Agrobiodiversidade: nove culturas concentram mais de 60% da produção agrícola mundial 

Preservar espécies, variedades e recursos genéticos amplia as alternativas da produção de alimentos diante de mudanças ambientais.

Por Paula Maria Prado em 18 de setembro, 2026

Atualizado: 18/09/2026 - 10:28

Agrobiodiversidade: Lavoura verde em fileiras com vista ampla para colinas e vales ao fundo sob céu azul com nuvens, cenário rural de agricultura no campo.
Foto: Fagner Martins / Shutterstock

Mais de 60% da produção agrícola mundial está concentrada em apenas nove culturas. A lista inclui cana-de-açúcar, milho, arroz, trigo, batata, soja, dendê, beterraba-açucareira e mandioca, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). A concentração ajuda a explicar por que a agrobiodiversidade ganhou espaço no debate sobre o futuro da produção de alimentos. 

O conceito envolve a diversidade de plantas, animais, microrganismos e recursos genéticos associados à agricultura. Em um cenário de mudanças climáticas e novas pressões sobre os sistemas produtivos, manter essa variedade amplia as alternativas de adaptação da produção. 

E essa diversidade não se resume à quantidade de espécies cultivadas ou criadas. Ela também está nas diferenças encontradas dentro de uma mesma espécie. Variedades de milho, feijão ou mandioca, por exemplo, podem apresentar características distintas de produtividade, ciclo de desenvolvimento, composição nutricional ou adaptação às condições ambientais. 

Parte da diversidade encontrada hoje no campo também carrega a marca da ação humana. Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a agrobiodiversidade resulta de milhares de anos de interação entre seres humanos e natureza, à medida que diferentes populações cultivaram, criaram e selecionaram plantas e animais.

O mesmo vale para a produção animal, com diferentes raças e características genéticas. Há, ainda, uma diversidade menos visível, mas essencial ao funcionamento dos sistemas produtivos: organismos do solo, polinizadores e espécies envolvidas na ciclagem de nutrientes e no controle natural de pragas. 

Essa diversidade também está exposta ao avanço das mudanças climáticas, segundo projeções do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) resumidas na imagem a seguir.

Por que essa variedade importa?

A importância desse repertório aparece quando as condições de produção mudam. Uma variedade adaptada a determinado regime de chuvas, temperatura ou tipo de solo pode não apresentar o mesmo desempenho em outro ambiente. Da mesma forma, uma característica genética pouco relevante hoje pode se tornar valiosa diante de uma seca, de temperaturas extremas ou do surgimento de novas pragas e doenças.

Manter uma base genética diversificada significa, portanto, preservar alternativas e reduzir riscos. A preocupação é que parte desse patrimônio vem diminuindo, sobretudo devido à substituição de variedades locais por modernas, como aponta a FAO. O terceiro relatório da entidade sobre os recursos genéticos vegetais para alimentação e agricultura, publicado em 2025 a partir de informações de 128 países e 17 centros internacionais e regionais de pesquisa, apontou que 42% da diversidade de variedades de plantas analisadas já não estava presente em pelo menos uma das áreas onde havia sido registrada entre dez e 15 anos antes.

Ao mesmo tempo, parte dessa diversidade é mantida fora de seu ambiente de origem. Até dezembro de 2022, mais de 5,9 milhões de acessos de recursos genéticos vegetais estavam conservados em bancos de germoplasma (onde se armazena o material genético de uma espécie, que pode ser transmitido entre gerações) de 116 países e 17 centros internacionais e regionais, segundo a FAO.

Essas coleções preservam sementes e outros materiais genéticos que podem ser utilizados em pesquisas e programas de melhoramento. Assim, uma característica que hoje não desperta interesse, por exemplo, pode ganhar importância diante de uma nova condição ambiental ou de um desafio produtivo.

A conservação, no entanto, também acontece no próprio campo. Quando variedades e raças continuam sendo cultivadas e criadas pelos produtores, elas seguem integradas aos sistemas de produção e às condições ambientais de cada região.

Agrobiodiversidade: Rebanho de bois pastando em um campo verde ao lado de uma fileira de árvores, com paisagem rural ao fundo, mostrando natureza e criação de gado na fazenda
Foto: Minerva Foods

A relação entre diversidade e produção ganha uma dimensão particular no Brasil. Em um país de proporções continentais, condições de solo, temperatura, regime de chuvas, disponibilidade de água e vegetação variam significativamente de uma região para outra.

Isso porque, uma mesma solução produtiva não necessariamente responde da mesma maneira em todos os ambientes. É justamente na combinação entre recursos genéticos, características locais e formas de manejo que a agrobiodiversidade pode ampliar o repertório disponível para a produção. Não significa, porém, simplesmente aumentar o número de espécies ou variedades em uma propriedade. O ponto está em reconhecer quais recursos são adequados às condições de cada território e como podem contribuir para o funcionamento e a capacidade de adaptação do sistema produtivo.

Essa lógica aproxima a agrobiodiversidade de outra discussão presente na agenda da produção sustentável: a agroecologia. Enquanto a agrobiodiversidade diz respeito à diversidade biológica associada à agricultura e à alimentação, a agroecologia utiliza princípios ecológicos na compreensão e no desenvolvimento dos sistemas agrícolas.

Na prática, elas se encontram quando essa diversidade passa a fazer parte das estratégias de produção. Diferentes espécies e variedades, organismos do solo, polinizadores e inimigos naturais de pragas podem desempenhar funções distintas dentro do sistema, da ciclagem de nutrientes à polinização e à regulação de pragas.

Diversidade como recurso para o futuro

A concentração da produção mundial em poucas culturas não diminui a importância delas. Arroz, milho, trigo, soja e outras commodities seguem fundamentais para o abastecimento global. A discussão sobre agrobiodiversidade acrescenta outra questão: quais alternativas estarão disponíveis se as condições de produção mudarem?

É aí que conservação e produção voltam a se encontrar. Manter espécies, variedades, raças e recursos genéticos significa preservar características que podem ser úteis diante de novos desafios ambientais e produtivos.

Mais do que ampliar o que se produz hoje, portanto, a agrobiodiversidade ajuda a manter aberto o leque de possibilidades para o que será possível produzir amanhã.

Dúvidas mais comuns

Agrobiodiversidade é a diversidade de plantas, animais, microrganismos e recursos genéticos associados à agricultura e alimentação. Ela não se resume apenas à quantidade de espécies cultivadas, mas também às diferenças genéticas dentro de uma mesma espécie, como variedades de milho, feijão ou mandioca com características distintas de produtividade, ciclo de desenvolvimento, composição nutricional e adaptação ambiental. Essa diversidade resulta de milhares de anos de interação entre seres humanos e natureza, além de incluir organismos do solo, polinizadores e espécies envolvidas na ciclagem de nutrientes.

A diversidade genética é crucial porque permite que a produção agrícola se adapte a mudanças nas condições de produção. Uma variedade adaptada a determinado regime de chuvas, temperatura ou tipo de solo pode não apresentar o mesmo desempenho em outro ambiente, e características genéticas pouco relevantes hoje podem se tornar valiosas diante de secas, temperaturas extremas ou novas pragas e doenças. Manter uma base genética diversificada significa preservar alternativas e reduzir riscos frente aos desafios ambientais e produtivos do futuro.

Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), as nove culturas que concentram mais de 60% da produção agrícola mundial são: cana-de-açúcar, milho, arroz, trigo, batata, soja, dendê, beterraba-açucareira e mandioca. Essa concentração em poucas culturas evidencia a importância de manter a agrobiodiversidade como alternativa para enfrentar novos desafios na produção de alimentos.

A agrobiodiversidade e a agroecologia se complementam na produção sustentável. Enquanto a agrobiodiversidade diz respeito à diversidade biológica associada à agricultura, a agroecologia utiliza princípios ecológicos no desenvolvimento dos sistemas agrícolas. Na prática, elas se encontram quando a diversidade passa a fazer parte das estratégias de produção, permitindo que diferentes espécies, variedades, organismos do solo, polinizadores e inimigos naturais de pragas desempenhem funções distintas no sistema, desde a ciclagem de nutrientes até a polinização e regulação de pragas.

A conservação da agrobiodiversidade ocorre de duas formas principais. A primeira é através de bancos de germoplasma, onde se armazena material genético de espécies que pode ser transmitido entre gerações. Até dezembro de 2022, mais de 5,9 milhões de acessos de recursos genéticos vegetais estavam conservados em bancos de 116 países e 17 centros internacionais. A segunda forma é a conservação no próprio campo, quando variedades e raças continuam sendo cultivadas pelos produtores, permanecendo integradas aos sistemas de produção e às condições ambientais de cada região.

No Brasil, a agrobiodiversidade é especialmente relevante devido às proporções continentais do país, onde condições de solo, temperatura, regime de chuvas, disponibilidade de água e vegetação variam significativamente de uma região para outra. Uma mesma solução produtiva não necessariamente funciona da mesma forma em todos os ambientes. A combinação entre recursos genéticos, características locais e formas de manejo permite que a agrobiodiversidade amplie o repertório disponível para a produção, reconhecendo quais recursos são adequados às condições de cada território.

A concentração de mais de 60% da produção agrícola mundial em apenas nove culturas representa um risco significativo para a segurança alimentar global. Segundo relatório da FAO de 2025, 42% da diversidade de variedades de plantas analisadas já não estava presente em pelo menos uma das áreas onde havia sido registrada entre dez e 15 anos antes. Essa perda de diversidade reduz as alternativas disponíveis para adaptação frente a mudanças climáticas, novas pragas e doenças, tornando os sistemas produtivos mais vulneráveis a novos desafios.

A agrobiodiversidade amplia as alternativas de adaptação da produção agrícola frente às mudanças climáticas. Manter uma variedade de espécies, variedades e raças com diferentes características genéticas significa preservar recursos que podem ser úteis diante de novos desafios ambientais, como alterações nos padrões de chuva, temperaturas extremas e surgimento de novas pragas. Essa diversidade mantém aberto o leque de possibilidades para o que será possível produzir no futuro, garantindo que alternativas estejam disponíveis se as condições de produção mudarem significativamente.