Imagine dois bois com o mesmo peso, a mesma raça e o mesmo tempo no cocho. Um deles consome quase um terço a menos de ração e, ainda assim, chega ao abate com o mesmo ganho de peso que o companheiro. Parece contraditório, mas o fenômeno tem nome e foi objeto do estudo conduzido com bovinos jovens da raça Nelore por pesquisadores da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Trata-se do Consumo Alimentar Residual (CAR), que está no centro de uma das fronteiras mais promissoras da pecuária brasileira: o melhoramento genético voltado não só para o animal que ganha mais peso, mas para o animal que apresenta melhor eficiência produtiva, consumindo menos alimento.
O que é o Consumo Alimentar Residual?
O CAR é calculado como a diferença entre o consumo real de alimento e o consumo esperado com base no peso corporal e na taxa de crescimento do animal. Um animal com CAR negativo é considerado “eficiente” porque consome menos do que o previsto para manter o peso corporal e o crescimento esperados. Já um boi com CAR positivo consome mais do que o esperado para o mesmo resultado.
A grande vantagem do CAR em relação a outras medidas de eficiência, como a conversão alimentar tradicional, é que ele é independente do peso corporal e do ganho de peso do animal. Isso significa que ao selecionar animais de CAR negativo, o produtor não está necessariamente escolhendo animais menores ou com menor desempenho, está escolhendo animais biologicamente mais econômicos. Conforme explica artigo publicado no BeefPoint, a triagem para CAR seleciona animais de menor exigência de manutenção e menor consumo, sem alterar o ganho de peso ou peso adulto.
O que mostrou o estudo da UFU

Pesquisas conduzidas na Fazenda Capim Branco da UFU utilizaram o sistema de cochos eletrônicos GrowSafe, tecnologia canadense que identifica cada animal por meio de brincos com identificação por radiofrequência (RFID) e registra automaticamente o consumo individual, para avaliar touros Nelore jovens, em provas de eficiência alimentar com 70 dias de avaliação efetiva.
Os resultados apontam que animais mais eficientes podem consumir até 31,8% menos alimento na fase de confinamento, sem comprometer o ganho de peso. Uma diferença que, em escala de rebanho, representa uma virada econômica significativa.
Por que isso importa tanto para o bolso do produtor?
A resposta é direta: a alimentação representa entre 70% e 80% dos custos totais de produção em sistemas de confinamento. Portanto, qualquer redução nesse item tem efeito imediato na margem do produtor.
Conforme explica a revisão da cooperativa de melhoramento genético CRV sobre o uso do CAR como critério de seleção, esse processo permite que o mesmo nível de produção seja alcançado com um menor volume de insumos, o que melhora diretamente a competitividade do sistema.
O impacto também se projeta no longo prazo por meio do melhoramento genético. Touros selecionados para consumo alimentar residual (CAR) negativo tendem a transmitir essa característica aos seus descendentes, permitindo menor consumo de alimento sem comprometer o desempenho.
Programas de seleção conduzidos pelo Instituto de Zootecnia de São Paulo demonstram que a utilização de Diferenças Esperadas na Progênie (DEPs), como critério de seleção, permite ganhos consistentes ao longo das gerações, com efeitos mensuráveis no consumo das progênies. As DEPs referem-se justamente à estimativa do valor genético de um animal e indica o desempenho médio esperado de seus descendentes em determinada característica, em comparação com a média da população. Neste caso, a herdabilidade moderada observada para características como CAR e IMS — próxima de 0,22 na literatura científica — reforça que a eficiência alimentar responde à seleção genética, consolidando-se como uma ferramenta estratégica para aumentar a eficiência produtiva e reduzir custos na pecuária de corte também no longo prazo.
A conexão com a sustentabilidade

A eficiência alimentar não é apenas um ganho econômico. Ela também tem impacto ambiental direto. Isso porque, animais que consomem menos alimento para produzir a mesma quantidade de carne geram, por definição, menos resíduos por quilo produzido: menos dejetos, menos consumo de água e menos pressão sobre pastagens e áreas de cultivo de grãos para ração.
Uma pesquisa do Instituto de Zootecnia de São Paulo com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) concluiu que, ao comparar animais extremos em eficiência alimentar, os mais eficientes emitiram 9% menos gás metano e produziram 20% menos dejetos do que os menos eficientes — com 24% menos de consumo de alimento.
Além disso, estudos da FAPESP apontam que o CAR apresenta consistência ao longo das diferentes fases e sistemas de produção, como confinamento e pastejo, o que reforça seu potencial como critério permanente de seleção nos programas de melhoramento.
O Brasil e a corrida pela genética eficiente
O Nelore é a raça predominante no rebanho brasileiro e nas pesquisas sobre CAR no País, mas a literatura científica disponível no Scot Consultoria é direta ao afirmar que países como Austrália e Estados Unidos estão “cerca de 10 anos à frente” do Brasil nessa área. A diferença está no tempo de dados acumulados e na escala dos programas de melhoramento focados em eficiência.
A boa notícia é que o movimento está acelerando. Além das pesquisas conduzidas pela UFU, iniciativas como as do Qualitas Melhoramento Genético incorporam o CAR como pilar na identificação de reprodutores. A ferramenta da genômica, que permite estimar o CAR com maior precisão e mais rapidez, sem necessidade de longos períodos de teste, começa a ganhar espaço e tem o potencial de democratizar o acesso ao melhoramento por eficiência alimentar.
E o impacto não fica só no confinamento: estudo da FAPESP investiga também a consistência da característica em animais criados a pasto, o que abriria caminho para que a eficiência alimentar contribua com a redução de emissões também nos sistemas extensivos, que dominam a pecuária brasileira.
Fontes de referência:
- Associação entre eficiência alimentar e carcaça de Nelore — SciELO/Arquivo Brasileiro MVZE
- CAR como critério de seleção — Scot Consultoria
- CAR: importância na seleção de touros — Giro do Boi / Qualitas
- Consumo alimentar residual: um novo parâmetro para avaliar eficiência alimentar — BeefPoint
- Efeito da seleção para CAR sobre fertilidade em novilhas Nelore — Repositório Unesp (2025)
- Eficiência alimentar: a nova fronteira da pecuária brasileira — Carina Ubirajara Bernardes/UFU (Campo Grande News)
- Gado brasileiro está mais eficiente no cocho? — CompreRural / Instituto de Zootecnia SP
- Pesquisa avalia emissão de metano por bovinos — Agência FAPESP
- Pesquisa UFU — O consumo alimentar residual como ferramenta de seleção (2025)
- Seleção para produção de carne bovina com redução de GEE — BV FAPESP
- Teste de Eficiência Alimentar Nelore Pelagens na UFU — Giro do Boi / Canal Rural
- Uso do CAR como critério de seleção — CRV