Pecuária regenerativa aumenta rentabilidade dentro da porteira

A própria natureza pode exercer o seu papel de manutenção do meio ambiente. Conheça a pecuária regenerativa e como ela ajuda a tornar as fazendas mais produtivas e rentáveis.

Por Rafael Motta em 10 de agosto, 2026

Atualizado: 10/08/2026 - 08:24

Rebanho de bovinos pastando em área verde com árvores ao fundo, em cenário associado à pecuária regenerativa e ao manejo sustentável do solo e da vegetação
Foto: Minerva Foods

O nome já evidencia o fundamento do conceito: agricultura regenerativa. Trata-se de um novo paradigma para a relação entre o ser humano e o solo, que visa ir além da manutenção do status quo. Ou seja, não se trata apenas de evitar a degradação, mas de reverter danos, restabelecer ciclos biológicos e promover o equilíbrio dos agroecossistemas. O conceito surgiu, inclusive, dessa limitação da sustentabilidade, que está voltada à preservação dos recursos naturais, constatada por Jerome Irving Rodale ao estudar os processos de regeneração dos sistemas agrícolas ao longo do tempo. Embora o termo tenha sido utilizado pela primeira vez em 1979 por Medard Gabel em seu livro “Ho-ping: Food for Everyone”, de acordo com publicação do Portal Embrapa, foi em 1986 que ele se popularizou a partir dos Estados Unidos por meio de Rodale.

No final da década de 1980, a agricultura regenerativa sofreu um declínio, mas voltou ao centro do debate ambiental devido ao contexto de mudanças climáticas, por meio da publicação do Instituto Rodale “Regenerative Organic Agriculture and Climate Change: A Down-to-Earth Solution to Global Warming” (em tradução livre, “Agricultura Orgânica Regenerativa e Mudança Climática: Uma Solução Realista para o Aquecimento Global”).

A chegada, evolução e consolidação no Brasil 

Em território nacional, a Revista Novos Desafios destaca que, embora o termo tenha ganhado os holofotes do agronegócio mais recentemente, grande parte de suas práticas já era empregada historicamente por populações originárias, comunidades tradicionais e agricultores familiares, muitas vezes guiados por necessidade ou por sabedoria ancestral.

Com o agravamento das mudanças climáticas, o que era um conhecimento tradicional evoluiu para um sistema produtivo tecnológico. Hoje, a consolidação no país ocorre por meio da união entre ciência, assistência técnica e ação socioambiental.

Pecuária regenerativa

Conforme demonstram relatórios internacionais da Trust for Advancement of Agricultural Sciences (TAAS India), a agroindústria convencional frequentemente separa lavouras e rebanhos. A abordagem regenerativa, pelo contrário, integra os animais como engrenagens vitais do ecossistema. Dessa forma, a pecuária regenerativa segue o mesmo princípio: a adoção de práticas mistas no campo que visam restaurar e melhorar os ecossistemas ao mesmo tempo em que se produz carne, leite e insumos, como define a Embrapa. São exemplos de práticas regenerativas:

  • Rotação de culturas: o cultivo de diferentes tipos de grãos a cada ano agrícola promove a maior ciclagem de nutrientes no solo, pois espécies diferentes exploram profundidades distintas com suas raízes. Além de deixar um efeito residual positivo em carbono e matéria orgânica para a próxima cultura, essa prática quebra o ciclo de pragas, doenças e plantas daninhas.
  • Práticas mecânicas, como a criação de barreiras físicas e sistemas de aração especiais: o uso de preparos reduzidos do solo evita a compactação e a desagregação da estrutura da terra. Barreiras físicas como terraços, cordões de pedra e sistemas de captação cortam as linhas de declive, reduzindo a velocidade e o volume das enxurradas. Isso evita a erosão, força a deposição de sedimentos ricos em nutrientes no solo e contribui para a proteção dos corpos hídricos ao reduzir o assoreamento de rios, córregos e nascentes, diminuir o carreamento de sedimentos e nutrientes para os cursos d’água e favorecer a recarga dos aquíferos, ajudando a manter a qualidade e a disponibilidade hídrica ao longo do tempo.
  • Práticas edáficas, como a remineralização e correção de acidez do solo: a correção da acidez (como a calagem) neutraliza elementos tóxicos como alumínio e manganês, melhora a porosidade do solo e estimula a atividade microbiana para a fixação de nitrogênio. Já a remineralização é uma forma de acelerar a renovação natural da terra por meio do uso de pó de rocha. Ao liberar continuamente nutrientes, corrige o pH (a acidez) e forma novos minerais de argila que ativam profundamente a biologia e a interação simbiótica entre plantas e microrganismos.
  • Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF): o cultivo simultâneo de árvores, lavouras e/ou animais na mesma área restaura pastagens e solos degradados porque acelera a ciclagem de nutrientes e estabelece corredores ecológicos vitais para a biodiversidade. Além disso, a sombra das árvores proporciona conforto térmico e bem-estar aos animais, promovendo a resiliência do sistema e a diversificação de renda da propriedade.
  • Práticas vegetativas, como cobertura permanente, pastagens multiespécies e cordões vegetados: a manutenção constante de cobertura do solo (com palhada ou plantas vivas) protege a superfície contra o impacto direto das gotas de chuva. Isso ajuda a diminuir o escoamento superficial, conservar a umidade e aumentar a matéria orgânica e a estruturação das partículas do solo. Juntas, essas estratégias conservam a umidade do terreno e favorecem o aumento da matéria orgânica e a estruturação dos agregados do solo.

Vale acrescentar as práticas decorrentes do sistema de confinamento, que permite, por exemplo, a reutilização dos dejetos no pasto, contribuindo para a qualidade do solo (Veja aqui como o esterco pode virar insumo agrícola e energia). 

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Resiliência climática e biofertilização natural

Flores amarelas e folhas verdes em close, em vegetação densa, representando práticas de pecuária regenerativa e a relação com recuperação do solo e biodiversidade
Foto: marineke thissen / Shutterstock

Um dos “segredos técnicos” por trás da pecuária regenerativa está na fixação biológica de nitrogênio (FBN) pelas leguminosas e a retenção de água. A Embrapa explica de maneira simplificada: trata-se do processo no qual o nitrogênio presente na atmosfera é convertido em formas que podem ser utilizadas pelas plantas. 

Com isso, adubos nitrogenados podem ser substituídos por esse processo biológico natural, o que gera uma economia direta para o produtor, tornando-se uma estratégia de fluxo de caixa para a fazenda. A integração de leguminosas forrageiras nas pastagens permite que o produtor diminua a compra de ureia e outros fertilizantes sintéticos, cujos preços são voláteis e altamente impactados pelo câmbio. Essa “fábrica natural de adubo” torna a propriedade mais independente de insumos externos, transformando a biologia do solo em um ativo financeiro real. Segundo estimativa do Balanço Social da Embrapa 2023, em lavouras de soja a FBN gerou uma economia de cerca de R$ 38 bilhões nas importações de adubos nitrogenados em 2021. Em 2022, a economia chegou a R$ 72 bilhões devido ao aumento do preço dos fertilizantes nitrogenados, resultado do contexto mundial de guerra envolvendo países produtores desses insumos. “Em 2023, o impacto retornou aos já expressivos patamares anteriores”.

Além da economia, a FBN eleva o patamar nutricional da pastagem, o que se reflete diretamente na saúde dos animais: visto que as leguminosas são naturalmente ricas em proteínas, elas resultam em um ganho de peso maior e mais saudável. Como resultado, o ciclo de produção é encurtado e as carcaças apresentam melhor qualidade (ou seja, com maior ganho de peso, terminação mais rápida e redução do estresse metabólico).

A redução do estresse metabólico ocorre porque a alta qualidade nutricional da pastagem supre eficientemente as exigências do gado, exigindo menos esforço do organismo na digestão e na busca por alimentos. Situações de estresse forçam o animal a gastar muita energia para tentar manter suas funções vitais, o que acaba inibindo o trato gastrintestinal, reduzindo a produção de hormônios de crescimento e derrubando a imunidade. Com uma dieta rica e de fácil digestão, o metabolismo funciona sem sobrecargas, permitindo que toda a energia física e fisiológica seja poupada e revertida diretamente para o ganho de peso e a qualidade da carne.

Menos insumos, mais margem

Uma das vantagens da pecuária regenerativa é justamente a utilização inteligente de insumos no campo. Isso faz com que a demanda por fertilizantes sintéticos, herbicidas e defensivos químicos seja menor, o que leva a uma redução nos custos de produção. Consequentemente, isso reduz a vulnerabilidade financeira e contribui para o ganho de rentabilidade.

Essa matéria publicada no Jornal da Universidade de São Paulo (USP) mostra que sistemas biodiversos podem ser até 30% mais produtivos, além de reduzir as pegadas de carbono e melhorar a conservação do solo. Segundo o professor sênior do Instituto de Estudos Avançados (IEA), Ricardo Abramovay, “a pecuária regenerativa tem por princípio olhar o animal, olhar o homem como ator social e olhar a vida em torno deles, no ecossistema em que eles se encontram”.

A utilização de práticas regenerativas é, portanto, um investimento com retorno mensurável. Mercados estratégicos, como a União Europeia, têm endurecido diretrizes para importação (especialmente com leis anti-desmatamento): o produtor que se adequa não apenas protege seu acesso a esses mercados, mas captura o valor agregado de consumidores premium, como mostram as tendências de consumo, consolidando a pecuária brasileira como uma potência regenerativa e economicamente resiliente.

Serviços ecossistêmicos

Paisagem rural com áreas de pastagem e solo exposto em diferentes trechos, em um campo verde ao fundo sob céu nublado, sugerindo práticas de pecuária regenerativa
Erosão em lavouras sem manejo conservacionista (Foto: Luiz Henrique Magnante/ Embrapa)

A não utilização de práticas sustentáveis como essas têm como consequências menor produtividade, aumento do risco de incidência de pragas, doenças e plantas daninhas, desequilíbrios ambientais, redução da agrobiodiversidade e perdas por erosão do solo. Ou seja, sistemas tradicionais não diversificados limitam a margem de operação e colocam em risco o potencial produtivo da terra.

Além disso, como explica o Programa de Meio Ambiente da Organização das Nações Unidas (UNEP), monoculturas e baixa diversificação de cultivos colocam em risco a diversidade genética global, a resiliência dos ecossistemas e a sustentabilidade da agricultura. 

O modelo regenerativo, por outro lado, agrega uma série de serviços ecossistêmicos que ajudam a reverter essa degradação e proteger tanto as plantações, quanto as criações de animais, tendo como elemento central o incentivo à diversificação de espécies vegetais e animais, às variedades genéticas e às funções ecológicas, bem como a integração entre esses elementos e a cooperação entre atores locais.

É justamente para acelerar essa transição que surgiram iniciativas voltadas à disseminação de práticas regenerativas entre os pecuaristas. A partir da necessidade de engajar os produtores rurais na adoção de práticas sustentáveis e de baixa emissão de carbono, a Minerva Foods desenvolveu, em 2021, o Programa Renove. Atualmente, a iniciativa possui fazendas certificadas no Brasil, Paraguai, Uruguai e Argentina e é estruturada em três pilares — finanças verdes, capacitação e assistência técnica, e parcerias técnicas e institucionais. O programa apoia a implementação de práticas como recuperação e rotação de pastagens, sistemas integrados de produção, diversificação de espécies forrageiras e conservação de recursos naturais, contribuindo para tornar a pecuária mais resiliente, rentável e alinhada às exigências dos mercados internacionais.

Dúvidas mais comuns

Pecuária regenerativa é um sistema produtivo que integra animais como engrenagens vitais do ecossistema, adotando práticas mistas no campo que visam restaurar e melhorar os ecossistemas enquanto produz carne, leite e insumos. Diferentemente da agroindústria convencional que separa lavouras e rebanhos, a pecuária regenerativa busca reverter danos, restabelecer ciclos biológicos e promover o equilíbrio dos agroecossistemas, indo além da simples manutenção do status quo.

A sustentabilidade está voltada à preservação dos recursos naturais e à manutenção do status quo, enquanto a agricultura regenerativa vai além, buscando reverter danos, restabelecer ciclos biológicos e promover o equilíbrio dos agroecossistemas. O conceito de agricultura regenerativa surgiu justamente dessa limitação da sustentabilidade, reconhecendo que apenas preservar não é suficiente para restaurar sistemas agrícolas degradados.

As principais práticas incluem: rotação de culturas para melhorar a ciclagem de nutrientes; práticas mecânicas como terraços e sistemas de aração reduzida para evitar erosão; práticas edáficas como remineralização e correção de acidez do solo; Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) para restaurar solos degradados; e práticas vegetativas como cobertura permanente e pastagens multiespécies. Essas estratégias trabalham juntas para conservar umidade, aumentar matéria orgânica e estruturar o solo.

A fixação biológica de nitrogênio (FBN) pelas leguminosas converte o nitrogênio atmosférico em formas utilizáveis pelas plantas, permitindo que adubos nitrogenados sintéticos sejam substituídos por esse processo natural. Isso gera economia direta para o produtor ao reduzir a compra de ureia e fertilizantes voláteis, tornando a propriedade mais independente de insumos externos e transformando a biologia do solo em um ativo financeiro real.

As leguminosas utilizadas na pecuária regenerativa são naturalmente ricas em proteínas, elevando o patamar nutricional da pastagem e resultando em ganho de peso maior e mais saudável. Além disso, reduzem o estresse metabólico dos animais porque a alta qualidade nutricional da pastagem supre eficientemente suas exigências, exigindo menos esforço do organismo na digestão. Como resultado, o ciclo de produção é encurtado, as carcaças apresentam melhor qualidade e há redução do estresse metabólico.

A pecuária regenerativa reduz significativamente os custos de produção ao diminuir a demanda por fertilizantes sintéticos, herbicidas e defensivos químicos. Sistemas biodiversos podem ser até 30% mais produtivos, além de reduzir vulnerabilidade financeira e aumentar a margem de rentabilidade. Adicionalmente, produtores que se adequam às práticas regenerativas capturam valor agregado de consumidores premium e protegem seu acesso a mercados estratégicos como a União Europeia.

A pecuária regenerativa oferece diversos serviços ecossistêmicos: reduz erosão do solo através de barreiras físicas e cobertura permanente; protege corpos hídricos ao reduzir assoreamento e carreamento de sedimentos; favorece a recarga de aquíferos; aumenta a biodiversidade através da diversificação de espécies vegetais e animais; e reduz a pegada de carbono. Essas práticas revertem a degradação ambiental causada por sistemas tradicionais não diversificados e monoculturas.

Iniciativas como o Programa Renove, desenvolvido pela Minerva Foods em 2021, estruturam-se em três pilares: finanças verdes, capacitação e assistência técnica, e parcerias técnicas e institucionais. O programa apoia a implementação de práticas regenerativas como recuperação de pastagens, sistemas integrados de produção e conservação de recursos naturais, possuindo fazendas certificadas no Brasil, Paraguai, Uruguai e Argentina, tornando a pecuária mais resiliente, rentável e alinhada às exigências dos mercados internacionais.