Ciência da carne: a cadeia que alimenta o país

O que está por trás do bife no seu prato? Prof. Dr. Marcos Fava Neves aborda a economia da carne em 10 perguntas.

Um homem de meia-idade, com cabelo castanho curto e barba, vestindo um paletó escuro e uma camisa branca, está em pé diante de um fundo cinza liso.

Por Prof. Dr. Marcos Fava Neves em 29 de setembro, 2026

Salada gourmet em prato branco com fatias de carne bovina, folhas verdes, rúcula, figo fatiado, ovos de codorna e molhos, em mesa clara. Ciência da carne aplicada à preparação de pratos com ingredientes frescos.
Foto: Minerva Foods

Você já parou para pensar o que tem por trás do bife do seu prato?

Pare por um instante e imagine o prato mais comum da mesa do brasileiro: arroz, feijão, batata frita, salada e, no centro dele, um “bife”. Essa cena se repete diariamente em milhões de lares, restaurantes e refeitórios país afora. Mas, raramente, paramos para pensar em tudo o que ela representa. Por trás desse prato está a cadeia da bovinocultura de corte, que movimenta bilhões em receita e paga bilhões em tributos, que se traduzem em investimentos públicos e privados, gerando oportunidades para milhões de brasileiros. O artigo de hoje trata dos impactos da cadeia para as economias brasileira e global. 

O Brasil tem um papel importante na pecuária global?

Em 2025, o Brasil consolidou-se como o maior produtor e o maior exportador de carne bovina do planeta, superando os Estados Unidos, país que historicamente ocupava essa posição. Essa liderança pode ser explicada pelo rebanho bovino comercial brasileiro, o maior do mundo, estimado em 195,5 milhões de cabeças, à frente da Índia e da China. Em 2025, 47,8 milhões de animais foram abatidos no país, gerando 12,4 milhões de toneladas equivalente carcaça (TEC); volume recorde, correspondente a 16,1% de toda a carne bovina produzida no planeta. Esse resultado movimentou, ao longo de toda a cadeia – da porteira para dentro e para fora -, cerca de R$ 1,159 trilhão, o equivalente a 9,1% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, que somou R$ 12,74 trilhões no ano. Os dados são do Beef Report 2026, da Abiec e Athenagro Consultoria, com base no IBGE.

Mas esse desempenho beneficia apenas o pecuarista?

Conectando-se a esse panorama macroeconômico, é preciso entender que a pecuária não vive sozinha: ela se conecta com uma extensa rede de outras indústrias. Somente em insumos e serviços para a produção — nutrição animal, sanidade, genética, combustíveis, fertilizantes, maquinário e mão de obra —, a cadeia movimentou R$ 165,5 bilhões em 2025; a indústria frigorífica consumiu mais R$ 61,6 bilhões em embalagens, energia, logística e serviços; e o varejo brasileiro faturou R$ 334,4 bilhões com a venda de carne e demais produtos de origem bovina (Beef Report 2026, Abiec). 

Ainda temos os coprodutos que movimentam os setores de couro, biogás e biometano, alimentação animal, fertilizantes, produtos de beleza, sabão, limpeza, entre outros, evidenciando como o boi movimenta, direta ou indiretamente, boa parte da economia do país. 

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E o emprego? Quantos postos de trabalho dependem dessa atividade?

Quando falamos em mais de R$ 1,15 trilhão movimentados, não se trata apenas de fluxos contábeis e financeiros, mas de sustento direto para famílias de Norte a Sul. Estima-se que o setor da pecuária de corte esteja relacionado à manutenção de cerca de 9 milhões de empregos diretos, indiretos e induzidos pelo efeito renda na economia (Athenagro / Beef Report). 

Desde o vaqueiro e o zootecnista na fazenda, passando pelos técnicos de sanidade, operários de plantas frigoríficas, motoristas de frotas refrigeradas, até chegar aos açougueiros de bairro e atendentes de supermercado – a pecuária é uma das maiores indutoras de inclusão produtiva do país. Ela exerce um papel insubstituível no que chamamos de “interiorização do desenvolvimento”: enquanto boa parte dos serviços e da indústria tradicional se concentra em capitais e regiões metropolitanas, a pecuária gera renda, fixação do jovem no campo e demanda no comércio local em centenas de municípios do interior que, sem a pecuária de corte, teriam economias estagnadas.

Mas nós não exportamos a maior parte da carne produzida?

Cargueiro marítimo com containers refrigerados sobre o oceano azul, mostrando a estrutura do navio e o horizonte sob céu com nuvens, em contexto de Ciência da carne
Foto: Mariusz Bugno / Shutterstock

Não. Pouco mais de 60% da carne bovina produzida no Brasil é consumida internamente; e o restante é exportado. E exportar um produto como a carne é um caminho que também contribui para trazer renda ao país e ajudar a “equilibrar” a nossa economia. A comercialização internacional lastreada em dólar gera números chamativos. 

Em 2025, o Brasil faturou US$ 18 bilhões com a venda externa de carne bovina, um recorde histórico, 40% acima de 2024 (US$ 12,9 bilhões) e mais de 21 vezes o valor obtido em 2000 (US$ 836 milhões). Feitas as contas, isso equivale a mais de US$ 34 mil entrando no país a cada minuto, ininterruptamente, ao longo do ano inteiro (Beef Report 2026, Abiec, com dados de Athenagro/Secex). Olhando para a composição dessas vendas, a carne in natura responde por 88,1% do volume e 92,1% da receita exportada em 2025 (Beef Report 2026, Abiec). No mapa do Brasil, o Mato Grosso lidera a origem dos embarques (24,4%), seguido por São Paulo (18,3%), Goiás (12,7%) e Mato Grosso do Sul (11,2%). 

\Para quem o Brasil mais vende a carne aqui produzida?

Grande parte do desempenho comercial internacional se deve ao nosso maior cliente: a China. Há pouco mais de duas décadas, o gigante asiático praticamente não comprava carne brasileira. Costumamos dizer que “bastou o consumidor chinês experimentar a carne do Brasil para se render a ela”. Em 2010, o consumo anual per capita de carne bovina na China era de aproximadamente 4 kg a 4,5 kg por habitante (equivalente carcaça); em 2025, impulsionado pela rápida urbanização, ascensão da classe média e diversificação da dieta proteica, esse número alcançou a faixa de 7,5 kg a 7,8 kg por habitante — um salto de cerca de 75% a 80% no período. Embora ainda esteja bem distante dos patamares observados no Brasil (em torno de 35 a 40 kg/hab./ano) ou nos Estados Unidos, cada modesto incremento de 1 kg no consumo anual do cidadão chinês representa uma demanda adicional de cerca de 1,4 milhão de toneladas de carne, devido à grande população chinesa.

Em 2025, a China absorveu 47,3% de todo o volume exportado pelo Brasil (1,7 milhão de toneladas) e 49,4% da receita, equivalente a US$ 8,9 bilhões; olhando pelo lado chinês, mais da metade (56,2%) de tudo o que a China importa de carne bovina no mundo vem do Brasil (Beef Report 2026, Abiec). Apesar da oportunidade e parceria estratégica, essa alta participação de um único grande comprador é, sem dúvidas, um ponto de alerta para o setor e para a economia brasileira. 

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Qual o impacto do agro e da carne bovina para a balança comercial brasileira?

Ampliando o olhar da carne bovina para o agronegócio como um todo, entende-se por que o setor é tratado, com razão, como o grande motor da economia brasileira. Em 2025, as exportações do agronegócio somaram US$ 169,2 bilhões e geraram saldo comercial de US$ 149,1 bilhões; sem essa contribuição, o Brasil teria fechado o ano com déficit comercial, já que o saldo dos demais setores da economia foi negativo em US$ 81 bilhões (Beef Report 2026, Abiec, com dados de Athenagro/Secex). Dentro desse cenário, a carne bovina tem ganhado peso crescente: sua participação no total exportado pelo agronegócio saltou de 3,95%, em 2000, para 10,60%, em 2025. Vale lembrar da diversidade e grande volume de produtos agrícolas e animais exportados pelo Brasil.

Além dos dólares exportados, o que mais a cadeia gera para o Brasil?

Para além da geração de receita com os embarques, a cadeia da carne bovina também sustenta parte relevante da arrecadação pública. Estima-se que, em 2025, a pecuária de corte tenha contribuído com R$ 172,6 bilhões em impostos e contribuições sindicais ao longo de toda a sua cadeia produtiva, além de R$ 49,7 bilhões em salários gerados em outros setores da economia (Beef Report 2026, Abiec). São recursos que são utilizados para a construção de escolas, hospitais, estradas – e outros investimentos. 

Esse impacto pode ser exemplificado com municípios como São Félix do Xingu, no Pará, dono do maior rebanho bovino entre as cidades brasileiras: cerca de 2,5 milhões de cabeças de gado, 38 bois para cada habitante. Entre 2010 e 2023, o PIB per capita do município saltou de R$ 5.422,71 para R$ 35.953,63, alta de 563% (IBGE Cidades). O reflexo aparece também nos indicadores sociais: o IDHM avançou de 0,435, em 2000, para 0,594, em 2010 (alta de 36,6%), e a escolarização entre 6 e 14 anos passou de 77,90%, em 2010, para 94,63%, em 2022 (IBGE Cidades). É a prova de que a pecuária de corte transforma a renda e as condições de vida das comunidades onde se fortalece. 

Como o Brasil garante a segurança e a qualidade dessa carne para o mundo?

Manter a liderança global das exportações exige um padrão sanitário e de conformidade inquestionável. Atualmente, o produto brasileiro é comercializado em mais de 175 destinos internacionais (Beef Report 2026, Abiec). O pilar central dessa credibilidade é o rigoroso sistema de inspeção: segundo os dados mais recentes, cerca de 63,6% dos bovinos abatidos no Brasil passam por plantas sob o Serviço de Inspeção Federal (SIF), estabelecimentos que respondem por 66,5% de toda a carne produzida no território nacional (Beef Report 2026, Abiec).

Isso significa que o processo fabril, a rastreabilidade, o bem-estar animal e a biosseguridade atendem às exigências das agências sanitárias mais exigentes do planeta – dos Estados Unidos à União Europeia e aos países árabes (que demandam o rigoroso abate “Halal”). A carne brasileira construiu competitividade baseada em escala e previsibilidade de fornecimento aliadas à sanidade controlada.

Depois de todos esses números, qual o futuro para a carne bovina?

Segundo projeções da Abiec, a produção brasileira pode superar 15 milhões de toneladas equivalente de carcaça (TEC) até 2035, com exportações ultrapassando 7 milhões de toneladas anuais (Beef Report 2026, Abiec). Em linha com esse otimismo, o relatório Agricultural Outlook 2026-2035, da OCDE e da FAO, projeta a produção mundial de carne bovina em 82 milhões de toneladas até 2035. Mas, esses dados de futuro vamos explorar melhor em um outro artigo.

Essa trajetória positiva de crescimento exigirá lições estratégicas de casa. Precisamos avançar na abertura e ampliação de mercados de alto valor (como Sudeste Asiático, Oriente Médio e América do Norte) para diminuir a dependência excessiva de um único comprador. Além disso, a diferenciação do produto — via protocolos de carne sustentável, rastreabilidade individual completa e valorização do sabor da carne a pasto — será a chave para capturar prêmios de preço nos mercados mais sofisticados.

Se depender dos números, o Brasil tem todas as condições de seguir como o principal fornecedor de carne bovina do mundo, colocando, cada vez mais, um pedaço de carne de origem brasileira nas mesas de fora e de dentro do país.

*Agradecimentos a Vinicius Cambaúva e Rafael Rosalino pelo apoio na redação do texto.

Dúvidas mais comuns

O Brasil consolidou-se em 2025 como o maior produtor e exportador de carne bovina do planeta, superando os Estados Unidos. Com um rebanho bovino comercial de 195,5 milhões de cabeças (o maior do mundo), o país abateu 47,8 milhões de animais em 2025, gerando 12,4 milhões de toneladas equivalente carcaça, correspondente a 16,1% de toda a carne bovina produzida no planeta. Essa liderança movimentou cerca de R$ 1,159 trilhão, equivalente a 9,1% do PIB brasileiro.

Pouco mais de 60% da carne bovina produzida no Brasil é consumida internamente, enquanto o restante é exportado. Em 2025, o Brasil faturou um recorde histórico de US$ 18 bilhões com a venda externa de carne bovina, 40% acima de 2024, com a carne in natura respondendo por 88,1% do volume e 92,1% da receita exportada.

A China é o maior cliente do Brasil, absorvendo 47,3% de todo o volume exportado (1,7 milhão de toneladas) e 49,4% da receita, equivalente a US$ 8,9 bilhões em 2025. Mais da metade (56,2%) de tudo o que a China importa de carne bovina no mundo vem do Brasil. O consumo per capita chinês cresceu de 4-4,5 kg por habitante em 2010 para 7,5-7,8 kg em 2025, um aumento de 75-80% no período.

Estima-se que o setor da pecuária de corte esteja relacionado à manutenção de cerca de 9 milhões de empregos diretos, indiretos e induzidos pelo efeito renda na economia. A cadeia emprega desde vaqueiros e zootecnistas nas fazendas, técnicos de sanidade, operários de plantas frigoríficas, motoristas de frotas refrigeradas, até açougueiros e atendentes de supermercado, sendo uma das maiores indutoras de inclusão produtiva do país.

A cadeia movimentou R$ 165,5 bilhões em insumos e serviços para a produção, R$ 61,6 bilhões na indústria frigorífica e R$ 334,4 bilhões no varejo brasileiro em 2025. Além disso, contribuiu com R$ 172,6 bilhões em impostos e contribuições sindicais, além de R$ 49,7 bilhões em salários gerados em outros setores. Os coprodutos também movimentam setores de couro, biogás, biometano, alimentação animal, fertilizantes e produtos de beleza.

Em 2025, as exportações do agronegócio somaram US$ 169,2 bilhões e geraram saldo comercial de US$ 149,1 bilhões. Sem essa contribuição, o Brasil teria fechado o ano com déficit comercial. A carne bovina tem ganhado peso crescente, com sua participação no total exportado pelo agronegócio saltando de 3,95% em 2000 para 10,60% em 2025, gerando mais de US$ 34 mil entrando no país a cada minuto.

O Brasil mantém um rigoroso sistema de inspeção como pilar central de sua credibilidade. Cerca de 63,6% dos bovinos abatidos passam por plantas sob o Serviço de Inspeção Federal (SIF), que respondem por 66,5% de toda a carne produzida. O processo fabril, rastreabilidade, bem-estar animal e biosseguridade atendem às exigências das agências sanitárias mais rigorosas do planeta, incluindo Estados Unidos, União Europeia e países árabes que demandam abate Halal. O produto é comercializado em mais de 175 destinos internacionais.

Segundo projeções da Abiec, a produção brasileira pode superar 15 milhões de toneladas equivalente de carcaça até 2035, com exportações ultrapassando 7 milhões de toneladas anuais. O relatório Agricultural Outlook 2026-2035 da OCDE e FAO projeta a produção mundial de carne bovina em 82 milhões de toneladas até 2035. Para manter essa trajetória, o Brasil precisa diversificar mercados de alto valor e diferenciar o produto através de protocolos de sustentabilidade e rastreabilidade individual.
Um homem de meia-idade, com cabelo castanho curto e barba, vestindo um paletó escuro e uma camisa branca, está em pé diante de um fundo cinza liso. Prof. Dr. Marcos Fava Neves

Professor titular (em tempo parcial) da Faculdades de Administração da USP (Ribeirão Preto - SP) da FGV (São Paulo – SP) e fundador da Harven Agribusiness School (Ribeirão Preto – SP). É especialista em Planejamento Estratégico do Agronegócio. Confira textos e outros materiais em harvenschool.com e veja os vídeos no Youtube (Marcos Fava Neves).