Dia Nacional da Pecuária: o que sabonete, sapato e biodiesel têm a ver com a data?

Com PIB estimado em R$ 1,25 trilhão em 2026, o ramo pecuário vai além da produção de alimentos. Pela lógica da circularidade, seus coprodutos chegam a medicamentos, cosméticos, roupas, móveis, fertilizantes e energia.

Por Rafael Motta em 12 de outubro, 2026

Atualizado: 10/09/2026 - 11:40

Mulher segura uma bolsa vermelha com uma carteira marrom acoplada, em ambiente externo com parede de tijolos ao fundo. dia nacional da pecuária
Foto: Yuliya Padina / Shutterstock

No dia 14 de outubro, é comemorado o Dia Nacional da Pecuária em todo o território nacional. Segundo a Sociedade Nacional de Agricultura (SNA), a data tem o objetivo de lembrar a importância da produção brasileira de proteína animal não só no desenvolvimento econômico do país, mas também na segurança alimentar global. 

Dados consolidados do primeiro trimestre de 2026 pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), estimam que o PIB do agronegócio brasileiro alcance R$ 3,13 trilhões no ano. Deste montante, R$ 1,25 trilhão corresponde ao ramo pecuário, que reúne atividades dentro e fora das propriedades rurais, como produção, indústria, insumos e serviços. Nos últimos 40 anos, a produção nacional de carne de aves aumentou 22 vezes, principalmente, em decorrência de avanços técnicos e tecnológicos.  

Mas a relevância da pecuária não se revela apenas naquilo que chega ao prato ou aparece nas estatísticas econômicas, mas também na presença no dia a dia da sociedade. Afinal, você já pensou em quantos momentos do seu dia essa cadeia está presente, sem você perceber?

Parte da resposta está no aproveitamento do animal de ponta a ponta, dentro da lógica de economia circular, na qual os recursos ganham novas funções e permanecem em circulação em vez de seguir o percurso linear de extração, produção e descarte. Como aponta a revisão científica publicada na revista Animal Frontiers, redirecionar coprodutos do processamento animal para usos seguros e de maior valor é um componente central da circularidade na pecuária bovina. 

É esse percurso, muitas vezes invisível para o consumidor, que ajuda a explicar como a pecuária atravessa o cotidiano, para muito além da alimentação.

A pecuária que chega à mesa

dia nacional da pecuária: Ingredientes e guloseimas em tigelas de cerâmica sobre uma tábua de madeira: fatias de frutas cristalizadas, cubos de ambar e cristais de açúcar com folhas verdes ao fundo, em fundo escuro.
Foto: GleamTuyet99 / Shutterstock

A associação mais imediata à pecuária é o prato de comida. A carne bovina, o leite e seus derivados, como queijos, iogurtes e manteigas, estão entre os alimentos presentes na rotina dos brasileiros. No entanto, o aproveitamento alimentar do animal vai além do corte in natura.

Peles, cartilagens e ossos bovinos podem ser utilizados na produção de gelatina e colágeno, ingredientes encontrados em sobremesas, suplementos e cápsulas de medicamentos. A origem varia conforme a formulação de cada produto, mas esses exemplos mostram como materiais que não seriam consumidos diretamente podem retornar à cadeia com uma nova função.

Levar essa diversidade à mesa exige o trabalho integrado de uma extensa rede de profissionais: do produtor rural ao zootecnista, passando por médicos veterinários, pesquisadores, trabalhadores da indústria, caminhoneiros, fiscais sanitários, profissionais do varejo e da gastronomia.

A pecuária que você veste e usa

dia nacional da pecuária: sapateiro aplica creme em um par de sapatos de couro marrom sobre uma bancada, com escova e polidores ao lado.
Foto: Dmitry Morgan / Shutterstock

Fora da alimentação, o couro bovino é um dos exemplos mais conhecidos desse aproveitamento, como destaca o Conselho Regional de Medicina Veterinária do Mato Grosso do Sul (CRMV-MS). Resistente e versátil, ele pode ser empregado na confecção de calçados, bolsas, cintos, estofados de móveis e revestimentos automotivos. Sua transformação em matéria-prima evita que a pele seja descartada e abastece cadeias que vão da moda à indústria de veículos.

Além do vestuário, a transformação de coprodutos agrega alto valor a itens de uso diário. Conforme levantamento técnico da Embrapa Gado de Corte, tecidos bovinos fornecem podem fornecer colágeno para formulação de cosméticos, como cremes faciais e maquiagens, e produtos farmacêuticos. A revisão publicada na revista Animal Frontiers também identifica peles e ossos como fontes de gelatina alimentícia e farmacêutica, além de cartilagens bovinas utilizadas na obtenção de condroitina, um componente natural da cartilagem humana que ajuda a reter água, dar elasticidade e proteger as articulações, muito usada como suplemento em cápsulas. Isso não significa, porém, que todos os produtos dessas categorias tenham origem animal: as matérias-primas variam conforme o fabricante e a formulação.

Quando um coproduto se torna matéria-prima

O aproveitamento de ponta a ponta segue uma lógica prática de exigência sanitária e valor agregado. A prioridade é direcionar cada material para o uso seguro e que seja capaz de preservar ou ampliar seu valor. Primeiramente aparecem as aplicações alimentícias; depois, produtos farmacêuticos, cosméticos e químicos; na sequência, itens para animais de estimação e outras destinações industriais; por fim, fertilizantes e geração de energia. São cerca de 250 subprodutos que atendem a diversos segmentos industriais 

Esse modelo é conhecido como “pirâmide de valor”. Em vez de tratar todos os materiais remanescentes como resíduos equivalentes, ele considera suas características e procura destiná-los à aplicação de maior utilidade possível.

A transformação industrial desempenha um papel importante nesse processo. Materiais que não se destinam ao consumo humano podem passar por tratamentos específicos e dar origem a gorduras, proteínas, minerais e outros insumos. O aproveitamento, entretanto, depende da segurança sanitária e das regras aplicáveis a cada produto e finalidade.

Da gordura ao combustível

dia nacional da pecuária — técnica em laboratório com luvas azuis e jaleco observa e manipula um equipamento de metal enquanto transfere um líquido amarelo em um béquer, em ambiente industrial com outras vidrarias ao fundo
Foto: Minerva Foods

Materiais de menor valor para as indústrias alimentícia e farmacêutica ainda podem retornar à economia por outras rotas. O sebo bovino, por exemplo, pode ser empregado na fabricação de sabões e de biodiesel. Dessa forma, uma gordura resultante do processamento passa a substituir parte das matérias-primas que precisariam ser obtidas de outras fontes.

Resíduos orgânicos também podem ser direcionados para compostagem, biodigestão, produção de biofertilizantes ou geração de energia, conforme suas características e as normas sanitárias. Esse encadeamento cria uma conexão entre pecuária, indústria e agricultura: nutrientes retornam ao solo, contribuem para a produção vegetal e podem voltar à cadeia como alimentos.

O fechamento desse ciclo não acontece automaticamente. Ele exige manejo técnico para evitar contaminações, perdas de nutrientes e impactos sobre o solo e a água. A economia circular não significa utilizar qualquer resíduo de qualquer maneira, mas encontrar destinações seguras, tecnicamente viáveis e ambientalmente adequadas.

Do aproveitamento à responsabilidade

O aproveitamento integral reduz desperdícios, diversifica as fontes de receita e diminui a necessidade de extrair novas matérias-primas para cumprir determinadas funções. Mas a circularidade representa apenas uma dimensão da produção responsável. 

Celebrar o Dia Nacional da Pecuária, portanto, é reconhecer uma atividade que não termina no campo nem no prato. Ela pode continuar no couro de um calçado, na gelatina de uma cápsula, no colágeno de um cosmético, no sabão, no fertilizante e na energia. Tornar essas conexões visíveis ajuda a compreender como o aproveitamento responsável dos coprodutos reduz desperdícios, gera valor e aproxima a pecuária dos princípios da economia circular — inclusive nos momentos em que sua presença passa despercebida.