Salvaguardas agrícolas aprovadas na UE expõem desafios em acordo com Mercosul

Proteções previstas no texto europeu podem limitar ganhos previstos e pressionar exportações de carne bovina nos primeiros anos de vigência.

Por Rafael Motta em 18 de março, 2026

Atualizado: 10/03/2026 - 11:54

Imagem representa os desafios das salvaguardas agrícolas na UE relacionadas ao acordo com o Mercosul, destacando a complexidade do tema.
Foto: Beto Gomez/ Shutterstock

Após décadas de negociação, o acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul avança, mas a aprovação de salvaguardas agrícolas acendeu um alerta para os exportadores brasileiros de carne. A medida permite que o bloco europeu reative tarifas, caso haja um aumento considerado abrupto nas importações. 

Na prática, trata-se de um mecanismo de contenção voltado a produtos classificados como “sensíveis”. Entre eles, carne bovina e aves. O instrumento sinaliza que o acordo não elimina a lógica protecionista, apenas a reorganiza dentro de critérios formais, conforme explica reportagem do Estadão. Antes de produzir efeitos práticos, o regulamento precisa do aval do Conselho Europeu e de formalização no Jornal Oficial da UE, passando a valer apenas quando o acordo interino com o Mercosul for implementado, segundo informações publicadas pela CNN

A embaixadora da União Europeia no Brasil, Marian Schuegraf, comunicou a aprovação das salvaguardas adicionais a deputados e senadores brasileiros do Parlamento do Mercosul (Parlasul). Estes, por sua vez, interpretaram o gesto como sinal positivo e indicativo de redução na tensão com o Parlamento Europeu. Já para a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), o mecanismo introduz um critério automático que pode restringir exportações brasileiras com tarifa reduzida. A entidade afirma que a iniciativa não estaria alinhada às diretrizes da Organização Mundial do Comércio (OMC).

O impacto estimado

A CNA avalia que, sem ajustes institucionais e coordenação por parte do governo brasileiro, uma parcela significativa dos benefícios negociados pode se diluir nos primeiros anos de vigência do acordo, segundo o Globo. Simulações de inteligência comercial conduzidas pela CNA sugerem que as salvaguardas e exigências acessórias podem corroer os ganhos de competitividade previstos no acordo. A estimativa de perda projetada para o setor de proteína bovina é de 105 milhões de euros, apenas no primeiro ano de vigência do tratado. O valor representa cerca de 25% das exportações brasileiras destinadas à União Europeia em 2024, dimensionando o efeito potencial sobre a competitividade do país no bloco.

Em 2024, segundo o IBGE, o rebanho bovino brasileiro atingiu 238,6 milhões de gados, consolidando o país como detentor do maior rebanho comercial do mundo. O volume é cerca de três vezes superior ao da União Europeia, evidenciando a diferença estrutural de escala produtiva entre os blocos.

De acordo com dados oficiais do governo, em 2025, o Brasil também superou os Estados Unidos, assumindo a liderança global na produção de carne bovina. O avanço no último ano ocorreu após o país ultrapassar as projeções iniciais do mercado. A carne bovina alcançou receitas de US$ 18,03 bilhões, alta de 40,1%, e crescimento de 20,9% no volume exportado, segundo dados oficiais compilados pela Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC)

Na avaliação do Governo Federal, o acordo representa uma oportunidade estratégica para o agronegócio brasileiro. A secretária de Comércio Exterior do MDIC, Tatiana Prazeres, afirmou que o tratado amplia o acesso a um mercado de alto poder de consumo e pode fortalecer a inserção internacional da produção nacional. Segundo ela, o acesso preferencial à União Europeia tende a reforçar a competitividade do setor e gerar efeitos positivos nas cadeias globais de valor.

Confira como Brasil e União Europeia se comparam em escala produtiva:

IndicadorBrasilUnião Europeia (UE-27)
Rebanho bovino230 a 238 milhões de cabeças72 a 74 milhões de cabeças
Produção de carne bovina11 a 12,3 milhões de toneladas6,4 a 6,8 milhões de toneladas
Exportação de carne bovina2,9 a 3,4 milhões de toneladas0,6 a 0,8 milhões de toneladas
Perfil da propriedadeGrandes extensões, pastagens amplasPequenas e médias fazendas familiares
Referências: USDA, ABIEC, Eurostate e IBGE

Os receios europeus por trás das salvaguardas

A inclusão de salvaguardas agrícolas no acordo reflete preocupações recorrentes de produtores europeus diante da abertura comercial com o Mercosul. Um dos receios é a diferença nos custos de produção entre os blocos, já que países sul-americanos operam, em geral, com maior disponibilidade de terra, clima favorável e escala produtiva mais ampla, e as diferenças regulatórias. Isso acaba se refletindo em preços mais baixos nos produtos importados pelo bloco, em comparação com os produzidos localmente, o que acarreta na perda de competitividade do setor agrícola europeu, conforme matéria da Exame.

Organizações do setor agrícola europeu, como a Copa-Cogeca — que representa cooperativas e produtores rurais da União Europeia, muitos deles estruturados em pequenas e médias propriedades, alegam o mesmo. Segundo a entidade, os padrões ambientais, sanitários e de bem-estar animal europeus são bem mais rigorosos. Nesse contexto, parte do setor agrícola europeu defende mecanismos de salvaguarda para evitar o que classificam como “concorrência assimétrica”, caso produtos importados sejam produzidos sob regras distintas, tema debatido durante a tramitação do acordo no Parlamento Europeu.

A própria Comissão Europeia afirma que o mecanismo de salvaguarda funciona como uma “rede de segurança” para agricultores do bloco em caso de aumento inesperado das importações agrícolas após a implementação do acordo, permitindo a reintrodução temporária de tarifas quando houver risco de perturbação significativa do mercado interno.

Entre a proteção europeia e a adaptação brasileira

O setor também manifesta preocupação com o aumento das exigências ambientais, que, somadas às salvaguardas agrícolas, podem ampliar a incerteza jurídica. Diante desse cenário, a CNA defende que o Brasil avance em:

  • Atualização dos instrumentos de defesa comercial, para responder a eventuais distorções;
  • Regulamentação de salvaguardas bilaterais, com critérios claros de aplicação;
  • Estruturação de contramedidas, capazes de preservar o valor econômico do tratado.

Segundo a entidade, sem esse conjunto de ações, a liberalização tarifária negociada com a União Europeia pode não se traduzir em acesso efetivo ao mercado europeu.

Ao mesmo tempo, para especialistas, as exigências do regulamento europeu no acordo UE-Mercosul representam um desafio relevante e uma oportunidade. Embora impliquem custos e ajustes no curto prazo, podem impulsionar a modernização do setor e fortalecer a reputação do Brasil como fornecedor confiável de produtos sustentáveis, ampliando oportunidades não apenas na Europa, mas em outros mercados cada vez mais atentos a critérios ambientais e de governança.

Fontes de referência:     

Dúvidas mais comuns

Salvaguardas agrícolas são mecanismos de proteção que permitem à União Europeia reativar tarifas caso haja um aumento considerado abrupto nas importações de produtos sensíveis, como carne bovina e aves. Funcionam como uma 'rede de segurança' para agricultores europeus em caso de perturbação significativa do mercado interno, reorganizando a lógica protecionista dentro de critérios formais.

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) estima uma perda de 105 milhões de euros apenas no primeiro ano de vigência do acordo, representando cerca de 25% das exportações brasileiras de proteína bovina destinadas à União Europeia em 2024. As salvaguardas e exigências acessórias podem corroer significativamente os ganhos de competitividade previstos no tratado.

As salvaguardas refletem preocupações de produtores europeus com as diferenças estruturais entre os blocos. A Europa argumenta que países sul-americanos operam com maior disponibilidade de terra, clima favorável e escala produtiva ampla, resultando em preços mais baixos. Além disso, os padrões ambientais, sanitários e de bem-estar animal europeus são mais rigorosos, criando o que o setor classifica como 'concorrência assimétrica'.

O Brasil possui um rebanho bovino de 230 a 238 milhões de cabeças, cerca de três vezes superior ao da UE (72 a 74 milhões). A produção brasileira é de 11 a 12,3 milhões de toneladas contra 6,4 a 6,8 milhões na Europa, e as exportações brasileiras (2,9 a 3,4 milhões de toneladas) superam significativamente as europeias (0,6 a 0,8 milhões de toneladas), evidenciando a diferença estrutural de escala produtiva.

A CNA defende que o Brasil avance em três frentes: atualização dos instrumentos de defesa comercial para responder a distorções; regulamentação de salvaguardas bilaterais com critérios claros de aplicação; e estruturação de contramedidas capazes de preservar o valor econômico do tratado. Sem essas ações, a liberalização tarifária negociada pode não se traduzir em acesso efetivo ao mercado europeu.

O acordo representa uma oportunidade estratégica para o agronegócio brasileiro, ampliando o acesso a um mercado de alto poder de consumo. O acesso preferencial à União Europeia tende a reforçar a competitividade do setor e gerar efeitos positivos nas cadeias globais de valor. Além disso, as exigências ambientais podem impulsionar a modernização do setor e fortalecer a reputação do Brasil como fornecedor confiável de produtos sustentáveis.

As salvaguardas agrícolas estão associadas a exigências ambientais mais rigorosas, que juntas podem ampliar a incerteza jurídica para exportadores brasileiros. Embora impliquem custos e ajustes no curto prazo, essas exigências podem impulsionar a modernização do setor e fortalecer a reputação do Brasil como fornecedor de produtos sustentáveis, abrindo oportunidades em mercados cada vez mais atentos a critérios ambientais e de governança.

As salvaguardas precisam do aval do Conselho Europeu e de formalização no Jornal Oficial da UE antes de produzir efeitos práticos. Passarão a valer apenas quando o acordo interino com o Mercosul for implementado, o que ainda depende de procedimentos formais adicionais na União Europeia.