Brasil é reconhecido como livre de febre aftosa sem vacinação: o que isso significa na prática?

Certificação internacional concedida pela World Organisation for Animal Health marca um novo patamar sanitário para a pecuária brasileira e tende a ampliar oportunidades no comércio global.

Por Marcia Tojal em 9 de junho, 2026

Atualizado: 09/06/2026 - 12:50

Vista aérea de um campo gramado verde com gado branco disperso pastando, todos parte de um rebanho livre de febre aftosa, cercado por uma densa fileira de árvores altas sob um céu azul claro.
Foto: Minerva Foods

A febre aftosa é uma doença viral altamente contagiosa que afeta animais de casco fendido, como bovinos, suínos, ovinos, caprinos e também espécies selvagens, como veados e queixadas. Causada por um vírus do tipo Aphthovirus, ela se espalha com facilidade pelo ar, pelo contato direto entre animais e também por equipamentos, veículos e roupas contaminadas. 

Nos animais infectados, causa febre e  lesões dolorosas na boca, patas e úberes, comprometendo a alimentação, a locomoção e a produção de leite. Em casos mais graves, sobretudo em filhotes, a doença pode ser fatal.  

Os impactos econômicos também são significativos. Além de comprometer a produtividade dos rebanhos e gerar custos com medidas de controle e erradicação, a ocorrência de focos da doença pode resultar em restrições ao comércio internacional. Países afetados perdem acesso a importantes mercados importadores de carne e outros produtos de origem animal, o que pode paralisar cadeias produtivas inteiras e gerar prejuízos bilionários.Por décadas, a febre aftosa foi uma das principais barreiras sanitárias enfrentadas pela pecuária mundial. Em 2025, o Brasil alcançou um marco histórico ao ser reconhecido como livre da doença sem vacinação pela World Organisation for Animal Health (WOAH) o que muda a posição do país no mercado global de proteína animal.

O novo status indica que o país eliminou a circulação do vírus sem depender da vacinação contínua, atendendo a critérios rigorosos de vigilância e resposta sanitária.

De acordo com a WOAH, o reconhecimento sanitário é concedido apenas a países que comprovam a ausência da doença e mantêm sistemas robustos de monitoramento. 

Segundo o governo brasileiro, essa conquista é resultado de um processo contínuo de fortalecimento da defesa agropecuária, integração entre estados e controle de fronteiras.

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O impacto no comércio internacional

O reconhecimento sanitário vai além da esfera técnica e tem efeito direto sobre o comércio global. A WOAH destaca que o status de país livre de doença facilita o comércio internacional ao aumentar a confiança entre importadores e exportadores, já que o status sanitário é um dos principais critérios nas negociações.

Com isso, o Brasil fortalece sua competitividade global e amplia as oportunidades de exportação de carne e outros produtos de origem animal para mercados de alto valor agregado.

Mudança no modelo sanitário

O novo status também marca uma transformação estrutural na forma como a doença é controlada.

A transição foi conduzida pelo Ministério da Agricultura e Pecuária, por meio do Plano Estratégico do Programa Nacional de Vigilância para a Febre Aftosa (PNEFA), que orientou a retirada gradual da vacinação e o fortalecimento da vigilância sanitária. 

Além de eliminar uma etapa do processo produtivo, a mudança direciona os esforços para a rastreabilidade, a detecção precoce de possíveis ocorrências e a rápida resposta a eventuais emergências sanitárias. 

Na prática, isso significa menor dependência de campanhas massivas de vacinação, redução de custos diretos para o produtor e maior investimento em  inteligência e vigilância sanitária.

Mais exigência: vigilância, rastreabilidade e controle

Gados Nelore estão em um campo gramado verde sob um céu azul parcialmente nublado, com uma árvore alta ao fundo. Tirada de um ângulo baixo, essa foto destaca o gado saudável e livre da febre aftosa entre as folhas de grama no primeiro plano.
Foto: MS Cattle/ Shutterstock

A manutenção do status depende de sistemas consistentes de vigilância epidemiológica, controle rigoroso da movimentação animal e capacidade de resposta rápida a qualquer suspeita — critérios definidos pela WOAH em seus protocolos sanitários internacionais.

Nesse contexto, a estratégia de defesa sanitária evolui da lógica da imunização em massa para uma abordagem baseada na gestão integrada de risco, baseada em rastreabilidade, informação e coordenação entre os diferentes elos da cadeia.

O que muda daqui para frente

Mais do que um reconhecimento técnico, o novo status redefine o papel do Brasil no mercado internacional de carne. A conquista consolida um avanço sanitário relevante, amplia a confiança global e amplia as oportunidades de acesso a mercados de maior valor agregado. Ao mesmo tempo, impõe um novo nível de responsabilidade: manter padrões elevados de controle, vigilância e rastreabilidade deixa de ser diferencial e passa a ser condição básica para sustentar essa posição no longo prazo.

Fontes de referência: