, medições individuais automatizadas permitem entender a conversão alimentar real de cada animal, eliminando a “média do lote”.
Outro guia técnico, publicado pelo Journal of Information Systems Engineering & Management, explica que o uso de bolus, colares GPS e algoritmos preditivos permite reformular rações baseadas no estágio de crescimento e status de saúde, podendo resultar em uma redução de até 25% na ingestão desnecessária de proteína.
Circularidade também é estratégia de eficiência e sustentabilidade
Os princípios da economia circular também integram o conceito de eficiência e sustentabilidade na pecuária brasileira. Impulsionado por iniciativas como o Plano Nacional de Economia Circular (PLANEC), o setor passa a reaproveitar dejetos e outros resíduos orgânicos para a produção de biogás, biometano e biofertilizantes, reduzindo emissões e otimizando o uso de recursos.
Dessa forma, o modelo fecha ciclos produtivos: o que antes era passivo ambiental passa a gerar energia, fertilidade do solo e eficiência operacional. A biodigestão, por exemplo, permite capturar metano e convertê-lo em energia, enquanto o material remanescente retorna ao solo como fertilizante orgânico, reforçando a ciclagem de nutrientes.
Além dos ganhos ambientais, a circularidade fortalece a competitividade ao reduzir custos, diminuir a dependência de insumos externos e gerar indicadores mensuráveis de desempenho. Nesse contexto, eficiência passa a ser também um atributo de mercado, alinhado a exigências internacionais cada vez mais rigorosas — consolidando a sustentabilidade como vetor direto de valor para a pecuária brasileira.
Gestão hídrica: eficiência também passa pela água
A busca por maior eficiência na pecuária também envolve o uso mais estratégico da água, um dos recursos centrais para a produção de alimentos. Na prática, isso significa reduzir desperdícios, melhorar a distribuição e adotar tecnologias que permitam maior controle sobre o consumo, já que o fator determinante para as pastagens, que é o regime de chuvas, está fora do controle do produtor.
Sistemas de dessedentação mais eficientes, manejo adequado de pastagens e recuperação de solos contribuem para aumentar a infiltração e retenção de água, reduzindo a necessidade de captação externa e tornando as propriedades mais resilientes a períodos de seca.
Além disso, estratégias como o reaproveitamento de água e a integração entre sistemas produtivos permitem otimizar o uso do recurso ao longo de toda a cadeia, evitando perdas e aumentando a eficiência por unidade produzida.
A capacidade de mensurar, monitorar e otimizar o uso da água se soma a outros indicadores de eficiência, reforçando o conceito de “fazer mais com menos” como base para a sustentabilidade e a competitividade da pecuária.
Saiba mais: Menos água na pecuária: sustentabilidade vira estratégia do futuro
Programa Renove busca facilitar a transição
Do manejo baseado no “olhômetro” para sistemas orientados por dados e precisão, há uma trajetória que não é percorrida da mesma forma por todos. Para os pequenos e médios produtores a jornada é mais desafiadora devido a limitações técnicas, financeiras e de acesso à informação. É nesse contexto que programas como Renove, da Minerva Foods, fazem a diferença.
Ao oferecer capacitação técnica e direcionamento prático, a iniciativa contribui para reduzir assimetrias e viabilizar a adoção de tecnologias e práticas mais eficientes no campo, visando promover a implementação de uma pecuária de baixa emissão de carbono e práticas regenerativas na América do Sul, com foco na transformação das fazendas em unidades mais produtivas e sustentáveis.
Como parte do programa, os produtores recebem treinamentos específicos sobre práticas regenerativas, como manejo de pastagens, recuperação de solos degradados e intensificação sustentável, e sistemas como a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), que contribuem para aumentar a resiliência climática das propriedades.
Com isso, a transição para modelos produtivos mais eficientes se torna uma prática e passa a gerar ganhos de desempenho e gestão. Ao mesmo tempo, a adoção dessas iniciativas favorece a adequação a critérios cada vez mais exigentes de mercado, ampliando o acesso a cadeias globais e a mercados premium, como o da União Europeia.
Nesse contexto, eficiência e sustentabilidade convergem como vetores de competitividade. Produzir mais com menos consolida-se, assim, como uma estratégia que articula ganhos produtivos, redução de impactos e inserção qualificada no mercado internacional.
Trata-se, portanto, de uma estratégia de ganha-ganha onde a ciência e a tecnologia trabalham para otimizar o que a natureza já oferece. Ao abraçar a nutrição de precisão, o manejo regenerativo, o uso inteligente ou reuso de recursos, o setor produtivo prova que a rentabilidade do amanhã está intrinsecamente ligada à preservação de hoje.
Fontes de referência:
- Do boi, nada se perde: tudo se transforma
- Empowering Agriculture for a Better Tomorrow
- Estratégias para Recuperação e Renovação de Pastagens Degradadas no Cerrado
- HerdView®-Effortless Cattle Management
- ILPF: produtividade, resiliência e renda no campo
- Impact of Precision Livestock Farming on Animal Welfare and Productivity
- Impactos econômicos, sociais, humanos e ambientais da recuperação de pastagens degradadas no Brasil
- O projeto-piloto de rastreabilidade de carne bovina criado por Brasil e China
- Pecuária de precisão com Intergado Efficiency é destaque no CNPA 2025
- Programa Renove
- Route Optimization of Multimodal Transport Considering Regional Differences under Carbon Tax Policy
- Using Precision Feeding to Improve Livestock Health and Profit Margins: A Nutritional Risk Management Strategy
- Usos práticos da tecnologia blockchain na pecuária.