Estratégia climática é novo passaporte da carne brasileira no mercado global

Metas ambientais e produção precisam estar alinhadas para que o país negocie com o mundo. Leis em exercício e em tramitação prometem perpetuar essa sinergia.

Por Rafael Motta e Christiane Alves em 20 de maio, 2026

Atualizado: 20/05/2026 - 11:23

Bandeira do Brasil hasteada ao lado de bandeiras institucionais e de um monumento em pedra com estátua, em um céu azul com nuvens, em ambiente externo
Foto: Angela_Macario / Shutterstock

A estratégia climática deixou de ser um diferencial reputacional e passou a funcionar como critério de entrada no comércio internacional de carne bovina. Em um ambiente em que exigências ambientais avançam sobre contratos, regulações e preferências de consumo, comprovar origem, rastreabilidade e controle de emissões se tornou condição para acessar mercados e permanecer neles. 

Nesse novo cenário, especialistas e lideranças do setor demonstram como a gestão climática deixou de ser um custo acessório e o ESG passou a operar como um filtro. Quem não consegue demonstrar conformidade tende a perder espaço por não atender aos requisitos mínimos de entrada. A consequência é uma mudança estrutural: a carne deixa de ser tratada apenas como commodity e passa a incorporar atributos ambientais como parte do seu valor e competitividade. 

Para a diretora global de Sustentabilidade da Minerva Foods e da MyCarbon, Marta Giannichi, a mudança é estrutural. Ela destaca que cerca de 98% das emissões da cadeia de carne bovina provêm do chamado escopo 3, especificamente no metano entérico. Nesse contexto, a adoção de tecnologias de intensificação, como a recuperação e a rotação de pastagens e o uso de aditivos alimentares, passam a integrar uma estratégia de mercado ao reduzir o ciclo produtivo e as emissões por quilo de carne

Diferenciação por mercado

Bandeira da União Europeia hasteada ao vento, com fundo azul e estrelas douradas em círculo
Foto: ALBERTO BARONA / Shutterstock

A pressão internacional não é homogênea e essa diferença reorganiza a estratégia brasileira. 

Na União Europeia, o critério é regulatório. A Lei Antidesmatamento (EUDR) exige comprovação de que a produção não está associada a danos ambientais, conforme diretrizes da EUDR. Sem rastreabilidade validada, não há acesso. “A rastreabilidade se torna um fator decisivo de competitividade e acesso a mercados”, afirma Marta Giannichi. 

Já na China, o movimento segue outra lógica. O país prioriza segurança alimentar, mas avança na incorporação de critérios de qualidade e governança. Iniciativas como o pagamento de prêmios por animais abatidos mais jovens mostram como eficiência produtiva e redução de emissões começam a convergir com incentivos econômicos. O país iniciou neste ano uma política de cotas priorizando parceiros que demonstrem estabilidade e compromissos com a “Pecuária de Baixo Carbono”, conforme reportagem publicada no China Daily.

João Paulo Franco Silveira, coordenador de Produção Animal da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), aborda o papel do incentivo econômico nesse processo. Ele cita a remuneração diferenciada para o abate de animais antes dos 36 meses como exemplo de como ganhos produtivos e metas climáticas passam a caminhar juntos. Na prática, a medida acelera o giro do rebanho e reduz as emissões por tempo de vida do animal. “Cerca de 70% dos pecuaristas têm propriedades de até 50 hectares. Para que esses produtores integrem essa dinâmica, é fundamental garantir assistência técnica e crédito acessível”, afirma.

Esse cenário cria uma dupla exigência: atender a barreiras formais, como no caso europeu, e, ao mesmo tempo, capturar valor em mercados que começam a incorporar critérios ambientais como diferencial competitivo. 

Incentivos ao produtor e a capacidade de resposta

Especialistas sinalizam que responder a esse novo padrão depende menos de soluções isoladas e mais da coordenação entre os elos da cadeia. 

No campo, a adoção de práticas sustentáveis ainda esbarra em limitações estruturais. Na indústria, a rastreabilidade se consolida como eixo de conexão entre produção e mercado, funcionando ao mesmo tempo como ferramenta ambiental e sanitária. “A rastreabilidade individual também é um instrumento de defesa sanitária”, afirma João Paulo, ao destacar seu papel na consolidação da confiança internacional.

Além das exigências regulatórias, o avanço dessas práticas também é impulsionado por incentivos econômicos. Em diferentes mercados, produtores que conseguem reduzir o ciclo produtivo, recuperar áreas degradadas ou comprovar menor intensidade de emissões passam a acessar linhas de crédito específicas, programas de apoio técnico e remunerações diferenciadas. 

No nível institucional, políticas públicas passam a estruturar essa transição. Para Guilherme Bastos, coordenador do Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas (FGV), instrumentos como o Plano ABC+ e o Renovagro são centrais para viabilizar a recuperação de pastagens sem expansão de área.

O Renovagro oferece condições de financiamento para tecnologias de baixa emissão de carbono, incluindo recuperação de pastagens degradadas, ILPF, florestas plantadas e manejo sustentável. Já o Plano ABC+ funciona como a principal estratégia nacional para ampliar a agricultura de baixa emissão até 2030. Além disso, o Projeto de Lei 4417/2023 propõe um programa de incentivo com foco nos pequenos pecuaristas, com assistência técnica acessível e linhas de crédito específicas para quem quer adotar práticas sustentáveis, com juros mais baixos. O objetivo é evitar que as novas exigências globais causem a exclusão social no campo, permitindo que produtores de base tenham suporte financeiro para adequar suas atividades e aumentar a competitividade.

Na iniciativa privada, programas como o Renove, da Minerva Foods, também atuam nesse sentido ao apoiar produtores na adoção de práticas sustentáveis, com assistência técnica e incentivo à melhoria da produtividade e da gestão ambiental das propriedades.

Contudo, existem gargalos que devem ser superados. “A ausência de dados oficiais estruturados impede o Brasil de demonstrar que já atende às metas de produção sustentável”, alerta Bastos. “A falta de transparência e os entraves na regularização fundiária ainda dificultam o monitoramento pleno e o acesso a créditos climáticos”.

Base regulatória e dados 

Rebanho de bovinos em um pasto verde, cercas ao fundo e céu de fim de tarde
Foto: ADVTP / Shutterstock

Em resposta às demandas de produtores e especialistas, o governo brasileiro tem trabalhado em iniciativas que estruturam dados, facilitam o crédito e avançam na regularização fundiária, em busca de viabilizar essa transformação em escala. 

O Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos (PNIB) prevê a identificação individual obrigatória de todo o rebanho até 2032, criando a base para rastreabilidade em escala. O processo será feito de maneira gradual para que pequenos e médios produtores não sejam diretamente afetados. Ainda que o foco inicial seja sanitário, a medida busca servir como base tecnológica para a transparência socioambiental exigida pela EUDR, permitindo monitorar a trajetória de cada animal desde o nascimento até o abate.

A questão da regularização fundiária, levantada pelo coordenador de Produção Animal da CNA, entrou em discussão através do Projeto de Lei 2633/2020, que aborda a ampliação do alcance da regularização. O PL tem como objetivo desburocratizar a titularização de terras para transformar o chamado “capital morto” (propriedades sem título legal de propriedade) em garantias para o acesso a crédito rural e para a conformidade ambiental definitiva das propriedades. 

De exigência externa à estratégia de mercado

Mais do que uma agenda de adaptação, a estratégia climática passa a definir o posicionamento da carne brasileira no comércio global. Ao integrar produção, indústria e política pública, o país não apenas responde às exigências internacionais, mas passa a disputar mercado a partir delas.

No cenário atual, além de produzir mais é importante comprovar como se produz. É esse critério que define quem entra  no mercado internacional, quem permanece e em quais condições.

Fontes de referência:


Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.