Stéphanie Ferreira: estratégia, escuta e representatividade das mulheres do agro

Engenheira agrônoma, pecuarista de quarta geração e presidente da Comissão Nacional das Mulheres do Agro da CNA, Stéphanie atua para fortalecer a presença feminina na gestão, na técnica e nas instâncias de decisão do setor.

Por Marcial Tojal em 4 de março, 2026

Atualizado: 06/03/2026 - 14:23

Stephanie Ferreira discursando em evento sobre liderança feminina e sindicalismo rural, ao fundo painel com o logo da iniciativa.
Stéphanie Ferreira (Foto: Divulgação)

“A mulher sempre esteve lá, na verdade. Não é agora que ela começou a ser do agro. Só que (ficava) muito naquele papel paralelo, na sombra.” Essa frase ajuda a entender por que, mesmo com uma história familiar ligada à pecuária há quatro gerações, Stéphanie Ferreira Gobato escolheu outro caminho para “voltar” ao campo: não pela nostalgia da fazenda como férias, mas pela inquietação diante do que via ao redor. Pasto degradado, seca repetida ano após ano e uma pecuária que, para ela, precisava ser tratada como empresa. “Se aquilo lá pagou os meus estudos até então, era lá que eu precisava profissionalizar.” Foi desse incômodo que veio a decisão de fazer agronomia.

A “menina” com a mochilinha na sala de produtores

Engenheira agrônoma, Stéphanie atua com gestão e desenvolvimento sustentável para a pecuária de corte pela sua empresa. É egressa dos programas para formação de lideranças para o agronegócio CNA Jovem e Líder MS. Faz parte da diretoria do Sindicato Rural de Três Lagoas/MS e do Sistema Famasul – Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul. Hoje, está na presidência da Comissão Nacional das Mulheres do Agro da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e participa do Programa Porta Vozes do Agro. Além de empreender no agro, é comunicadora e palestrante na defesa do setor, da representatividade e do desenvolvimento de lideranças. 

Se hoje ocupa espaços institucionais de liderança, ela faz questão de lembrar o começo: o momento em que, aos 22 anos, entrou numa sala com cerca de 20 produtores rurais para conduzir uma capacitação. “Imagina: o produtor e uma menina ensinando.” Ela descreve a cena quase com humor. Os participantes esperavam “o palestrante”, e então chegava ela com sua “mochilinha”, anunciando: “Vamos começar a capacitação.”

O choque era menos técnico do que simbólico: credibilidade, idade, gênero. “Mulher, jovem… ninguém coloca muita credibilidade no que você vai fazer.” E foi ali que ela começou a construir método, não só conhecimento. “Olho no olho”, ela diz. Mão firme no cumprimento. E um aprendizado que vira regra para o resto da carreira: a escuta vem antes do posicionamento. “Uma das coisas que mais me ajudou foi o inverso: aprender a escutar.”

Credibilidade: o obstáculo invisível

Stephanie Ferreira sorridente no campo, com chapéu de palha e camiseta xadrez, representando mulheres na pecuária
Stéphanie Ferreira (Foto: Acervo Pessoal)

Quando Stéphanie fala em gargalos para mulheres no agro, ela passa rápido pelos discursos prontos e aponta para um tipo de barreira menos visível: o teste constante de confiança.

Para ela, credibilidade se constrói com leitura de ambiente, autoconhecimento e estratégia. No começo, por exemplo, ela se percebia falando rápido como uma forma de defesa, pois acreditava que alguém poderia cortá-la. Hoje, tenta ser mais objetiva para não ser interrompida. “Preciso entender quais são esses gatilhos.”

O ponto, porém, não é “mudar o outro”. É ocupar espaço com clareza do que está fazendo ali. “Eu estou aqui porque eu tenho competência e porque queriam ouvir o que eu estava falando.”

Dentro e fora da porteira: duas frentes, um mesmo desafio

Na visão dela, há duas arenas diferentes. Uma é dentro da porteira: a mulher está cada vez mais presente na gestão, na administração, na organização de números, relatórios e processos, e também liderando equipes. Outra é fora da porteira: o sistema institucional, onde se decidem representações, prioridades e agendas do setor.

E é justamente aí que, segundo Stéphanie, começa a “virar a chave”: quando a mulher se reconhece como produtora e também como associada e liderança. Ela conta que, no Censo Agropecuário de 2017, o Brasil registrou 19% de mulheres à frente de propriedades rurais — mas que ainda existe dúvida sobre como o dado captou realidades distintas (mulheres que administram, esposas que também se consideram produtoras, sucessões familiares). 

A virada que não foi “bonita” — mas foi decisiva

Stéphanie Ferreira sorrindo ao lado de sua filha e sua mãe em um jardim, com casas ao fundo
Stéphanie Ferreira (Foto: Acervo Pessoal)

Quando a conversa chega à família, Stéphanie Ferreira desmonta uma expectativa comum: a de que sucessão sempre acontece com harmonia “A minha história de sucessão ainda está sendo construída.”

Ela conta que, quando o avô dividiu as terras e a mãe recebeu uma parte, a mensagem foi direta: “Seu lugar é em grandes multinacionais, não é para você  voltar para a fazenda.” A fazenda, naquele entendimento, não daria “carreira de sucesso”.

A resposta de Stéphanie foi abrir o próprio caminho, criando sua empresa. E o que veio depois não foi leve: projetos de recuperação e manejo de pastagens, adubação, cerca, calcário, replantio, treinamento de equipe, explicar “altura de entrada, altura de saída” (parâmetros de manejo para definir quando os animais entram e quando devem sair de uma da pastagem, com base na altura da vegetação). De novo, ela era “uma menina com cara de menina” propondo mudanças para quem está lá há anos. Mas foi ali que tudo começou, como ela diz: construir conexões, escutar muito e entregar resultado.

As referências de Stéphanie Ferreira: alicerces e influências que moldam

Seu alicerce feminino é figura central na própria história: “100% graças à minha avó”. A avó aparece como figura de resistência silenciosa — a mulher que sustentou a vida no Cerrado “sem água, sem energia”, dormindo sozinha na fazenda, enquanto o avô viajava atrás do gado. “Foi uma mulher guerreira. Ela sempre foi a que cuidou de todos.”

Já dentro do ambiente institucional, a experiência na Comissão Nacional também ampliou o repertório: “me tirou daqui da minha bolha e me fez conhecer um Brasil muito diferente do que eu imaginava.” Para ela, há “muita mulher boa por aí”, com histórias e legado.

Liderança que não paga boleto — e ainda assim acontece

É aqui que o “altruísmo” da Stéphanie fica mais concreto, sem precisar de adjetivo: ela explica que atuar na liderança institucional através dos sindicatos rurais “é um trabalho, mas a gente não ganha para isso”. É voluntário. Por quê? 

Porque, na visão dela, a defesa da classe não acontece sozinha. Ela cita que a CNA monitora milhares de proposições no legislativo e que muitas têm potencial de impacto negativo ao produtor rural, e, por isso, é preciso ter lideranças ocupando esses espaços. “Senão sua voz nunca será ouvida.”

Ela sabe que esse chamado é pesado, especialmente para mulheres que já carregam casa, filhos, carreira e fazenda. Ainda assim, sustenta a provocação: “Além de cuidar, você tá falando que eu ainda preciso olhar pro coletivo? É. É isso!”

Não como romantização, mas como escolha: aceitar a imperfeição, reconhecer que não dá para equilibrar tudo “bonitinho” e seguir.

“Tenha clareza de quem você é”

Stéphanie Ferreira resume sua estratégia em duas linhas: firmeza nas raízes e leitura de cenário. “Tenha clareza de quem você é e não deixe de ser quem você é. Mas saiba olhar, entender as entrelinhas e, estrategicamente, se posicionar para conseguir atingir o objetivo em comum.”

A história dela, entre a “menina com a mochilinha”, a consultoria técnica, a liderança institucional e a maternidade recente, não é sobre ocupar espaço por cota. É sobre ocupar porque entrega, porque soma e porque escolhe representar, inclusive, quando isso não vem acompanhado de remuneração. Para ela, esse é o ponto que precisa ficar: a mulher sempre esteve no agro. A diferença é que agora ela quer, e tem, mais voz.

Leia mais: Protagonismo feminino no agro: da gestão à ciência, uma transformação em curso


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