Lívia Padilha: ciência, comunicação e protagonismo feminino no debate sobre pecuária

Doutora em economia comportamental, pesquisadora do consumo de carne e host de podcasts sobre o agronegócio, Lívia conecta nutrição, sustentabilidade e comportamento do consumidor.

Por Marcia Tojal em 9 de março, 2026

Atualizado: 06/03/2026 - 09:36

Lívia Padilha, Doutora em economia comportamental, pesquisadora do consumo de carne e host de podcasts sobre o agronegócio
Lívia Padilha (Foto: Divulgação)

Ao navegar pelas redes sociais de Lívia Padilha, as vozes femininas são presença certa nos podcasts que ela apresenta. Em Os Agronautas”, ela divide a condução com outros profissionais ligados à pecuária, sendo duas delas mulheres.  Dentre os convidados eventuais do programa estão produtores rurais, pesquisadores e profissionais do setor no centro do debate. Já no “Em Defesa da Carne”, que lidera sozinha, recebe majoritariamente especialistas — muitas delas mulheres — para discutir ciência, nutrição e sustentabilidade na produção animal.

Perguntada sobre essa presença recorrente, Lívia se surpreende com a constatação, pois ela explica que não foi intencional. As escolhas sempre partiram da relevância técnica das convidadas e da qualidade das contribuições. Ainda assim, o resultado é consistente: ao ocupar o espaço de host, ela amplia a mesa e mostra o impacto de uma mulher no espaço em que ela ocupa: mais mulheres, o que significa mais multiplicidade de perspectivas e olhares. Assim, outras mulheres passam a ser fontes, protagonistas e referência em um setor historicamente associado a lideranças masculinas.

No “Os Agronautas”, o formato é colaborativo com  outros profissionais. A condução compartilhada reforça a ideia de complementaridade de visões. Não se trata de dividir protagonismo, mas de somar repertórios. A proposta é trazer múltiplos olhares sobre gestão, sucessão familiar, inovação e sustentabilidade no campo.

Já o “Em Defesa da Carne” nasceu das discussões em torno do livro Sacred Cow (em português, A carne nossa de cada dia), da nutricionista Diana Rodgers. O que começou como conversas para aprofundar os argumentos da obra evoluiu para um canal estruturado de entrevistas, atualmente em segunda temporada. A linha editorial é objetiva: abordar carne e pecuária com base científica, confrontar mitos e analisar o tema para além das narrativas simplificadas.

Essa abordagem dialoga com a própria trajetória de Lívia. Formada em comércio exterior, teve seu primeiro contato com a cadeia bovina no setor coureiro, no Rio Grande do Sul. Seu trabalho de conclusão de curso já tratava de design ecológico e sustentabilidade aplicada ao couro. Posteriormente, aprofundou-se em gestão e sustentabilidade e passou a estudar nutrição.

A inquietação com o debate público sobre carne — muitas vezes fragmentado entre argumentos ambientais e nutricionais — a levou ao doutorado na Universidade de Adelaide, na Austrália, com bolsa integral. Lá, integrou um centro dedicado a estudos globais sobre alimentos e recursos naturais. Sua pesquisa investigou como consumidores interpretam diferentes narrativas sobre carne, incluindo alternativas vegetais e carne cultivada em laboratório, combinando quase cem entrevistas presenciais e levantamentos quantitativos periódicos.

O eixo central foi compreender o que o consumidor entende por “carne sustentável” a partir dos pilares ambiental, social e econômico. A mesma lógica que orienta sua pesquisa atravessa seus podcasts: ampliar o debate, integrar perspectivas e qualificar a informação. Ao ocupar o microfone, Lívia não apenas conduz a conversa — ela redefine quem participa dela.

Quebrando mitos e ampliando vozes

Ao tratar de carne e pecuária em seus podcasts — especialmente no “Em Defesa da Carne” — Lívia Padilha mantém a mesma linha que orientou sua trajetória acadêmica: partir da ciência para qualificar o debate público. Em entrevista ao portal My Minerva Foods, ela reforçou que muitas discussões ainda se apoiam em percepções simplificadas.

Entre os temas recorrentes está o metano e as emissões de gases de efeito estufa. Segundo ela, parte das críticas desconsidera o funcionamento do ciclo biogênico do carbono e a dinâmica do sequestro de carbono em determinados sistemas produtivos. “As pessoas voltam sempre à questão do metano”, observa. Para Lívia, compreender o ciclo natural é condição básica para elevar o nível da conversa.

No campo nutricional, outro ponto frequente é a ideia de que o consumo de carne bovina estaria excessivamente elevado no mundo. Ela pondera que os dados globais indicam estabilidade média no consumo, com variações regionais associadas a fatores socioeconômicos. Ou seja, o cenário é mais complexo do que a narrativa generalista costuma sugerir.

Essa preocupação em traduzir informação técnica acompanha seu trabalho desde o doutorado. Durante a pesquisa, utilizava infográficos e representações visuais para explicar conceitos complexos aos entrevistados. A experiência consolidou uma convicção que hoje atravessa seus podcasts: a divulgação científica é peça-chave para aproximar campo e cidade — e para desmontar mitos que se perpetuam pela falta de contexto.

A presença feminina, que marca seus programas, também atravessou sua formação acadêmica. No doutorado, foi orientada por uma economista e coorientada por uma nutricionista, ambas pesquisadoras dedicadas ao estudo do consumo de carne. O ambiente estimulava não apenas a produção científica, mas a comunicação com públicos não acadêmicos — algo que Lívia incorporou como prática.

Entre suas referências está a nutricionista e autora Diana Rodgers, cuja obra incluiu os infográficos já traduzidos e adaptados por ela, e sua revisão técnica do texto em português. Para Lívia, a combinação entre rigor científico e clareza na comunicação é estratégica para ampliar o entendimento público sobre a pecuária.

O protagonismo feminino também se manifesta nas histórias que ela acompanha no setor. Cita o caso de uma produtora rural que, ao assumir a gestão de uma fazenda ainda muito jovem, enfrentou resistência explícita por ser mulher. Situações como essa revelam desafios históricos do agro, mas também indicam transformações em curso.

“Hoje, estão surgindo cada vez mais vozes diversas e qualificadas na pecuária”, afirma. Para ela, é preciso multiplicar essas vozes comprometidas com a verdade, na defesa de uma pecuária cada vez mais sustentável. Melhorando, assim, um debate que ainda costuma ser reduzido a slogans.

Quebrando mitos e barreiras

Ao longo da entrevista ao My Minerva Foods, Lívia destaca que muitos debates públicos sobre carne ainda se baseiam em percepções simplificadas. 

Segundo ela, parte das críticas desconsidera o funcionamento do ciclo biogênico do carbono e a dinâmica do sequestro de carbono em sistemas produtivos. “As pessoas voltam sempre à questão do metano”, observa. Para ela, a compreensão do ciclo natural é central para qualificar o debate.

Na dimensão nutricional, outro ponto recorrente é a ideia de que o consumo de carne bovina estaria excessivamente elevado no mundo. Lívia ressalta que os dados globais mostram estabilidade média no consumo, com variações regionais relacionadas a fatores socioeconômicos.

Seu trabalho de comunicação busca justamente traduzir essas informações técnicas. Durante sua pesquisa, utilizava infográficos e representações visuais para explicar conceitos complexos a entrevistados. A experiência reforçou sua convicção de que a divulgação científica é peça-chave para o diálogo entre campo e cidade, e para quebrar mitos.

Ao transitar entre academia, comunicação e setor produtivo, Lívia defende que o debate sobre carne não pode ser fragmentado. Nutrição, sustentabilidade e comportamento do consumidor são dimensões interdependentes.

Seu trabalho, seja na pesquisa, seja nos podcasts, busca aproximar esses universos. Ao dar voz a produtores, médicos, nutricionistas e pesquisadores, contribui para qualificar a conversa pública sobre a produção de alimentos de origem animal.

No centro dessa atuação está uma convicção: informação baseada em evidências é o caminho para decisões mais conscientes, tanto no campo, quanto na cidade. E, nesse processo, a perspectiva feminina não é apenas representativa, mas estratégica para ampliar perspectivas e fortalecer o diálogo no agro.


Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.