Dia Mundial da Alimentação: fome diminui, mas o desafio de alimentar bem o mundo, não

Cerca de 645 milhões de pessoas ainda enfrentam a fome e 2,7 bilhões não conseguem pagar por uma dieta saudável. No Dia Mundial da Alimentação, os números mostram por que produção, acesso, nutrição, sustentabilidade e inovação precisam ser tratados como partes da mesma equação.

Por Rafael Motta em 13 de outubro, 2026

Atualizado: 13/10/2026 - 10:07

dia mundial da alimentação: prato com arroz branco, bife, salada de folhas verdes e tomate, batatas temperadas e acompanhamentos em mesa de madeira
Foto: 2amrlo / Shutterstock / Modificada com IA

O Dia Mundial da Alimentação, celebrado no dia 16 de outubro, chega a 2026 em meio a um avanço importante, mas ainda insuficiente: a fome global caiu pelo terceiro ano consecutivo, porém cerca de 645 milhões de pessoas ainda enfrentaram privação de alimentos em 2025. Ao mesmo tempo, aproximadamente 2,7 bilhões não tinham condições financeiras de manter uma dieta saudável, segundo o The State of Food Security and Nutrition in the World 2026 (SOFI), relatório elaborado pela Organização das Nações Unidas (ONU) para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e outras agências internacionais.

Os dois números expõem dimensões diferentes do problema. Garantir segurança alimentar envolve ter alimentos disponíveis em quantidade suficiente, mas também assegurar que as pessoas consigam ter acesso a produtos seguros, variados e nutritivos. Soma-se a isso a necessidade de manter a produção diante de eventos climáticos extremos e de reduzir a pressão exercida sobre recursos naturais.

É nesse cenário que a FAO escolheu “Inovar hoje para nutrir o amanhã” como tema da data em 2026. O objetivo é destacar a importância do uso combinado de ciência, tecnologia, inovação, conhecimento tradicional e abordagens inclusivas para construir sistemas agroalimentares mais eficientes, resilientes e sustentáveis e ampliar o acesso a alimentos seguros e nutritivos.

Para o Brasil, um dos grandes produtores mundiais de alimentos, essa discussão passa diretamente pela agropecuária. E a dimensão da pecuária bovina ajuda a entender o tamanho dessa participação. Em 2025, foram abatidos 42,94 milhões de bovinos sob algum tipo de inspeção sanitária, 8,2% mais que no ano anterior e o maior número da série histórica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Essa escala coloca a pecuária brasileira em uma posição relevante na oferta de alimentos e faz com que ganhos de produtividade e eficiência possam alcançar proporções significativas. Ao mesmo tempo, aumenta a necessidade de conciliar produção, uso dos recursos naturais, controle das emissões e atendimento às exigências sanitárias e ambientais.

Segurança alimentar é pauta no debate legislativo: agro como prioridade

A importância atribuída à produção agropecuária também aparece no debate sobre políticas públicas. Em tramitação na Câmara dos Deputados, o Projeto de Lei 2.367/2023 propõe alterar a Lei da Política Agrícola para estabelecer a produção agropecuária nacional como prioridade de Estado. Em agosto de 2025, o projeto foi aprovado pela Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural. Durante a tramitação, o texto recebeu uma emenda que incorporou temas diretamente relacionados ao debate atual sobre produção de alimentos, entre eles segurança alimentar, manejo sustentável dos recursos naturais, compromissos climáticos, promoção de práticas agropecuárias sustentáveis e ampliação do acesso à terra, crédito, mercado e infraestrutura. A proposta seguiu para a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) e ainda precisa cumprir as demais etapas legislativas para se transformar em lei, mas sua discussão evidencia a relação cada vez mais direta entre capacidade de produção, segurança alimentar, desenvolvimento econômico e sustentabilidade.

Esse conjunto de objetivos mostra que ampliar a capacidade de produção já não pode ser tratado de forma separada de questões ambientais e climáticas. Na pecuária, essa combinação passa diretamente pela inovação: produzir com mais eficiência, aproveitar melhor as áreas já utilizadas e reduzir impactos por unidade de alimento produzido.

Produzir mais com menos – a lógica da eficiência

Na pecuária, uma das formas de traduzir inovação é pela eficiência. Parte das pesquisas desenvolvidas no país busca aumentar a quantidade de alimento produzida a partir dos recursos já utilizados. Genética, alimentação, sanidade e manejo das pastagens estão entre as frentes capazes de interferir no ganho de peso, na eficiência alimentar e no tempo necessário para o animal atingir as condições adequadas para o abate.

Sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) avançam nessa direção ao combinar diferentes atividades em uma mesma área e aproveitar os benefícios de uma produção sobre a outra.

Os efeitos também podem aparecer no desempenho ambiental. Em um estudo de longa duração no Cerrado, a Embrapa observou que a integração entre lavoura e pecuária pode reduzir a necessidade de fertilizantes e as emissões de óxido nitroso. Em determinadas condições analisadas, o histórico de pastejo e a redução das doses de fósforo e potássio contribuíram para uma queda de 59% nas emissões acumuladas do gás. O impacto é ainda mais relevante devido ao fato de que o óxido nitroso, emitido principalmente por processos microbianos no solo e associado, na agropecuária, ao uso de fertilizantes nitrogenados e ao manejo de dejetos animais, tem um efeito intenso sobre o aquecimento do planeta.

Outra pesquisa, realizada na Amazônia, encontrou balanço de carbono favorável em modelos utilizados para recuperar áreas de pastagem degradada. Sistemas de ILPF apresentaram capacidade de armazenar carbono e, ao mesmo tempo, elevar a produtividade. 

A eficiência também passa pelo próprio animal. Pastagens de melhor qualidade e alimentação adequada favorecem o ganho de peso e podem reduzir o tempo até o abate, diminuindo a emissão de metano por quilo de carne produzido. Na Embrapa Pecuária Sul, a Prova de Emissão de Gases (PEG) identifica bovinos com menores emissões de metano e avalia características relacionadas à eficiência alimentar, com a perspectiva de incorporar essas informações aos programas de melhoramento genético.

São diferentes caminhos para uma mesma direção: combinar produtividade e eficiência, aproveitando melhor a área e os recursos disponíveis e reduzindo o impacto ambiental por unidade produzida.

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Tecnologia também ajuda a saber de onde vem a carne

dia mundial da alimentação: agricultor em campo com pasto ao fundo, usando tablet enquanto analisa dados e gráficos digitais de produção e localização
Imagem gerada digitalmente

Outra frente de inovação acontece depois — e ao redor — da produção propriamente dita. Sistemas digitais, bancos de dados, identificação individual dos animais, imagens de satélite e outras ferramentas ampliaram a capacidade de acompanhar a origem e o percurso dos produtos ao longo da cadeia.

Na pecuária bovina, a rastreabilidade permite reunir informações sobre os animais e as propriedades pelas quais passaram e pode ajudar no controle sanitário, na transparência da cadeia e na verificação do atendimento a critérios ambientais.

Um estudo divulgado pela Embrapa em 2026 sobre os sistemas de rastreabilidade da cadeia brasileira de carne bovina destaca justamente esse papel. Os pesquisadores analisam a rastreabilidade não apenas como instrumento de controle, mas como uma infraestrutura capaz de conectar frigoríficos, protocolos de sustentabilidade e mercados compradores. O trabalho também discute caminhos para ampliar a participação de pequenos e médios produtores nesses sistemas.

A evolução dessas ferramentas acompanha mudanças no próprio mercado. Informações sobre procedência, condições de produção, atendimento a normas sanitárias e critérios socioambientais ganharam espaço nas relações entre produtores, frigoríficos, varejo e países importadores.

A tecnologia existe. O desafio é fazê-la chegar mais longe

A quantidade de pesquisas e soluções disponíveis mostra que boa parte da transformação necessária à pecuária já começou. Mas desenvolver uma tecnologia não significa que ela será automaticamente adotada.

Implementar genética melhorada, recuperar pastagens, mudar o manejo, incorporar sistemas integrados ou implantar mecanismos de rastreabilidade exige investimento, conhecimento, assistência técnica e, em muitos casos, acesso a crédito e infraestrutura.

Essa distância entre o desenvolvimento da inovação e sua disseminação também aparece na própria mensagem da FAO para 2026. Ao defender sistemas alimentares mais eficientes, inclusivos, resilientes e sustentáveis, a organização chama atenção para a necessidade de ampliar o acesso às inovações, combinando novas tecnologias com conhecimento tradicional e soluções adequadas às diferentes realidades produtivas. Esse é um dos eixos do Fórum de Ciência e Inovação da FAO de 2026.

Para o Brasil, essa discussão ganha peso pela própria dimensão de sua produção. Um setor que abateu quase 43 milhões de bovinos em um único ano pode ampliar sua contribuição para a oferta de alimentos à medida que consegue produzir com mais eficiência, reduzir perdas e emissões, conservar recursos e demonstrar com maior precisão a origem e as condições de produção.

O tema do Dia Mundial da Alimentação de 2026 aponta justamente para esse movimento. Se milhões de pessoas ainda passam fome e bilhões não conseguem pagar por uma alimentação saudável, inovação não pode ser medida apenas pela sofisticação de uma nova tecnologia. Seu resultado aparece quando ciência e conhecimento conseguem transformar a forma de produzir alimentos e quando essas soluções chegam, de fato, a quem produz.

Dúvidas mais comuns

O tema escolhido pela FAO para 2026 é "Inovar hoje para nutrir o amanhã". Essa escolha reflete a necessidade de combinar ciência, tecnologia, inovação, conhecimento tradicional e abordagens inclusivas para construir sistemas agroalimentares mais eficientes, resilientes e sustentáveis, ampliando o acesso a alimentos seguros e nutritivos em um contexto onde ainda existem 645 milhões de pessoas enfrentando privação de alimentos.

Segundo o relatório The State of Food Security and Nutrition in the World 2026 (SOFI), a fome global caiu pelo terceiro ano consecutivo, representando um avanço importante. Porém, cerca de 645 milhões de pessoas ainda enfrentaram privação de alimentos em 2025, e aproximadamente 2,7 bilhões não tinham condições financeiras de manter uma dieta saudável, evidenciando que o desafio de alimentar bem o mundo permanece significativo.

A segurança alimentar envolve quatro dimensões principais: disponibilidade de alimentos em quantidade suficiente, acesso físico e econômico aos alimentos, qualidade e segurança dos produtos oferecidos, e estabilidade dessas condições ao longo do tempo. Garantir segurança alimentar significa assegurar que as pessoas consigam ter acesso a produtos seguros, variados e nutritivos, mantendo a produção diante de eventos climáticos extremos e reduzindo a pressão sobre recursos naturais.

A inovação na pecuária busca produzir mais com menos recursos através de melhorias em genética, alimentação, sanidade e manejo de pastagens. Sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) combinam diferentes atividades em uma mesma área, reduzindo a necessidade de fertilizantes e emissões de gases. Pastagens de melhor qualidade e alimentação adequada favorecem o ganho de peso e reduzem o tempo até o abate, diminuindo a emissão de metano por quilo de carne produzido.

A rastreabilidade permite reunir informações sobre os animais e as propriedades pelas quais passaram, funcionando como uma infraestrutura capaz de conectar frigoríficos, protocolos de sustentabilidade e mercados compradores. Ela auxilia no controle sanitário, na transparência da cadeia e na verificação do atendimento a critérios ambientais, além de facilitar a participação de pequenos e médios produtores nos sistemas de certificação e acesso a mercados internacionais.

O Brasil é um dos grandes produtores mundiais de alimentos, com destaque para a pecuária bovina. Em 2025, foram abatidos 42,94 milhões de bovinos sob inspeção sanitária, o maior número da série histórica do IBGE. Essa escala coloca a pecuária brasileira em posição relevante na oferta de alimentos, e ganhos de produtividade e eficiência podem alcançar proporções significativas, contribuindo para alimentar bilhões de pessoas no mundo.

Embora existam muitas pesquisas e soluções tecnológicas disponíveis, implementar inovações como genética melhorada, recuperação de pastagens, sistemas integrados ou rastreabilidade exige investimento, conhecimento, assistência técnica, acesso a crédito e infraestrutura. A FAO destaca a necessidade de ampliar o acesso às inovações, combinando novas tecnologias com conhecimento tradicional e soluções adequadas às diferentes realidades produtivas, especialmente para pequenos e médios produtores.

Estudos da Embrapa demonstram que a integração entre lavoura e pecuária pode reduzir significativamente as emissões de óxido nitroso, em alguns casos em até 59%. O histórico de pastejo e a redução das doses de fósforo e potássio contribuem para essa queda. Além disso, pesquisas na Amazônia encontraram balanço de carbono favorável em modelos de ILPF utilizados para recuperar áreas de pastagem degradada, que apresentam capacidade de armazenar carbono enquanto elevam a produtividade.