O consumo de proteína animal tem passado por um processo profundo de transformação, tanto no aspecto mercadológico, quanto no comportamental. Estudos recentes indicam que consumidores preocupados com segurança do alimento e sustentabilidade têm exercido uma influência crescente sobre toda a cadeia e impulsionando uma nova geração da carne em todo o mundo.
Um levantamento da Kantar mostra que a carne vermelha continua protagonista, especialmente no Brasil, Argentina e Chile, onde mais de 75% da população afirma não ter intenção de reduzir o consumo, ainda que, entre os 44% dos consumidores latino-americanos preocupados com saúde, haja sinais de diversificação nas fontes de proteína. Ou seja, no quadro geral, a carne bovina segue como protagonista na dieta. No entanto, o mesmo estudo aponta que a sustentabilidade começa a influenciar escolhas: consumidores estão exigindo equilíbrio entre tradição e responsabilidade, abrindo espaço para práticas ESG e inovação em rastreabilidade ao longo da cadeia produtiva.
Segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor, 86% dos compradores de carne afirmam procurar informações sobre a origem do produto na embalagem, e 95% dizem que isso influenciaria sua decisão de compra, se tivesse tal informação no rótulo do produto — um indicativo claro de que atributos relacionados à rastreabilidade e transparência na cadeia produtiva contam na hora de escolher carne bovina.
Nesse contexto, o consumo consciente não significa necessariamente comer menos carne, mas entender como ela é produzida. Para acompanhar a demanda, empresas do setor têm investido em tecnologias e processos que tornam a cadeia de produção mais eficiente e transparente. Sistemas de monitoramento por satélite, inteligência artificial aplicada ao manejo e rastreabilidade individual são alguns exemplos de ferramentas que vêm ganhando espaço ao longo dos anos na rotina de produtores e indústrias.
Bem-estar animal, confiança no consumo
Segundo o Eurobarometer, 84% dos cidadãos da União Europeia consideram importante proteger o bem-estar dos animais de produção, e 59% afirmam que gostariam de receber mais informações sobre as condições de criação no momento da compra. Esse vínculo entre confiança e práticas responsáveis também é evidenciado pelo levantamento da PwC – Voice of the Consumer Survey em que oito em cada 10 entrevistados disseram que pagariam até 5% a mais por produtos produzidos de forma sustentável.
Em linha com essa demanda, protocolos de manejo mais cuidadosos, que também contribuem para a saúde dos animais, para a estabilidade dos sistemas produtivos e para a conformidade com exigências de mercados internacionais, como mostra essa matéria do portal MyMinerva Foods, têm sido adotados na pecuária integrando exigências mercadológicas, regulatórias e econômicas, uma vez que tais práticas também impactam na qualidade final do produto e em um maior eficiência na produção, por exemplo, minimizando perdas por hematomas gerados durante o transporte.
Uma reportagem da Exame mostra esse movimento: a Tianjin Meat Association, importadora chinesa de carne bovina, anunciou a compra de até 50 mil toneladas de carnes de frigoríficos brasileiros – desde que suas práticas estejam livres de desmatamento. Tanto a iniciativa pública quanto a privada trabalham em conjunto para fomentar a evolução dentro do setor, garantindo a transparência necessária para evitar práticas de greenwashing (quando empresas comunicam compromissos ambientais que não se sustentam em ações, métricas ou resultados verificáveis).
Nova geração da carne abre novo ciclo econômico
Relatório do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) afirma que o Brasil é o maior exportador de carne bovina do mundo com base em dados internacionais de comércio. Esse protagonismo abre espaço para a aceleração da adoção de tecnologias modernas, capazes de otimizar a cadeia de produção sem comprometer o ecossistema ao redor.
Segundo dados da Agroicone, o crescimento contínuo da produção se dá por conta do melhor manejo das pastagens, avanços genéticos e ciclos produtivos mais eficientes, que entre outros fatores, minimizam os impactos ao meio ambiente. Isso é especialmente relevante na negociação com blocos como a União Europeia, que combinam exigências ambientais rigorosas com padrões elevados de qualidade do produto. É essa confiabilidade que o mercado brasileiro conquistou que tem aberto outras portas do mercado internacional, como Japão e até a Indonésia.
Fontes de referência:
- Anuário Cicarne da cadeia produtiva da carne bovina: 2024 – 2025.
- Attitudes of Europeans towards animal welfare
- Brazil: Livestock and Products Annual
- Carne de origem certificada: garantia de segurança, qualidade e sustentabilidade da fazenda ao consumidor
- Consumidor quer informações sobre origem da carne em embalagem, mas higiene e preço do produto ainda é o que mais pesa na hora da compra
- Consumo consciente de carne vermelha ganha força e coloca sustentabilidade no centro da COP30
- Gestão Sustentável: o poder do consumo consciente na era das cadeias globais
- Invited paper Evolving consumer trends: positioning animal proteins for a sustainable future.: Consumer trends in meat consumption.
- Pecuária de precisão: robôs e sensores reduzem custos e impactos ambientais
- Produtos carbono neutro integram estratégia e sustentabilidade
- Proteína para que te quero: a relação entre ingestão proteica, força e massa muscular
- Sustentabilidade na cadeia da carne – CAMINHOS PARA O BRASIL E OS APRENDIZADOS DO P4F
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