A revolução tecnológica no agronegócio tem mudado a forma como os produtores lidam com insumos e produtividade. Tecnicidades como robótica agrícola e monitoramento em tempo real já são associadas ao cotidiano dos grandes produtores, trazendo ganhos econômicos e ambientais.
Segundo o head de sustentabilidade do Rabobank na América do Sul, Taciano Custódio, a pecuária de precisão vai além da aplicação de tecnologia voltada à saúde do solo, da planta e da produção animal. Passa também pelo entendimento e otimização do uso do solo das propriedades rurais. A análise foi apresentada em um painel da Minerva Foods na COP30, realizada em Belém/PA, em novembro de 2025.
Visão integrada nas propriedades rurais
O executivo apresentou a estratégia do Rabobank Brasil, que classifica as propriedades em três categorias, sendo a primeira de fazendas com excedente de vegetação nativa, ou seja, que preservam mais área do que exige a legislação brasileira. Para essas propriedades, Custódio citou instrumentos como o Responsible Commodities Facility (RCF), um fundo voltado ao financiamento da safra que considera critérios como o excedente de reserva legal e a produção sem conversão de novas áreas. Além disso, mencionou fundos mistos que oferecem crédito comercial com condições atrativas e oportunidades de geração de receita, fortalecendo o valor do capital natural proveniente do excedente de vegetação nativa.
Propriedades em processo de regularização que apresentam déficit de reserva legal, ou seja, abaixo do exigido por lei, necessitam compensar ou restaurar a vegetação nativa. Para atender essas propriedades, Custódio sugere a utilização de linhas de crédito de longo prazo com maior carência, desenvolvidas especificamente para financiar a compra e/ou a compensação de áreas nativas e a restauração ecológica, valorizando a natureza como um ativo no balanço financeiro. Nesse contexto, o Rabobank Brasil oferece linhas que podem chegar até 20 anos, demonstrando inovação no setor financeiro.
Por fim, fazendas com baixa produtividade ou que operam em terras degradadas têm a oportunidade de acessar empréstimos híbridos (blended finance), que combinam múltiplas fontes de capital, assim como linhas de crédito com prazos compatíveis à restauração do solo e financiamentos voltados para intensificação sustentável. Dessa forma, operações com baixa eficiência têm a possibilidade de aprimorar a produtividade sem recorrer à expansão territorial, desassociando o avanço produtivo da abertura de novas áreas.
A categorização das fazendas, portanto, está diretamente vinculada à análise da cobertura e do uso do solo, considerando tanto a quantidade de vegetação nativa preservada, quanto as condições de degradação das áreas produtivas. Esse olhar integrado reforça que a pecuária contemporânea não se limita apenas ao manejo dos animais, mas envolve também a gestão responsável dos recursos naturais da propriedade.
Avaliar o solo e a vegetação como ativos estratégicos amplia a visão de sustentabilidade, posicionando a fazenda dentro de um cenário global em que práticas ambientais e produtivas equilibradas são cada vez mais valorizadas.
Estratégias de controle e monitoramento

Uma vez adequadamente categorizadas, as fazendas devem fazer uso de mecanismos específicos para garantir o controle e o monitoramento das atividades pecuaristas. “Tecnologia, inovação e sustentabilidade andam de mãos dadas. Não são coisas que competem; acreditamos que podemos fazer os dois ao mesmo tempo”, afirmou Vanessa Bernardes, da Solinftec.
Soluções envolvendo hardware especializado e robótica, segundo Vanessa, podem gerar ganhos de produtividade e ganhos ambientais de maneira mútua. Por meio da coleta contínua de dados em tempo real, a agropecuária assume um novo papel no gerenciamento das fazendas, permitindo tomadas de decisões mais precisas e que minimizem ao máximo possíveis impactos ambientais.
Robôs alimentados com IA permitem o acompanhamento preciso de tudo o que acontece no campo. Dessa forma, o uso de insumos é reduzido e a gestão agropecuarista é remodelada, trazendo à tona a necessidade da digitalização das propriedades em prol do desenvolvimento sustentável.
Portanto, não é uma escolha entre produtividade e conservação: quando bem aplicadas, essas tecnologias se tornam complementares, fazendo com que o manejo das espécies seja executado com maior controle.
Processo de transição para a pecuária de precisão
Segundo dados da Gordon and Betty Moore Foundation, o fundo Catalytic Capital for the Agricultural Transition (CCAT) ou Fundo Catalítico para a Transição Agrícola, em tradução livre. já saiu com um aporte âncora de US$ 50 milhões e tem a ambição de mobilizar US$ 1 bilhão em investimentos ao longo da agenda de transição agrícola.
Instrumentos como dívida subordinada, garantias e capital concessional serão utilizados pelo fundo para garantir liquidez e segurança aos investidores e produtores que busquem crédito de longo prazo. Em geral, o processo de recuperação de pastagens leva entre 7 e 10 anos para gerar retorno. Inicialmente, o foco será na atuação de biomas como Amazônia e Cerrado, podendo expandir-se para outros espectros conforme a performance do fundo.
Governo e iniciativa privada operam em conjunto
Richard Smith, diretor executivo do Produce, Conserve and Include Institute (PCI Institute), explicou a natureza institucional da iniciativa: “É um projeto do estado, não um projeto de governo; mesmo com mudança política, a estratégia continuou a ser implementada”.
De maneira simplificada, o objetivo do órgão privado é promover produtividade e inclusão dentro do agronegócio, especificamente em ações no Mato Grosso (MT). Essa institucionalização – por decreto e, posteriormente, como entidade privada sem fins lucrativos com representação governamental no conselho – é justamente o que permite a continuidade das ações, apesar da alternância de governos.
De acordo com publicação do IDH, a iniciativa teve participação do Chefe da Casa Civil do Mato Grosso, Fábio Garcia, juntamente com a ex-diretora do IDH Brasil, Daniela Mariuzzo, em outubro de 2024, em Cuiabá. Ambos assinaram o Memorando de Entendimento, o qual consolida o compromisso de apoiar e direcionar investimentos no PCI Institute.
O processo de institucionalização reduz o risco de descontinuidade em políticas públicas territoriais complexas que exigem décadas para entregar resultados. Por meio de institutos com governança compartilhada, a PCI consegue atrair parceiros, fundos e projetos de mercado que demandam previsibilidade institucional para investimentos de longo prazo.
Fontes de referência: