A pecuária é o grande vilão do efeito estufa? Entenda o ciclo do metano bovino

Gás metano emitido pelo arroto do boi é absorvido pelo pasto que o alimenta. Ciclo é equilibrado, não representando novos impactos sobre o clima. Entenda!

Por Marcia Tojal em 23 de janeiro, 2026

Atualizado: 03/03/2026 - 09:49

Gados pastando em um campo verde, simbolizando o ciclo do metano na produção de biogás e sustentabilidade ambiental
Foto: Minerva Foods

A pecuária de ruminantes participa de um processo muito particular do clima: o gás metano que o boi emite não é “novo” na atmosfera. Ele tem origem em um ciclo biogênico de carbono que se renova em poucos anos. 

O ciclo funciona da seguinte forma em sistemas resilientes: as pastagens e outras plantas capturam CO₂ para crescer. Ou seja, a recuperação de pastagem proporciona maior estoque de carbono ao sistema, já que, com o acúmulo de matéria orgânica no solo, as perdas de CO₂ para a atmosfera são interrompidas. Esse carbono vira, portanto, alimento para o animal. Durante o processo digestivo, parte deste gás retorna à atmosfera na forma de metano por meio da eructação (conhecida popularmente como arroto).

De acordo com o panorama de emissões de metano publicado pela FGV, depois de cerca de 10 a 12 anos, esse metano se converte novamente em CO₂ e água, podendo ser reutilizado pela vegetação. Essa mesma lógica é demonstrada por centros de pesquisa internacionais, como o CLEAR/UC Davis, que explica que, à medida que o “novo” metano entra no ar, o metano mais antigo vai sendo removido na mesma proporção, mantendo o sistema em equilíbrio quando o rebanho é estável.

É por isso que pesquisadores e organizações internacionais destacam que o metano de origem pecuária deve ser analisado de forma distinta do CO₂ de origem fóssil. Enquanto o primeiro integra o ciclo biogênico do carbono, o CO₂ fóssil resulta da extração de carbono que permaneceu armazenado no subsolo por milhões de anos, sob a forma de carvão, petróleo e gás natural, por exemplo.

Em condições naturais, esse carbono não estaria circulando entre a atmosfera, a biosfera e os oceanos. Ao ser extraído e utilizado como fonte de energia, ele altera o balanço climático de forma estrutural, introduzindo carbono “novo” na atmosfera e, consequentemente, aumentando o estoque total de gases de efeito estufa. Esse acréscimo líquido — além do tempo de permanência do CO₂ — é o principal fator que diferencia o impacto climático das emissões de origem fóssil.

Onde a pecuária entra nas contas (e por que a trajetória importa)

Vegetação que participa do ciclo do metano, essencial para o entendimento do ciclo do carbono.
Foto: TonAorr / ShutterStock

Para gases de vida curta como o metano, o que mais pesa é a trajetória das emissões. Pesquisadores de Oxford propuseram uma métrica chamada GWP* (Global Warming Potential Star), mostrando que emissões estáveis de metano quase não adicionam aquecimento ao longo do tempo, e que pequenas reduções podem até neutralizar o efeito adicional. 

No entanto, embora seja um “poluente climático de vida curta”, como classifica o The Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC), ele tem um poder de aquecimento elevado, superior, inclusive, ao do gás carbono. Por isso, entra para a conta das emissões globais de gases de efeito estufa. Segundo estimativa da Food and Agriculture Organization (FAO), a agricultura responde por parte importante do metano antropogênico, incluindo a participação da pecuária

Para mitigar esse impacto, o setor vem se mobilizando em duas frentes principais. Uma delas é a de reduzir as emissões. São exemplos a otimização da nutrição bovina para um processo digestivo mais eficiente, os estudos do uso de prebióticos e probióticos e o desenvolvimentos de vacinas com o mesmo foco na digestão do animal.  A outra frente de atuação está voltada para as medidas que visam reter mais carbono no solo. O princípio é que a pastagem bem manejada contribui para a fixação de carbono no solo. A adoção de técnicas como a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) e a recuperação de pastagens degradadas são exemplos nesse sentido. Além de atuar como um importante reservatório de CO, ajudando a mitigar as mudanças climáticas, o carbono no solo melhora a fertilidade e a estrutura da terra, aumenta a retenção de água e nutrientes e reduz a erosão.

O Programa Renove, da Minerva Foods, cujos componentes são Finanças Verdes, Capacitação e Parcerias Técnicas e Institucionais, segue nestas duas direções engajando as fazendas na adoção de medidas que mitiguem as emissões, o que, em contrapartida, também representa ganhos de produtividade, rentabilidade e acesso a mercados.

Um estudo de caso do programa mostrou que, em 11 fazendas avaliadas, a quantidade de carbono absorvida no solo foi maior do que a emitida pelo gado, resultando em um balanço de emissões negativo. A quantificação de carbono removido por boas práticas de pecuária utilizado pelo Renove é convergente com os protocolos da Embrapa para Carne Carbono Neutro (CCN), que usam a floresta e o manejo para compensar as emissões. 

Ilustração do ciclo do carbono, comparando as emissões de carbono fóssil e o ciclo de carbono biogênico, com foco nas emissões de metano na pecuária.
Foto: FGV EESP (2022. p.32)

De acordo com publicação do Carbon Brief, site especializado no assunto, o conjunto de melhorias — animal que engorda mais rápido e é abatido mais cedo, menor emissão por quilo de carne e solo manejado para reter carbono — é ainda mais relevante quando lembramos que, no caso do metano, o que pesa para o clima é a trajetória das emissões ao longo do tempo. Se o setor mantém as emissões estáveis ou consegue reduzi-las um pouco ano após ano, o metano praticamente deixa de acrescentar aquecimento adicional, como mostram os pesquisadores da Universidade de Oxford que propuseram o modelo GWP*. Mais que isso: representa um mecanismo importante de global cooling (resfriamento do clima).

Ao focar na ciência do ciclo curto do metano e investir em manejo e nutrição eficientes, a pecuária moderna passa a ser vista não como um problema climático, mas como parte essencial da solução para o futuro Net Zero, que além de ser um compromisso público da Minerva Foods, é a meta global de zerar o saldo de gases de efeito estufa (GEE) que a humanidade lança na atmosfera, alcançando o equilíbrio entre o que é emitido e o que é removido, de forma a estabilizar o clima.

Links de referência:
PANORAMA DAS EMISSÕES DE METANO E IMPLICAÇÕES DO USO DE DIFERENTES MÉTRICAS
The Biogenic Carbon Cycle and Cattle
Demonstrating GWP*: a means of reporting warming-equivalent emissions that captures the contrasting impacts of short- and long-lived climate pollutants
Chapter 6: Short-lived Climate Forcers
Livestock and enteric methane
Como o Brasil reduz as emissões de GEE por quilo de carne?
Upcycling bovino: gado transforma recursos não comestíveis em proteína de alto valor
Prebióticos e probióticos: da mesa ao cocho dos bovinos
Vacina que reduz até 15% das emissões de metano da digestão bovina deve chegar ao mercado entre 2027 e 2030
Artigo – A Pecuária Brasileira e o Metano
POTENCIAL DE MITIGAÇÃO DE EMISSÕES DE GASES DE EFEITO ESTUFA NA PECUÁRIA
Carne carbono neutro: um novo conceito para carne sustentável produzida nos trópicos
Q&A: What the ‘controversial’ GWP* methane metric means for farming emissions

Dúvidas mais comuns

O metano é o segundo gás que mais contribui para o aumento da temperatura global, com poder de aquecimento mais de 20 vezes superior ao dióxido de carbono. Como os demais gases de efeito estufa, ele absorve radiações infravermelhas provenientes da superfície terrestre e emite radiações para o espaço em temperaturas atmosféricas mais baixas, aprisionando a radiação infravermelha na atmosfera e intensificando o efeito estufa.

A pecuária contribui para as emissões de metano através do processo digestivo dos ruminantes, especialmente pela eructação (arroto) dos bovinos. No entanto, o impacto climático depende da trajetória das emissões: quando o rebanho é estável, o metano emitido integra um ciclo biogênico que se renova a cada 10-12 anos, mantendo o sistema em equilíbrio. A quantidade de metano por unidade de produto também pode ser reduzida através da otimização da nutrição animal e do aumento da eficiência produtiva.

O metano de origem pecuária integra o ciclo biogênico do carbono, onde o gás é capturado pelas plantas, consumido pelo animal e retorna à atmosfera em um ciclo que se renova em poucos anos. Já o CO₂ fóssil resulta da extração de carbono armazenado no subsolo por milhões de anos, introduzindo carbono 'novo' na atmosfera que não circularia naturalmente. Essa diferença fundamental faz com que o metano pecuário deva ser analisado de forma distinta do CO₂ fóssil em termos de impacto climático.

O ciclo começa quando as pastagens capturam CO₂ para crescer, armazenando carbono no solo. Esse carbono se torna alimento para o animal, que durante a digestão emite metano pela eructação. Após cerca de 10 a 12 anos, esse metano se converte novamente em CO₂ e água, podendo ser reutilizado pela vegetação. Em sistemas com rebanho estável, o novo metano que entra na atmosfera é removido na mesma proporção que o metano mais antigo, mantendo o sistema em equilíbrio.

A métrica GWP* (Global Warming Potential Star), proposta por pesquisadores de Oxford, mostra que emissões estáveis de metano praticamente não adicionam aquecimento ao longo do tempo, e pequenas reduções podem até neutralizar o efeito adicional. Essa métrica é importante porque reconhece que para gases de vida curta como o metano, o que mais pesa é a trajetória das emissões ao longo do tempo, não apenas o volume total emitido.

O setor atua em duas frentes principais: redução de emissões através da otimização da nutrição bovina, uso de prebióticos e probióticos, e desenvolvimento de vacinas que melhoram a eficiência digestiva; e retenção de carbono no solo através de técnicas como Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) e recuperação de pastagens degradadas. Essas medidas não apenas reduzem emissões, mas também melhoram a fertilidade do solo, aumentam a retenção de água e nutrientes, e reduzem a erosão.

Quando a pecuária mantém as emissões estáveis ou consegue reduzi-las gradualmente ano após ano, o metano praticamente deixa de acrescentar aquecimento adicional, representando um mecanismo importante de global cooling (resfriamento climático). Isso ocorre porque o metano tem vida curta na atmosfera e, com rebanho estável e boas práticas de manejo, a pecuária moderna passa a ser vista como parte essencial da solução para o futuro Net Zero, equilibrando o que é emitido com o que é removido da atmosfera.

Segundo estudos recentes, o setor agropecuário brasileiro foi responsável por emitir 15,7 milhões de toneladas de metano na atmosfera em 2023, correspondendo a cerca de 75% das emissões nacionais do gás. No entanto, o Brasil também desenvolve protocolos inovadores como o Carne Carbono Neutro (CCN) da Embrapa, que utiliza floresta e manejo adequado para compensar as emissões, demonstrando que a pecuária pode ser praticada de forma sustentável.