Futuro da carne bovina: saúde e pecuária regenerativa

Esporte e Performance

O futuro da carne bovina já está aqui: ele alia saúde e sustentabilidade ambiental

Em artigo, Lívia Padilha discute a percepção dos consumidores e estudos sobre como os sistemas de criação podem influenciar o perfil nutricional da carne.

Uma mulher de cabelos castanhos, usando fones de ouvido e uma camisa branca, sorri enquanto fala ao microfone e levanta a mão. A palavra APEX aparece parcialmente ao fundo.

Por Lívia Padilha em 5 de novembro, 2026

Futuro da carne bovina em imagem com um bovino em destaque, amostras em laboratório com luvas e frascos, e elementos como carne crua e milho ao redor.
Ilustração gerada digitalmente

As preocupações com o impacto dos padrões globais de produção e consumo de carne levaram a um crescente interesse em fontes “alternativas” de proteína. Dentre elas, podemos destacar os produtos feitos com matéria prima  vegetal, como por exemplo os produzidos com  proteína de soja ou ervilha. E também uma outra inovação conhecida como “carne de laboratório” ou “carne cultivada”, fabricada a partir de células animais, mas sem envolver a criação nem o abate de animais.

Muitos investiram, significativamente, nestas opções há alguns anos, mas os investimentos em alguns projetos têm se mostrado, todavia, cada vez menos promissores no âmbito das proteínas vegetais, com várias empresas perdendo significativo valor no mercado ou até mesmo falindo (1). Já em relação às “carnes cultivadas”, a aposta ainda continua em jogo, porém com avanços muito modestos se comparados com as previsões de dez anos atrás.

Há, aproximadamente dez anos, iniciei uma pesquisa de doutorado na Universidade de Adelaide, na Austrália, e comparei vários tipos de carne com essas duas alternativas proteicas: as baseadas em plantas, que já estavam no mercado e a promissora nova entrante, feita em laboratório. Nosso objetivo era entender quais as percepções dos consumidores em relação a estes alimentos e, como eles os avaliariam comparativamente quando colocados lado a lado com os tradicionais (ex. carne bovina).

Nesta pesquisa nós medimos e comparamos as crenças de 1.078 consumidores australianos em relação à carne bovina (convencional), alternativas à base de plantas (por vezes chamadas de “carne vegetal” ao longo deste artigo) e produtos de carne cultivada em laboratório no que diz respeito a seis atributos: preço acessível, saúde, segurança, prazer ao comer, bem-estar animal e respeito ao meio ambiente.

E o que encontramos? Em todos os atributos, as crenças relacionadas às alternativas de carne à base de plantas foram mais positivas do que as relacionadas à carne cultivada em laboratório e, no que diz respeito à sustentabilidade ambiental, os produtos à base de plantas foram vistos de forma mais positiva em comparação com todos os outros produtos.

Os resultados da pesquisa referente aos seis atributos são apresentados na figura 1:

Gráfico de percepções com barras comparando carne bovina convencional, carne vegetal e carne bovina cultivada em categorias como acessível, saudável, segura, prazeroso de comer e amigável aos animais; representação sobre o Futuro da carne bovina.
Imagem gerada digitalmente

Para nossa surpresa, quando comparados à carne bovina, alguns atributos da “carne” vegetal foram melhor avaliados ou não tiveram diferença estatística significativa, ou seja, a média das pessoas não as via como tão diferentes assim. Isso ocorreu em relação à saudabilidade: carne bovina (0,6) versus carne vegetal (0,5).

Muito embora o resultado de saudabilidade tenha pouca diferença numérica, ele apresenta uma oportunidade à cadeia da carne bovina. Existe uma chance de comunicar e esclarecer todos os benefícios para a saúde do seu produto, principalmente quando comparado a uma opção vegetal que não dispõe dos mesmos macro e micronutrientes e pode ser classificada como um produto ultraprocessado. Diversos estudos e o recente guia alimentar americano reconhecem o papel fundamental dos produtos de origem animal para a saúde humana, para a segurança alimentar e colocam a carne bovina em lugar de destaque (3-5).

Já quanto à sustentabilidade ambiental, ou o quanto “amigável ao meio ambiente” a opção seria, os resultados foram bem díspares, com uma média negativa para a carne bovina (-0,1) e positiva para a carne vegetal (0,5). Em um primeiro momento, podemos pensar que essa visão negativa se dá por um fator regional e pela pesquisa ter sido realizada na Austrália, porém (com base na minha experiência observando o debate público a esse respeito, especialmente se avaliada a população urbana), acredito que mesmo aqui no Brasil o resultado teria sido semelhante. As críticas e escrutínio que a pecuária de corte sempre carrega é global, e o esforço para que essa atividade seja vista como uma potencial aliada ao meio ambiente também precisará ser. Embora o Brasil já possua boas práticas e diversos exemplos de ferramentas sustentáveis ​​em uso, ainda temos um grande potencial de melhora. Assim como mencionei em um artigo anterior na My Minerva Foods, Uma ponte entre o campo e a cidade, a produção mais regenerativa pode ser uma grande aliada nesta melhoria de percepção.

Os pesquisadores já entenderam que podemos ter diferenças significativas nos resultados ambientais e nutricionais da pecuária dependendo da região e da forma que o animal é criado. Um estudo recente nos Estados Unidos decidiu comparar o perfil nutricional de amostras de carne bovina em relação ao sistema de criação dos animais ((a) regenerativo (b) regional (c) convencional) (6). E adivinha o que encontraram?

A carne bovina da fazenda regenerativa apresentou resultados muito positivos para a nossa saúde! Foram três vezes mais ácidos graxos ômega-3 e mais de seis vezes mais do ômega-3 essencial, o famoso ácido alfa-linolênico (ALA), do que a carne bovina convencional. Ela também apresentou mais da metade a quase três quartos a mais do trio de ômega-3 de cadeia longa (EPA, DPA e DHA), bem como dois terços dos ácidos graxos ômega-6, resultando em uma proporção ômega-6 para ômega-3 cinco vezes menor do que a da carne bovina convencional (1,3:1 vs. 6,2:1), o que tende a ser visto pelos especialistas como algo muito positivo.

O DHA e o EPA são nutrientes importantes para a saúde e o bem-estar. Eles ajudam a manter o cérebro saudável, contribuem para o bom funcionamento do organismo e estão associados a benefícios para a saúde cardiovascular e ao equilíbrio dos processos inflamatórios do corpo (7- 8).

Os resultados da pesquisa referente a todas as comparações realizadas são apresentados na tabela 1:

Futuro da carne bovina: Tabela de comparação de ácidos graxos da carne, com valores por ácido graxo e colunas de comparação como regenerativa, regional e convencional, destacando totais ômega-3 e ômega-6.
Imagem gerada digitalmente

Por tudo isso, quando me perguntam qual será o futuro da carne, talvez até mesmo intuindo que eu mencionaria a carne de laboratório, eu respondo: o futuro é regenerativo e, por consequência, mais saudável para todos nós.

Meu trabalho envolve promover esse tipo de conhecimento a mais pessoas e assim, quem sabe, ajudá-las a reconhecer a carne bovina como uma escolha muito saudável e sustentável. Essa mudança de percepção é essencial para a prosperidade dos produtores rurais e para a continuidade deste setor da pecuária como um todo.

Se tu gostaste de ler esse texto e ficou curioso sobre o tema, te convido a acompanhar a minha pesquisa “Produção pecuária regenerativa: práticas e vozes” no programa global da Nuffield que conta com o apoio da Minerva Foods.

Dúvidas mais comuns

A pecuária regenerativa é um sistema de produção que busca não apenas minimizar impactos ambientais, mas regenerar e melhorar os ecossistemas. Diferentemente da pecuária convencional, ela implementa práticas sustentáveis que resultam em benefícios ambientais mensuráveis, incluindo melhorias na saúde do solo, biodiversidade e sequestro de carbono. Estudos mostram que a carne bovina de fazendas regenerativas apresenta perfil nutricional significativamente superior ao da carne convencional.

A carne bovina de fazendas regenerativas apresenta resultados nutricionais impressionantes: três vezes mais ácidos graxos ômega-3 e mais de seis vezes mais ácido alfa-linolênico (ALA) do que a carne convencional. Também contém de 50% a 75% mais ômega-3 de cadeia longa (EPA, DPA e DHA) e uma proporção ômega-6 para ômega-3 cinco vezes menor (1,3:1 versus 6,2:1). Esses nutrientes são essenciais para a saúde cardiovascular, função cerebral e equilíbrio dos processos inflamatórios do corpo.

Embora as alternativas vegetais sejam frequentemente percebidas como mais saudáveis, a carne bovina oferece macro e micronutrientes que produtos à base de plantas não possuem. Muitos produtos vegetais são ultraprocessados e carecem dos nutrientes essenciais presentes na carne bovina. Estudos recentes e guias alimentares reconhecem o papel fundamental dos produtos de origem animal para a saúde humana e segurança alimentar, colocando a carne bovina em lugar de destaque.

A pecuária de corte enfrenta críticas globais relacionadas ao seu impacto ambiental, uma percepção que é especialmente forte em populações urbanas. Essa visão negativa é resultado de décadas de escrutínio sobre as práticas convencionais de produção. No entanto, essa percepção não reflete a realidade completa, pois o Brasil já possui boas práticas e ferramentas sustentáveis em uso, com grande potencial de melhora através de sistemas regenerativos.

Uma pesquisa com 1.078 consumidores australianos comparou carne bovina convencional, alternativas à base de plantas e carne cultivada em laboratório em seis atributos: preço, saúde, segurança, prazer ao comer, bem-estar animal e respeito ambiental. Os resultados mostraram que as alternativas vegetais foram percebidas como mais positivas em sustentabilidade ambiental, enquanto a carne bovina apresentou avaliações semelhantes em saudabilidade. A carne cultivada em laboratório teve as avaliações menos positivas em todos os atributos.

A carne cultivada em laboratório, apesar das promessas iniciais há dez anos, apresenta avanços muito modestos em comparação com as previsões. Pesquisas mostram que os consumidores a avaliam menos positivamente do que tanto a carne bovina quanto as alternativas vegetais em praticamente todos os atributos estudados, incluindo preço, saúde, segurança e sustentabilidade ambiental.

O futuro da carne bovina está na pecuária regenerativa, que alia saúde e sustentabilidade ambiental. Essa abordagem oferece a oportunidade de comunicar e esclarecer os benefícios para a saúde do produto, especialmente quando comparado a alternativas vegetais ultraprocessadas. A mudança de percepção em relação à carne bovina como uma escolha saudável e sustentável é essencial para a prosperidade dos produtores rurais e continuidade do setor.

Os ácidos graxos ômega-3 (DHA e EPA) são nutrientes importantes que ajudam a manter o cérebro saudável, contribuem para o bom funcionamento do organismo e estão associados a benefícios para a saúde cardiovascular. A proporção adequada entre ômega-6 e ômega-3 é fundamental para o equilíbrio dos processos inflamatórios do corpo, sendo que a carne regenerativa oferece uma proporção muito mais favorável do que a carne convencional.
Uma mulher de cabelos castanhos, usando fones de ouvido e uma camisa branca, sorri enquanto fala ao microfone e levanta a mão. A palavra APEX aparece parcialmente ao fundo. Lívia Padilha

Doutora em economia comportamental pela Universidade de Adelaide (Austrália), palestrante, professora e consultora em comunicação. Atua há mais de 10 anos nas áreas de comportamento do consumidor, sustentabilidade e saúde com ênfase no estudo de produtos de origem animal. Hoje é host dos podcasts “Em defesa da carne” e “Os Agronautas”, que desmistificam temas do agronegócio, além de Scholar da Nuffield Brasil 2026.