Como a pecuária brasileira mantém os pratos cheios em períodos difíceis?

As salvaguardas europeias e chinesas impõem desafios adicionais ao mercado brasileiro, mas não de maneira irreversível. Algumas peças podem ser mexidas no tabuleiro para colocar o país em uma posição mais confortável.

Por Rafael Motta em 24 de abril, 2026

Atualizado: 15/06/2026 - 16:22

Pecuária brasileira, sob céu claro e verdejante, destacando a importância da produção de carne bovina no Brasil.
Foto: Minerva Foods

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A ideia de que fronteiras físicas delimitam os efeitos de uma crise poderia fazer sentido tempos atrás, quando a internet não existia e as relações comerciais eram mais simples. Mas em um contexto de aldeia global, como conceituou o filósofo Marshall McLuhan na década de 1960, uma decisão diplomática em Pequim ou um conflito no Oriente Médio têm o poder de alterar o preço da carne que vai no seu prato.

Nos últimos meses, uma sucessão de eventos geopolíticos e protecionistas, que vão desde as salvaguardas agrícolas, na União Europeia (UE), até conflitos armados na Eurásia (Europa e Ásia), impactam a pecuária brasileira. No entanto, mesmo dentro desse cenário de instabilidade, algumas posturas podem ser adotadas para reduzir os efeitos adversos e manter a estabilidade econômica.

O cerco se fecha: protecionismo e conflitos

Navio de transporte de containers navegando no oceano com um mapa mundial digital ao fundo
Foto: APChanel / Shutterstock

Se fosse possível resumir o cenário atual em uma única palavra, ela seria: volatilidade. Além da UE, a China também impôs salvaguarda a suas importações globais de carne bovina, situação que o governo brasileiro acompanha com atenção, segundo informações do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. A medida entrou em vigência em 1º de janeiro de 2026 e terá duração prevista de 3 anos, gerando um limite de importação brasileira de 1,1 milhão de toneladas por ano. Qualquer volume que ultrapasse essa marca será penalizado com o pagamento de uma sobretaxa de 55%.

Tendo em vista que o Brasil é o principal exportador de carne para a China, o governo brasileiro está dialogando com autoridades chinesas para tentar reverter, ainda que parcialmente, os efeitos adversos oriundos dessa determinação.

Somado a isso, o México, um mercado estratégico, implementou novas cotas para a importação de carnes bovina e suína, conforme detalhado pelo Globo Rural, limitando o volume que entra no país sem tarifas. Essa regra também foi aplicada a todos os outros países que fecham negócios com os mexicanos e que não possuem um acordo de livre comércio.

Não bastassem as barreiras comerciais, os efeitos da guerra também ecoam nos pastos. A escalada de tensões no Oriente Médio gera um clima de incerteza que afeta o fluxo logístico e o custo dos insumos. A logística ganha protagonismo não apenas pelo custo, mas principalmente pelo acesso: em cenários de restrição de rotas e gargalos operacionais, quem detém canais de distribuição ativos possui uma vantagem competitiva significativa, já que a demanda permanece, enquanto o acesso é o principal fator limitador.

Segundo o setor produtivo em entrevista ao Globo Rural, as especulações sobre a extensão do conflito já influenciam diretamente o preço do boi e podem causar danos estruturantes à cadeia produtiva.

Como o setor está se posicionando?

Uma das vozes ativas da pecuária brasileira a respeito da pauta é a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC). Em comunicado oficial, o órgão manifestou preocupação com as salvaguardas chinesas, classificando-as como barreiras que desafiam as relações comerciais construídas entre os dois países. 

A ABIEC também alerta para os impactos humanitário e comercial das guerras. A instabilidade no Oriente Médio pode comprometer rotas de exportação vitais para o Brasil, situação que, segundo o presidente da instituição, Roberto Perosa, “está fora do nosso controle”, conforme declarou em entrevista à agência Reuters reproduzida pela revista Forbes. Na mesma reportagem, o executivo estima que 30% a 40% dos embarques da proteína,  incluindo carne bovina e de frango, passam pela região antes de chegar ao Sudeste Asiático e à China, já que o Oriente Médio é o maior destino de frango do Brasil.

Paralelamente, em levantamento divulgado pelo portal Globo Rural, a associação relatou que a crise pode atingir até 40% de todo o volume exportado pelo Brasil, o que representa 1 milhão de toneladas e até US$ 6 bilhões, quando somados todos os carregamentos que apenas passam ou que têm os próprios países do Oriente Médio como destino final.

Já o presidente da Comissão Nacional de Bovinocultura de Corte da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Cyro Penna, em matéria para o Globo Rural, acredita que as “especulações” sobre os efeitos da guerra no Oriente Médio, como o fechamento do estreito de Ormuz, afetaram o mercado do boi gordo no país: “O estreito de Ormuz é crítico para energia, mas representa parcela relativamente pequena do fluxo global de contêineres, estimado entre 2% e 3%. Em relação às exportações, a China é nosso maior cliente, representando quase 50% dos embarques, e a rota para lá não tem necessidade de passar por Ormuz, região do conflito”. Segundo ele, à reportagem,o Oriente Médio representou 6,8% da receita e 6,5% do volume exportado pelo Brasil em 2025. Se considerarmos apenas países geograficamente localizados perto do estreito de Ormuz, como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, a participação cai para menos de 4%”.

Além disso, a matéria reforça a importância do mercado do Oriente Médio para o Brasil: trata-se de um dos maiores destinos da carne brasileira, reconhecida pela produção de alimentos produzidos com certificação Halal (ou seja, que segue os preceitos islâmicos). Por esse motivo, o setor busca novas rotas para exportações a fim de manter a estabilidade financeira, como declarou a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), que diz já ter mapeado pontos críticos, seguindo as estratégias adotadas em crises anteriores na região.

Resiliência é a solução

Dois homens conversando na fazenda de gado com rebanho ao fundo
Foto: Minerva Foods

Devido à volatilidade geopolítica em curso, construir uma plataforma diversificada é a chave para fugir da crise. A estratégia de operar com múltiplas origens produtivas, como a adotada pela Minerva Foods, se consolida como um diferencial competitivo para mitigar riscos. Após o esgotamento das cotas brasileiras na China, por exemplo, ter produtos originados em países como Argentina, Uruguai e Colômbia permite a continuidade do fornecimento ao mercado chinês. Já no caso do México, os produtos originados no Uruguai contam com um acordo comercial mais competitivo do que os de origem brasileira e argentina, o que amplia a capacidade de acesso e posiciona a Companhia em melhores condições frente aos concorrentes. Além de novos destinos, a comercialização de produtos de valor agregado é algo que conecta o Brasil a mercados premium, os quais estão dispostos a pagar valores diferenciados.

Embora as restrições impostas por potências apresentem desafios imediatos, elas também forçam a pecuária brasileira a atingir um novo patamar de eficiência e transparência. O cenário global é complexo e está sempre em movimento; porém, é nessa complexidade que o Brasil reafirma sua posição como o maior exportador de proteína bovina do mundo, provando que, em um planeta conectado, a segurança alimentar global passa pelos campos brasileiros. E, em um cenário de volatilidade, a capilaridade de uma plataforma de negócio global agrega ainda mais valor às empresas.

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