Nutrição de precisão aumenta o peso do gado e reduz desperdícios

Ajustes finos na dieta dos animais podem ajudar na engorda, além de reduzir o desperdício de insumos e tornar as emissões de gases do efeito estufa menores.

Por Rafael Motta em 27 de março, 2026

Atualizado: 17/08/2026 - 21:26

gados alimentando-se em fazenda, relacionada à nutrição de precisão no setor agropecuário
Foto: Minerva Foods

Tecnologias redefinem a alimentação na pecuária, proporcionando uma transformação estrutural que torna os sistemas produtivos mais eficientes e sustentáveis. É a partir dela que surge a nutrição de precisão, uma estratégia baseada em tomadas de decisões baseada em informações. O foco é aumentar a eficiência por meio de maior ganho de peso dos gados e redução de desperdício de insumos.

A abordagem baseia-se no uso de dados zootécnicos, softwares especializados e insumos estratégicos para formular dietas ajustadas às exigências nutricionais dos animais em cada fase produtiva, prática já amplamente discutida por instituições como a Embrapa.

O modelo se opõe às práticas tradicionais em que os rebanhos eram alimentados de maneira padronizada, sem muita diferenciação entre eles e sem base informacional. O resultado era perdas nutricionais para os animais, maior excreção de resíduos e custos elevados para o produtor. Essas ineficiências são corrigidas por meio dos modelos modernos de nutrição, em que as dietas são formuladas de acordo com peso, idade, fase fisiológica e objetivo produtivo do animal.

O fim da subnutrição e da supernutrição

Pessoa segurando alimento para gado, com bois ao fundo
Foto: Minerva Foods

Enquanto animais mais exigentes (jovens em crescimento acelerado, por exemplo) recebiam menos nutrientes do que precisavam, outros os recebiam em excesso. No primeiro cenário, problemas como menor ganho médio diário, atraso no abate e pior conversão alimentar foram observados; no segundo, houve desperdício de proteína e energia, maior custo por arroba, maior excreção de nitrogênio e fósforo e impacto ambiental ampliado, segundo relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

Cada categoria animal tem uma exigência nutricional específica: portanto, a dieta deve refletir suas particularidades. Isso é alcançado por meio do ajuste fino de energia e proteína, a exemplo das diretrizes fornecidas pela National Research Council (NRC), referência mundial em exigências nutricionais. Elas ilustram que pequenas variações no balanço entre energia e proteína podem alterar significativamente o ganho de peso. “Energia”, nesse contexto, refere-se à fração dos alimentos — como milho, pasto ou silagem — que o animal consegue efetivamente converter em funcionamento metabólico e crescimento. É essa energia que sustenta as funções vitais do organismo e, quando disponível em quantidade adequada, permite que os nutrientes sejam direcionados para o ganho de peso. 

Por isso, o equilíbrio entre energia e proteína é determinante: se a energia é insuficiente, o animal prioriza a manutenção do corpo e reduz o ritmo de crescimento; quando bem ajustada, potencializa o aproveitamento da proteína e favorece uma deposição mais eficiente de tecido muscular. Nesse cenário, mesmo pequenas variações na densidade energética da dieta podem resultar em diferenças relevantes no desempenho produtivo.

Estudos experimentais com bovinos em terminação (ou seja, que estão na fase final do ciclo de produção) avaliam estratégias específicas de nutrição de precisão. Pesquisadores da Oxford comparam ajustes na dieta com base em peso individual, taxa de crescimento esperada, consumo real, composição da alimentação e metas de desempenho. Os animais alimentados com precisão apresentaram ganho diário médio (ADG) igual ou superior aos animais do grupo convencional.

Leia mais: Cinco domínios: a ciência do bem-estar animal na prática

Softwares especializados atuam na nutrição de precisão

Jovem mulher usando tablet para gerenciar fazenda de gado
Imagem gerada digitalmente

Um dos pilares da nutrição de precisão moderna é a presença de softwares que formulam dietas com base em dados reais e atualizados sobre o desempenho dos animais, composição dos alimentos e condições ambientais. Esses sistemas ajudam os produtores a tomarem decisões mais acertadas, integrando informações complexas para gerar recomendações exatas.

O Cornell Net Carbohydrate and Protein System (CNCPS) é um dos exemplos mais consolidados do segmento. Desenvolvido pela Universidade de Cornell, em Ithaca, Nova Iorque, ele calcula exigências nutricionais e prevê desempenho com base em modelos biológicos detalhados. 

Outro software bastante utilizado é o Large Ruminant Nutrition System (LRNS), criado por pesquisadores da Texas A&M University. Embora utilize o mesmo motor computacional do CNCPS, ele permite ajustes mais finos de acordo com o tipo de animal, ambiente, manejo e características físico-químicas dos alimentos disponíveis na fazenda. Com isso, é possível simular diferentes cenários nutricionais e prever impactos no ganho de peso, consumo e excreção de nutrientes.

A união entre pesquisas constantes, iniciativas públicas e privadas no campo e o uso de softwares específicos para a pecuária forma o ecossistema necessário para minimizar os impactos do aquecimento global, melhorar a produção e superar adversidades enfrentadas por produtores em regiões vulneráveis. Dessa forma, as estratégias passam a ser baseadas em ciência e dados – não mais em tentativa e erro. 

Impacto ambiental, eficiência e ciclo produtivo

Além dos impactos econômicos, a nutrição de precisão colabora com questões ambientais em escala global. Organismos internacionais, como o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e a FAO, reforçam que ajustes nutricionais relativamente simples podem gerar efeitos benéficos significativos na redução das emissões de carbono e no uso racional de recursos naturais.

Existe uma relação direta: quanto mais eficiente é o animal em transformar alimento em ganho de peso, menor é a quantidade de recursos — como grãos, água e área — necessária para produzir cada quilo de carne. Isso significa que sistemas mais eficientes demandam menos insumos ao longo da cadeia e, por consequência, apresentam menor impacto ambiental por unidade produzida.

Diante desse cenário, tecnologias aplicadas à produção agropecuária passam a desempenhar um papel estratégico na mitigação de impactos e no aumento da eficiência dos sistemas alimentares. Os avanços indicam que é possível reduzir perdas, otimizar o uso de recursos e, consequentemente, diminuir a intensidade de emissões associadas à produção.

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Dúvidas mais comuns

A nutrição de precisão é uma estratégia baseada em tomadas de decisão informadas que utiliza dados zootécnicos, softwares especializados e insumos estratégicos para formular dietas ajustadas às exigências nutricionais específicas de cada animal em sua fase produtiva. Diferentemente das práticas tradicionais que alimentavam rebanhos de forma padronizada, a nutrição de precisão considera peso, idade, fase fisiológica e objetivo produtivo do animal, aumentando a eficiência e reduzindo desperdícios.

A nutrição de precisão aumenta o ganho de peso ao eliminar a subnutrição e supernutrição. Quando as dietas são ajustadas corretamente, o equilíbrio entre energia e proteína é otimizado, permitindo que o animal dirija os nutrientes de forma mais eficiente para o crescimento muscular. Estudos experimentais demonstram que animais alimentados com precisão apresentam ganho diário médio (ADG) igual ou superior aos animais alimentados convencionalmente, mesmo com pequenas variações na densidade energética da dieta.

O equilíbrio entre energia e proteína é determinante para o desempenho animal. A energia sustenta as funções vitais do organismo e, quando disponível em quantidade adequada, permite que os nutrientes sejam direcionados para o ganho de peso. Se a energia é insuficiente, o animal prioriza a manutenção do corpo e reduz o ritmo de crescimento; quando bem ajustada, potencializa o aproveitamento da proteína e favorece uma deposição mais eficiente de tecido muscular.

Os principais softwares utilizados são o Cornell Net Carbohydrate and Protein System (CNCPS), desenvolvido pela Universidade de Cornell, que calcula exigências nutricionais e prevê desempenho com base em modelos biológicos detalhados, e o Large Ruminant Nutrition System (LRNS), criado pela Texas A&M University, que permite ajustes mais finos de acordo com o tipo de animal, ambiente, manejo e características dos alimentos disponíveis na fazenda.

A nutrição de precisão reduz o impacto ambiental ao aumentar a eficiência do animal em transformar alimento em ganho de peso. Quanto mais eficiente é o animal, menor é a quantidade de recursos como grãos, água e área necessária para produzir cada quilo de carne. Sistemas mais eficientes demandam menos insumos ao longo da cadeia e apresentam menor impacto ambiental por unidade produzida, além de reduzirem as emissões de carbono e a excreção de nitrogênio e fósforo.

A subnutrição causa menor ganho médio diário, atraso no abate e pior conversão alimentar, reduzindo a produtividade. A supernutrição resulta em desperdício de proteína e energia, maior custo por arroba, maior excreção de nitrogênio e fósforo, e impacto ambiental ampliado. A nutrição de precisão elimina esses problemas ao ajustar as dietas às exigências específicas de cada categoria animal.

Os dados zootécnicos são fundamentais para a nutrição de precisão, pois permitem que softwares especializados formulem dietas com base em informações reais e atualizadas sobre o desempenho dos animais, composição dos alimentos e condições ambientais. Esses sistemas integram informações complexas para gerar recomendações exatas, permitindo que os produtores tomem decisões mais acertadas e simulem diferentes cenários nutricionais para prever impactos no ganho de peso, consumo e excreção de nutrientes.

As práticas tradicionais alimentavam rebanhos de maneira padronizada, sem diferenciação entre animais e sem base informacional, resultando em perdas nutricionais, maior excreção de resíduos e custos elevados. A nutrição de precisão, por sua vez, formula dietas de acordo com peso, idade, fase fisiológica e objetivo produtivo de cada animal, utilizando dados e softwares especializados para otimizar a eficiência, aumentar o ganho de peso e reduzir desperdícios de insumos.