Um estudo de modelagem alimentar, técnica matemática usada por nutricionistas e cientistas para estimar o que aconteceria com a saúde, analisou os efeitos da retirada de uma porção diária de carne ou aves de dietas enquadradas como Padrões Dietéticos Saudáveis (HDP). Os resultados mostraram que essa exclusão pode reduzir em mais de 10% a ingestão de nutrientes essenciais, como proteína, ferro, zinco e vitaminas do complexo B.
A análise, publicada no MDPI (Multidisciplinary Digital Publishing Institute), considerou a retirada de uma porção de 85 gramas de carne ou frango, quantidade compatível com diretrizes nutricionais tradicionais. Ao realizar simulações sem essa porção, os pesquisadores observaram quedas consistentes em micronutrientes fundamentais à saúde, mesmo depois de ajustes calóricos para tentar compensá-los.
Por que a redução no consumo de carne voltou aos debates?
Questões ambientais, econômicas e de saúde estão entre os principais fatores que impulsionam discussões sobre a redução (ou mesmo a anulação) do consumo de carne em diferentes países. Contudo, os dados da pesquisa reforçam que estratégias de substituição devem ser incorporadas à dieta para evitar deficiências nutricionais.
Um exemplo é o ferro. O mineral presente em alimentos vegetais é do tipo não heme, cuja absorção pelo organismo é significativamente menor quando comparada ao ferro heme, encontrado em carnes. Isso significa que dietas desequilibradas podem comprometer os estoques de ferro e aumentar o risco de anemia. O problema é acentuado em mulheres em idade fértil. Segundo essa revisão bibliográfica, publicada no PubMed, “as perdas de ferro por sangramento podem ser substanciais e a perda excessiva de sangue menstrual é a causa mais comum de deficiência de ferro em mulheres”, diz o estudo, complementando que “durante a gravidez, há um aumento significativo na necessidade de ferro devido ao rápido crescimento da placenta e do feto e à expansão da massa globular.”.
No gráfico abaixo pode-se observar a curva de necessidade diária desse grupo por idade, segundo necessidade estimada pelo United States Department of Agriculture (USDA) – Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), sintetizado neste artigo do Departamento de Nutrição da Universidade da Califórnia: “A Ingestão Diária Recomendada (IDR) de ferro para todos os grupos etários de homens e mulheres na pós-menopausa é de 8 mg/dia, e para mulheres na pré-menopausa é de 18 mg/dia. A diferença entre os valores dos dois grupos está relacionada principalmente à necessidade de repor as perdas de ferro decorrentes da menstruação. Mulheres grávidas necessitam de ainda mais ferro: 27 mg/dia. Para crianças de ambos os sexos, entre 6 meses e 11 anos de idade, a IDR é de 11 mg/dia.:
Figura 4: Evolução da necessidade nutricional de ferro para as mulheres de 4 a mais de 50 anos.

Uma revisão de 2024, publicada no MDPI, destaca a vitamina B12 que existe naturalmente em carnes. Sua deficiência pode causar anemia megaloblástica, fadiga intensa, alterações neurológicas e cognitivas. A literatura científica ainda aponta que esse é o principal ponto de atenção na dieta de vegetarianos e de veganos, sendo recomendável fazer uso de suplementação sistemática para evitar problemas no longo prazo.
A deficiência de vitamina D, por sua vez, afeta amplos segmentos da população, independentemente do padrão alimentar. No entanto, ainda segundo o estudo, dietas veganas estavam associadas a uma menor ingestão de vitamina D em comparação com dietas onívoras e outras dietas vegetarianas, ou a uma ingestão inferior ao valor de referência (com base em 11 estudos com um total de 4703 participantes). Esse quadro pode levar à fragilidade óssea, redução da imunidade e risco cardiometabólico. Embora o sol seja o principal responsável pela síntese da vitamina D no organismo, os alimentos de origem animal funcionam como um suporte crítico, fornecendo a vitamina D3 pré-formada e as gorduras necessárias para sua absorção.
Segundo dados do Ministério da Saúde, cerca de 30% das mulheres em idade fértil no Brasil apresentam anemia. A prevalência é mais elevada em grupos de baixa renda e em populações de regiões com maior insegurança alimentar, onde a carne e o peixe – fontes de ferro de alta absorção – são frequentemente os primeiros a serem cortados da dieta devido ao custo.
Dieta com menos carne e HDP: é possível?
Sim, mas com ressalvas. Os estudos apontam a necessidade de construir um planejamento nutricional adequado para garantir o suprimento de micronutrientes essenciais. No entanto, os custos envolvendo alimentação tendem a aumentar se esse for o objetivo.
De acordo com o relatório da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) State of Food Security and Nutrition in the World 2025, o preço de uma dieta saudável na América Latina aumentou 3,8%, entre 2023 e 2024, chegando a R$ 30 por dia, a mais cara do mundo. A FAO entende como dieta saudável uma alimentação que inclui quatro aspectos principais: diversidade (dentro e entre grupos de alimentos), adequação (suficiência de todos os nutrientes essenciais em relação às necessidades), moderação (no caso de alimentação e nutrientes associados a resultados ruins para a saúde) e equilíbrio (ingestão de energia e macronutrientes).
Apesar da alta dos preços, a quantidade de brasileiros sem condições para pagar por alimentos melhores aumentou. Em 2017, o número de pessoas incapazes de custear dietas adequadas era de 57,2 milhões (cerca de 27% da população); em 2020, o número caiu para 42,1 milhões de pessoas (19,8% da população). Os índices poderiam ser ainda melhores se não fosse pelo aparecimento da pandemia.
Fontes de referência:
Vegetarian and vegan diets: benefits and drawbacks
Carne é uma das poucas fontes naturais de B12
Relatório 3 – Biomacadores do Estado de Micronutrientes
Apesar da alta dos preços, acesso a dieta saudável cresce no Brasil