Brasil transforma carne em ativo global com o tripé da nova pecuária

Produtividade, sustentabilidade e inovação formam o modelo que permite ao País disputar os mercados premium globais.

Por Rafael Motta em 26 de março, 2026

Atualizado: 27/03/2026 - 10:37

Fazenda com gado na área de pastagem, representando a nova pecuária, uma abordagem moderna e sustentável para a criação de gado no Brasil.
Foto: Minerva Foods

Crescer sem expandir. Embora à primeira vista a frase pareça um paradoxo, ela reflete o desafio global em garantir alimentos para uma população crescente sem abrir novas áreas produtivas. É o famoso fazer mais com menos. 

Segundo a Embrapa, “a adoção de tecnologias na pecuária brasileira proporcionou a modernização do setor com incremento da produção e da produtividade, em bases sustentáveis. Nos últimos 40 anos, […] a produção de carne bovina aumentou 4 vezes.” 

Essa evolução também responde às transformações nos ambientes regulatório e comercial do agronegócio internacional, como a Lei Antidesmatamento da União Europeia (EUDR), que impõe exigências socioambientais mais rigorosas para comercialização com países europeus, além da maior pressão por sistemas produtivos mais rastreáveis, eficientes e sustentáveis vindas dos Estados Unidos e Leste Asiático. É nesse cenário que o desempenho da pecuária brasileira passou a depender não apenas do volume exportado, mas da capacidade de atender padrões mais elevados de qualidade, transparência e impacto ambiental, o que viabilizou o posicionamento do setor brasileiro até mesmo no segmento de carnes premium, como destaca o Diretor de Compra de Gado Latam da Minerva Foods, Fabiano Ribeiro Tito Rosa. “A força da carne premium brasileira não está apenas na genética dos animais ou na diversidade de sistemas de produção, que vão do confinamento tecnificado à criação a pasto com rastreabilidade dos fornecedores diretos e indiretos, mas também na capacidade do setor de alinhar produtividade, sustentabilidade e inovação. Esse tripé é hoje o verdadeiro passaporte para os mercados internacionais”. 

O tripé da nova pecuária que posiciona o Brasil no mercado global de carne premium

Com o segundo maior rebanho bovino do mundo em 2024, segundo dados do IBGE divulgados no ano passado, o Brasil ocupa posição central nessa transição produtiva. O tripé estratégico formado por produtividade, sustentabilidade e inovação tem mudado a forma como o País produz carne bovina, inclusive, com alta competitividade no segmento premium, e demonstra como eficiência e preservação ambiental podem caminhar juntas.

Produtividade: mais carne sem ampliar o pasto

Boi branco em um pasto com capim verde, representando a inovação na pecuária moderna, promovendo sustentabilidade e eficiência.
Foto: Minerva Foods

A pecuária brasileira atravessa uma transição profunda, abandonando o empirismo, o antigo “olhômetro”, para adotar uma gestão baseada em evidências, indicadores econômicos e inteligência de mercado. Dessa forma, o produtor deixa de ser apenas um “dono de terra” para se tornar um gestor de dados e empresário rural, consolidando um modelo onde a eficiência operacional não é mais um diferencial, mas uma condição mínima.

O conceito de “boi de ciclo curto” (animais que atingem o peso de abate em menos tempo) permitiu ao Brasil aumentar a produção sem expandir a área de pastagens, segundo relatório da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec). Isso significa que, mesmo mantendo ou reduzindo o espaço utilizado para a produção, o País já consegue escalar o volume de acordo com as necessidades. Esse ganho de eficiência está diretamente ligado à recuperação de pastagens degradadas, ao melhoramento genético do rebanho e à intensificação do manejo.

Tecnologias como inseminação artificial e seleção genômica, por exemplo, garantem animais com melhor marmoreio (gordura entremeada responsável por maciez e sabor), características cada vez mais valorizadas nos mercados premium. Ao mesmo tempo, práticas como a rotação de pastagens ajudam a preservar o solo, aumentar a produtividade e reduzir o custo por arroba produzida.

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Sustentabilidade ambiental, social e econômica

Fazenda com uma vasta área de pastagem verde, árvores ao longo das cercas e céu nublado, representando uma nova pecuária sustentável e moderna.
Foto: Minerva Foods

O segundo pilar da nova pecuária está na capacidade de comprovar a origem da produção e reduzir impactos ambientais ao longo da cadeia produtiva. Softwares de monitoramento via satélite permitem ampla rastreabilidade, contribuindo para que frigoríficos verifiquem a origem de cada animal, combatendo a triangulação de gado de áreas ilegais. 

Outro destaque é o sistema de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), que tornou-se a vitrine de “pecuária de baixo carbono”, ao combinar árvores, pastagens e atividades agrícolas na mesma área. Um estudo realizado pela Embrapa Pecuária Sudeste concluiu que o carbono sequestrado pelas árvores e pelo solo pode compensar emissões de metano equivalentes a mais de dois bovinos adultos por hectare. A presença de árvores resulta em um maior conforto térmico aos animais, devido à sombra.

Essas práticas têm contribuído para consolidar a imagem da chamada pecuária de baixo carbono, cada vez mais valorizada por consumidores e reguladores internacionais.

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Inovação – tecnologia e gestão de ponta a ponta

Homem em fazenda de pecuária tradiciona em ambiente rústico de espaço para criação de gado
Foto: AlpakaVideo / Shutterstock

A “Agtech” (Tecnologia Agropecuária) brasileira sofreu mudanças substanciais ao longo dos anos chegando ao conceito de pecuária 4.0, na qual a conectividade é protagonista, viabilizando o uso de ferramentas e sistemas integrados, a automação e a pecuária de precisão, fundamentada em dados e informações em tempo real, com alto grau de assertividade. 

O uso de softwares de gestão financeira e operacional em confinamentos, por exemplo, aumenta a eficiência técnica dos produtores, permitindo que produzam mais arrobas com a mesma quantidade de insumos em comparação aos que não utilizam essas ferramentas, também já faz.

O Sistema Automático de Pesagem em Campo com Envio Remoto de Dados (BalPass), desenvolvido em cooperação pela Embrapa, COIMMA e Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) é outro exemplo. A balança permite a pesagem individual, sem a necessidade de que o animal fique parado, o que evita a mudança de hábitos no animal.

O avanço tecnológico é o uso de inteligência artificial no manejo do rebanho. Sistemas baseados em algoritmos analisam dados comportamentais dos animais e ajudam a prever problemas de saúde antes mesmo do aparecimento de sintomas clínicos, permitindo intervenções mais rápidas e precisas, conforme explica o portal Agropecuária de Precisão. Em fazendas inteligentes, situações que antes pareciam futuristas, já são realidade com o uso combinado de robôs e sensores, que permite que processos rotineiros sejam automatizados, como a verificação de bebedouros.

No setor industrial, a inovação se materializa, por exemplo, no uso de sensores e inteligência artificial para garantir a qualidade da carne e o acabamento de gordura ideal das peças, seja dentro do frigorífico ou ainda no campo, onde câmeras inteligentes medem a curva de acabamento de gordura do animal em tempo real, garantindo que o produto entregue ao frigorífico atenda aos padrões de qualidade industrial.

Esse movimento já é realidade em grandes operações. Na Minerva Foods, a inteligência artificial é aplicada diretamente na linha de produção para qualificar e padronizar o produto. Câmeras instaladas nas unidades capturam imagens das carcaças em tempo real, enquanto algoritmos classificam os cortes com alto grau de precisão. A tecnologia aumenta a precisão na avaliação da qualidade das carcaças e transforma o processo em uma fonte contínua de dados, permitindo identificar padrões entre fornecedores, variações regionais do gado e possíveis desvios operacionais, com impacto direto na tomada de decisão ao longo de toda a cadeia.

Esse avanço tecnológico e produtivo também se reflete no desempenho comercial do setor. Segundo dados compilados pelo Portal DBO a partir da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), as exportações brasileiras de carne bovina alcançaram 235,9 mil toneladas em fevereiro de 2026, recorde histórico para o mês e que representa um crescimento de 23,9% em relação ao mesmo período de 2025. Em receita, os embarques somaram US$ 1,33 bilhão, impulsionados pela diversificação de mercados e pela consolidação da carne brasileira em destinos exigentes.

Outra frente relevante é o Plano Nacional de Rastreabilidade Bovina, que prevê a ampliação progressiva da identificação individual do rebanho até 2032 por meio de brincos eletrônicos com tecnologia RFID (Identificação por Radiofrequência) e chips invioláveis. A medida busca fortalecer a transparência da cadeia produtiva e atender às exigências sanitárias e ambientais do comércio internacional.

É essa convergência entre produtividade, sustentabilidade e tecnologia digital que permite ao País sustentar o tripé da nova pecuária, tornando os produtos brasileiros mais competitivos e escaláveis em um mercado global cada vez mais exigente e permitindo um posicionamento estratégico nos mercados premium.

Fontes de referência:


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