Produção de gado em ambientes adversos mostra força e resiliência

Do Deserto do Saara ao Ártico, produção garante emprego e renda para comunidades.

Por Ana Cecília Panizza em 26 de agosto, 2025

Atualizado: 10/10/2025 - 18:38

Foto: Paul Looyen/ Shutterstock

A produção de gado é uma atividade econômica fundamental para comunidades de todo o mundo, principalmente as vulneráveis. Segundo o estudo Moving Towards Sustainability: The Livestock Sector and the World Bank, do World Bank Group, cerca de 500 milhões de produtores no mundo dependem da criação de bois para terem alimentação, renda e rede de segurança em momentos de necessidade. Isso ganha ainda mais importância para pecuaristas que vivem em ambientes desafiadores, como os muito frios, os montanhosos e os áridos. Em lugares de condições adversas como esses, a produção de gado pode ser a única maneira de converter, de forma sustentável, os recursos naturais locais não apenas em alimento, mas em obtenção de renda.  

Gado é conta poupança na região mais fria do mundo

Foto: Tatiana Gasich/ Shutterstock

Um exemplo marcante de produção de gado em ambientes adversos está na região mais fria do mundo, a Sibéria. Yakutia, república na região da Sibéria que faz parte da Rússia, é conhecida por suas temperaturas extremamente baixas e invernos longos e rigorosos; as temperaturas médias em janeiro podem variar de -25 °C a -50 °C, dependendo da localização. Lá é onde fica a cidade de  Yakutsk, conhecida como a mais fria do mundo, com temperaturas que podem atingir -60°C no inverno. Já a vila de Oymyakon é considerada a localidade permanentemente habitada mais fria do planeta, onde as temperaturas já chegaram a -71,2°C

Esse frio intenso dificulta a agricultura e a criação de animais na região. É a criação de gado de corte que garante a subsistência das comunidades locais. A comercialização dos animais gera renda rápida para que os pecuaristas invistam em materiais de plantio, fertilizantes ou contratação de mão de obra para atividades agrícolas. Esses benefícios podem expandir a área cultivada, aumentar os rendimentos e melhorar a produtividade. Ou seja, gados de pequeno e grandes portes funcionam como uma espécie de “conta poupança”, utilizada para adquirir insumos agrícolas, investir em outras atividades geradoras de renda ou pagar despesas, como educação, contas médicas e custos funerários. 

Apesar das dificuldades, os habitantes dessas regiões remotas sobrevivem também da agricultura. Para isso, contam com estufas aquecidas, onde cultivam legumes durante os meses mais frios. 

Adaptação e resiliência

Os bois de Yakutia são adaptados ao clima severo, de uma raça resistente, conhecida como gado yakutiano ou “Sakha Yatki”. Esses animais desenvolveram uma camada espessa de pele e pelagem que os protege do frio intenso. Também têm habilidade para encontrar comida sob a neve profunda porque raspam gelo e neve para alcançar o capim. O gado yakutiano ainda tem a capacidade de regular sua temperatura corporal e apresenta metabolismo lento, o que garante sobrevivência em condições extremamente adversas. 

A pecuária local tem outras aplicações: o esterco é usado como fertilizante natural, o que ajuda na preparação do solo e também como uma espécie de isolante térmico: o esterco de vaca é espalhado nas paredes dos estábulos para ajudar a manter o calor. Além disso, as famílias ordenham suas vacas para obter leite suficiente para consumo próprio e venda. Durante os curtos meses de verão (de julho a setembro), os produtores se dedicam à colheita de feno para garantir que seus rebanhos tenham comida suficiente para os longos invernos.

Bois no Saara 

Foto: Catay/ Shutterstock

O relatório Livestock & the environment: finding a balance, produzido pela Comissão das Comunidades Europeias, do Banco Mundial e dos governos da Dinamarca, França, Alemanha, Holanda, Reino Unido e Estados Unidos da América, revela que, “para cerca de 100 milhões de pessoas em áreas áridas, e provavelmente um número semelhante em outras zonas, o gado em pastagem é a única fonte possível de subsistência”.

Segundo o documento,  em pastagens áridas, os sistemas tradicionais de produção de transumância – em que a criação de gado envolve o movimento sazonal de rebanhos e seus pastores entre diferentes áreas – são altamente eficientes, o que garante produção de gado em ambientes adversos, até no Deserto do Saara. A prática antiga, presente em diversas culturas e regiões do mundo, desempenha um papel importante na conservação dos ecossistemas e da biodiversidade, permitindo a adaptação às variações climáticas e à disponibilidade de recursos naturais. 

O sistema de produção transumância, aponta o relatório, é adotado por produtores no Mali (na África Ocidental), cuja maior parte é ocupada pelo Deserto do Saara. O sistema também está presente na pecuária bovina em Botsuana, no sul da África. Nesse dois locais, ainda segundo o relatório, a produção bovina é duas ou três vezes maior – e a um custo muito menor em recursos combustíveis não renováveis – do que a produção de sistemas de sedentários ou pecuária em condições climáticas semelhantes na Austrália e nos Estados Unidos.  A importância da pecuária na região é destacada no estudo Why Is Production of Animal Source Foods Important for Economic Development in Africa and Asia?, publicado na revista científica Animal Frontiers, em 2020. Segundo o documento, a produção de alimentos de origem animal contribui para o desenvolvimento econômico, gerando renda e emprego para criadores de gado e atores ao longo das cadeias de valor da pecuária. “Na África e na Ásia, a pecuária é um ativo, uma reserva de riqueza para a resiliência. A produção pecuária local aumenta a disponibilidade de alimentos de origem animal como fonte de proteínas e micronutrientes, necessários para uma população saudável”, diz um trecho do texto do documento. É a produção de gado mostrando a força e a resiliência, mesmo em ambientes adversos, seja no deserto, seja no Ártico.

Fontes de referência:

Dúvidas mais comuns

A produção de gado é fundamental em ambientes adversos porque representa a única forma sustentável de converter recursos naturais locais em alimento e renda para comunidades vulneráveis. Aproximadamente 500 milhões de produtores no mundo dependem da criação de gado para alimentação, renda e segurança financeira. Em regiões muito frias, montanhosas ou áridas, onde a agricultura tradicional é praticamente impossível, o gado funciona como uma 'conta poupança' que permite aos pecuaristas investir em insumos agrícolas, educação, saúde e outras necessidades essenciais.

O gado yakutiano, também conhecido como 'Sakha Yatki', desenvolveu características biológicas específicas para sobreviver em temperaturas que podem atingir -60°C ou até -71,2°C. Esses animais possuem uma camada espessa de pele e pelagem que os protege do frio intenso, além de habilidade para encontrar comida sob a neve profunda raspando gelo e neve para alcançar o capim. Também apresentam metabolismo lento e capacidade de regular sua temperatura corporal, garantindo sobrevivência em condições extremamente adversas.

O sistema de transumância é uma prática antiga de produção de gado que envolve o movimento sazonal de rebanhos e seus pastores entre diferentes áreas, adaptando-se às variações climáticas e à disponibilidade de recursos naturais. Esse sistema é altamente eficiente em pastagens áridas e é adotado por produtores em regiões como Mali (no Deserto do Saara) e Botsuana (sul da África). A transumância não apenas garante a produção de gado em ambientes desafiadores, mas também desempenha um papel importante na conservação dos ecossistemas e da biodiversidade.

Segundo relatórios do Banco Mundial, a produção bovina em sistemas de transumância no Mali e Botsuana é duas ou três vezes maior do que em sistemas sedentários ou em condições climáticas semelhantes na Austrália e nos Estados Unidos, e isso ocorre com um custo muito menor em recursos combustíveis não renováveis. Essa eficiência demonstra que os sistemas tradicionais de produção adaptados aos ambientes locais são mais produtivos e sustentáveis do que modelos convencionais importados.

O gado em ambientes adversos possui várias aplicações além de carne e leite. O esterco é utilizado como fertilizante natural para preparação do solo e também como isolante térmico, sendo espalhado nas paredes dos estábulos para manter o calor. As famílias ordenham suas vacas para obter leite para consumo próprio e venda. Durante os meses de verão, os produtores colhem feno para garantir alimento suficiente para os rebanhos durante os longos invernos, demonstrando um sistema integrado de aproveitamento de recursos.

Na África e Ásia, a pecuária funciona como um ativo e reserva de riqueza para resiliência econômica das comunidades. A produção de gado gera renda e emprego para criadores e atores ao longo das cadeias de valor da pecuária, contribuindo significativamente para o desenvolvimento econômico. Além disso, aumenta a disponibilidade de alimentos de origem animal como fonte de proteínas e micronutrientes essenciais para uma população saudável, especialmente em regiões onde cerca de 100 milhões de pessoas em áreas áridas dependem exclusivamente do gado em pastagem como fonte de subsistência.

Aproximadamente 500 milhões de produtores no mundo dependem da criação de gado para alimentação, renda e rede de segurança em momentos de necessidade, conforme apontado pelo estudo 'Moving Towards Sustainability: The Livestock Sector and the World Bank' do World Bank Group. Em áreas áridas especificamente, cerca de 100 milhões de pessoas dependem do gado em pastagem como única fonte possível de subsistência, demonstrando a importância crítica dessa atividade para comunidades vulneráveis globalmente.

Os produtores em Yakutia se dedicam intensamente durante os curtos meses de verão (julho a setembro) à colheita de feno, que é armazenado para garantir que seus rebanhos tenham comida suficiente durante os longos e rigorosos invernos siberianos. Além disso, o gado yakutiano possui habilidade natural para encontrar comida sob a neve profunda, raspando gelo e neve para alcançar o capim. Essa combinação de preparação humana e adaptação animal permite a sustentação dos rebanhos em um dos ambientes mais hostis do planeta.