Desde que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou tarifas de 50% sobre as exportações de produtos brasileiros ao País, o setor pecuário vem sendo desafiado a encontrar estratégias de mitigação ao impacto gerado. A principal delas é a diversificação, ou seja, buscar mercados alternativos ao norte-americano para exportar a carne produzida.
Fernando Henrique Iglesias, analista do Safras & Mercados, afirma, em reportagem publicada no site G1 Agro, que os frigoríficos vão precisar redirecionar o produto para outros destinos. “A nossa sorte é que há mais de 100 países comprando carne do Brasil”, observou o analista, destacando como exemplo o Vietnã, que retomou as compras de carne bovina brasileira.
México, Egito, Canadá, Chile e Emirados Árabes também são mercados potenciais para absorver a oferta, embora haja especificidades. Enquanto os EUA importam 12% da carne bovina exportada pelo Brasil para serem usadas em hambúrgueres e outros alimentos processados, os chineses – os maiores compradores – preferem cortes dianteiros.
A competitividade da carne bovina brasileira no mercado internacional é outro fator de mitigação, como mostra matéria veiculada no site Globo Rural. Segundo o texto, a Associação dos Criadores de Nelore do Brasil (ANCB) avalia que o mercado internacional precisa da carne brasileira, que é comercializada com preços inferiores aos dos principais concorrentes.
Relações com os EUA iam de vento em popa
O Brasil é o maior exportador de carne bovina para os EUA, superando concorrentes como Austrália, Nova Zelândia e Uruguai, enquanto o país norte-americano é o segundo maior mercado importador de carne brasileira, atrás apenas da China. Segundo dados da Abiec, 30% da carne bovina produzida no Brasil são exportados e 70% ficam com o mercado interno.
Antes da taxação, as relações do setor pecuário com os EUA iam de vento em popa: de janeiro a junho de 2025, os embarques brasileiros para aquele país cresceram 113% em relação ao primeiro semestre de 2024, com 181,5 mil toneladas, segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC). A receita alcançou US$ 1 bilhão, um aumento de 102%. Agora, tudo é incerto. “É um grande impacto para a cadeia, que não tem uma reacomodação imediata. Claro, existem outros destinos para os produtos, mas nenhum com a mesma característica do mercado americano, com esse tipo de corte e essa demanda de volume”, argumenta o presidente da Associação, Roberto Perosa.
Segundo ele, o Brasil pode perder até US$ 1 bilhão neste ano, se a sobretaxação americana for mantida. Em matéria veiculada no site da Exame, o dirigente informou que a expectativa do setor era de que o Brasil exportasse 400 mil toneladas de carne para os EUA em 2025, quase o dobro do enviado em 2024 (220 mil toneladas), mas o volume pode ser bem inferior com o novo panorama tarifário, ameaçando “quebrar a década dourada do agro brasileiro”, como publicou a Forbes. Segundo a reportagem, baseada em números do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), US$ 81,79 bilhões foram exportados pelo agronegócio brasileiro para os EUA entre 2015 e 2024. O setor pecuário registrou o maior crescimento: de US$ 290 milhões, em 2015, para US$ 1,41 bilhão, em 2024.
Com a nova política tarifária, a estimativa da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) é a de que o agronegócio deixe de exportar US$ 5,8 bilhões aos EUA neste ano. Em matéria no site Compre Rural, as estimativas de prejuízo da Frente Parlamentar Agropecuária (FPA), coesão pluripartidária que visa apoiar o agronegócio brasileiro, são de que haverá perdas de US$ 1,3 bilhão para o setor em 2025, mais US$ 3 bilhões por ano a partir de 2026, se o tarifaço for mantido. As projeções são baseadas em cálculos da Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo). Diante deste cenário, há risco de desemprego em massa na cadeia produtiva, que abrange desde pecuaristas e frigoríficos até transportadores e fornecedores de insumos.
Tensões entre os governos poderiam ser superadas

O presidente da ACNB, Victor Paulo Silva Miranda, disse acreditar que a tensão entre os governos Lula e Trump será superada em um prazo relativamente curto, o que evitaria danos significativos às exportações e desequilíbrio de preços de boi para o pecuarista. O dirigente argumenta ainda que o rebanho bovino dos Estados Unidos está diminuindo, o que tende a elevar a demanda por carne importada por aquele país.
Para evitar um colapso no setor agropecuário, o governo brasileiro vem planejando uma série de iniciativas. Até agora, a principal aposta era um canal aberto entre o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e o secretário de Tesouro dos EUA, Scott Bessent, mas a reunião foi cancelada em meados de agosto, o que o dirigente atribuiu a “uma articulação da extrema-direita” para minar as negociações.
Dentre as medidas adotadas pelo governo, está a consulta formal à Organização Mundial do Comércio (OMC), sob o argumento de que o tarifaço está em desacordo com as normas internacionais, conforme noticiou O Globo. Lula também considera procurar líderes do Brics, especialmente Índia e China, para discutir a possibilidade de uma resposta conjunta ao tarifaço. O governo tenta se movimentar para que carne e café, por exemplo, fiquem fora do alcance do tarifaço, uma vez que há o precedente de uma lista com cerca de 700 produtos excluídos da sobretaxa, como aviões, celulose, suco de laranja e petróleo.
Em outra frente de ação, o governo costura um plano de emergência para concessão de crédito para as empresas mais impactadas pela tarifa. Uma linha de crédito de R$ 30 bilhões para empresas afetadas pelo tarifaço, com financiamento condicionado à manutenção de empregos, já foi anunciada. Além disso, está previsto o aumento da compra de itens, dentre eles perecíveis como a carne, por instituições governamentais. Segundo o portal da BBC News, enquanto Lula e Trump não sentam para conversar, as tratativas sobre possíveis negociações com os EUA estão nas mãos do vice-presidente, Geraldo Alckmin, também ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, e do ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira.
Fontes de referência:
Dúvidas mais comuns
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O tarifaço refere-se às tarifas de 50% impostas pelo presidente americano Donald Trump sobre as exportações de produtos brasileiros aos EUA. Para o setor pecuário, isso representa um impacto significativo, pois os EUA são o segundo maior mercado importador de carne brasileira. Antes da taxação, as exportações brasileiras para os EUA cresceram 113% no primeiro semestre de 2025 em relação ao mesmo período de 2024, gerando receita de US$ 1 bilhão. Com a nova tarifa, o setor pode perder até US$ 1 bilhão em 2025, além de US$ 3 bilhões anuais a partir de 2026 se a medida for mantida.
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A diversificação é a estratégia principal porque o Brasil exporta carne para mais de 100 países, reduzindo a dependência do mercado americano. Mercados alternativos como Vietnã, México, Egito, Canadá, Chile e Emirados Árabes têm potencial para absorver a oferta desviada dos EUA. Embora esses mercados tenham especificidades diferentes - como preferências por cortes específicos - a competitividade da carne bovina brasileira, comercializada com preços inferiores aos dos principais concorrentes, facilita a recolocação do produto em outros destinos.
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Os EUA são o segundo maior mercado importador de carne brasileira, atrás apenas da China. O Brasil é o maior exportador de carne bovina para os EUA, superando concorrentes como Austrália, Nova Zelândia e Uruguai. Antes do tarifaço, o país norte-americano absorvia 12% da carne bovina exportada pelo Brasil, principalmente para hambúrgueres e alimentos processados. A expectativa era de que o Brasil exportasse 400 mil toneladas para os EUA em 2025, quase o dobro do enviado em 2024, mas esse volume pode ser significativamente reduzido com a nova política tarifária.
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Os principais mercados alternativos incluem Vietnã, que retomou as compras de carne bovina brasileira, México, Egito, Canadá, Chile e Emirados Árabes. Cada mercado tem características específicas: enquanto os EUA preferem cortes para processamento, os chineses - maiores compradores - preferem cortes dianteiros. A China continua sendo o maior importador de carne brasileira, oferecendo uma base sólida para recolocação de volumes. Esses mercados, embora não tenham a mesma demanda de volume que os EUA, representam oportunidades viáveis para mitigar os efeitos do tarifaço.
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As estimativas de prejuízo variam entre as instituições: a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC) projeta perdas de até US$ 1 bilhão em 2025, enquanto a Frente Parlamentar Agropecuária estima US$ 1,3 bilhão para 2025 e US$ 3 bilhões anuais a partir de 2026. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) estima que o agronegócio como um todo deixe de exportar US$ 5,8 bilhões aos EUA em 2025. Além das perdas diretas, há risco de desemprego em massa na cadeia produtiva, que abrange pecuaristas, frigoríficos, transportadores e fornecedores de insumos.
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A exportação de carne bovina representa 3% das exportações brasileiras totais e um faturamento de 6 bilhões de reais. O setor representa 6% do Produto Interno Bruto (PIB) ou 30% do PIB do Agronegócio, com um movimento superior a 400 bilhões de reais. Entre 2015 e 2024, o setor pecuário registrou o maior crescimento no agronegócio exportador para os EUA, passando de US$ 290 milhões em 2015 para US$ 1,41 bilhão em 2024, demonstrando a importância estratégica do setor.
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O governo está implementando várias iniciativas: consulta formal à Organização Mundial do Comércio (OMC) argumentando que o tarifaço viola normas internacionais; negociações com líderes do Brics, especialmente Índia e China, para uma resposta conjunta; tentativas de excluir carne e café da sobretaxa, aproveitando precedente de cerca de 700 produtos já excluídos; e concessão de crédito emergencial de R$ 30 bilhões para empresas afetadas, condicionado à manutenção de empregos. Além disso, está previsto o aumento da compra de itens perecíveis como carne por instituições governamentais.
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Segundo o presidente da Associação dos Criadores de Nelore do Brasil (ANCB), há perspectiva de que a tensão entre os governos Lula e Trump seja superada em prazo relativamente curto. Um fator que reforça essa esperança é que o rebanho bovino dos Estados Unidos está diminuindo, o que tende a elevar a demanda por carne importada. Além disso, há precedente de negociações bem-sucedidas, como a lista de cerca de 700 produtos excluídos da sobretaxa, sugerindo que exclusões específicas são possíveis. As negociações estão nas mãos do vice-presidente Geraldo Alckmin e do ministro das Relações Exteriores Mauro Vieira.