As mulheres sempre estiveram presentes na pecuária — mas raramente de forma visível. Elas participam da rotina das fazendas, da administração familiar e das decisões produtivas, ainda que, na maioria das vezes, longe dos holofotes.
Essa invisibilidade feminina é tão estrutural que não há dados recentes sobre o tema. O último Censo Agropecuário do IBGE, que aponta que 19% dos estabelecimentos agropecuários brasileiros são dirigidos por mulheres, é datado de 2017. Segundo Stéphanie Ferreira Gobato, presidente da Comissão Nacional das Mulheres do Agro da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, o principal desafio é exatamente a sub-representação formal. Muitas mulheres já fazem a gestão cotidiana das propriedades, cuidam de números, contratos, equipes e planejamento, mas ainda não aparecem oficialmente como responsáveis legais.
Na Comissão, Stéphanie tem atuado para mudar essa realidade de diferentes formas, desde essa base, articulando junto ao poder público a contemplação de questões mais endereçadas a identificar o real papel, participação e desafios da mulher no agro. “Quando estamos falando de sindicatos rurais, que é a entidade que defende, que representa o produtor rural, geralmente o associado é o marido, muitas vezes a mulher recebe a herança da família, o marido assume e ela não se considera uma produtora. Assim como filha de produtores que também não se consideram atuando naquela fazenda, naquela gestão”.
Liderança feminina, transformação e impacto positivo
A pesquisa “Produtoras rurais e a inovação no campo“, realizada pela consultoria Quiddity em parceria com a Bayer, aponta que produtoras rurais desempenham papel relevante na inovação e na modernização sustentável do agronegócio brasileiro.
No plano internacional, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) destaca que sistemas agroalimentares mais resilientes passam pela inclusão feminina nas decisões estratégicas. Em relatório publicado em 2025, a entidade reforça que mulheres no campo tendem a adotar práticas mais sustentáveis, diversificar atividades produtivas e fortalecer a segurança alimentar, visto que, conforme a pesquisa, se as mulheres tivessem o mesmo acesso a recursos úteis que os homens, poderiam aumentar a produtividade de suas fazendas em 20% a 30%, elevando a produção agrícola total nos países em desenvolvimento em 2,5% a 4%.
O estudo ainda revela as disparidades hierárquicas. Enquanto que, “globalmente, as mulheres constituem 37% da força de trabalho agrícola e, nos países em desenvolvimento, produzem até 80% dos alimentos, menos de um em cada cinco proprietários de terras no mundo é do sexo feminino. Dos 525 milhões de pequenos agricultores (que possuem terras com menos de dois hectares), menos de 15% são mulheres – sendo a classificação amplamente definida com base nas propriedades de terra.
No Brasil, a parceria Embrapa + ONU Mulheres integra dados, ciência e políticas públicas para ampliar a igualdade de gênero no meio rural. Já o observatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) aponta a liderança feminina como vetor de inovação institucional no campo.
No mês em que se celebra o Dia Internacional da Mulher, reunimos histórias que ilustram essa transformação a partir de quatro frentes complementares: gestão produtiva, liderança institucional, ciência aplicada e comunicação baseada em evidências.
Dentro da porteira: sucessão, gestão e inovação produtiva

Na Fazenda São José, em Bela Vista de Goiás/GO, a trajetória de Luzanir Luíza de Moura Peixoto simboliza essa mudança. Após o falecimento do marido em 2023, ela assumiu a gestão da propriedade ao lado das filhas. O que poderia ter sido um momento de retração tornou-se reorganização estrutural.
A fazenda passou por formalização de processos, controle financeiro rigoroso e investimentos estratégicos em tecnologia. No campo produtivo, aprofundou-se a adoção da integração Lavoura-Pecuária (ILP), um sistema produtivo sustentável que agrega cultivos agrícolas (como soja e milho) com pastagem. Como parte de um ciclo produtivo circular, os dejetos bovinos são reaproveitados na forma de fertilizante organomineral, mitigando externalidades ambientais ao mesmo tempo em que reduz a dependência de insumos externos.
A experiência demonstra como liderança feminina pode integrar organização, visão sistêmica e sustentabilidade, redefinindo o modelo produtivo dentro da porteira.
Representatividade e liderança institucional

Se dentro das fazendas a transformação acontece na prática, fora delas ela precisa ganhar estrutura e reconhecimento. “A falta de confiança no próprio potencial é uma das maiores barreiras para o avanço da causa feminina no setor”, afirma Stéphanie Gobato.
A Comissão Nacional das Mulheres do Agro, lançada em 2023, atua na formação de lideranças e no estímulo à ocupação de espaços estratégicos no sistema sindical. “Queremos mais mulheres em cargos de tomada de decisão, não apenas nas instituições, mas também nas famílias e nas fazendas”. Segundo Stéphanie, ampliar essa participação fortalece a governança e contribui para um agro mais estruturado e representativo.
Ciência e evidência: do laboratório à mesa

A transformação do agro também passa pelo conhecimento científico. A médica e pesquisadora Luciana Haddad, com quase 30 anos de carreira, destaca que fazer ciência no Brasil já é um desafio e que, historicamente, mulheres enfrentam barreiras adicionais.
Formada em cirurgia e cirurgia digestiva, ela iniciou sua trajetória em ambientes predominantemente masculinos. “Eu era a única mulher entre residentes. E vivi muitas situações que hoje não passariam sem ser denunciadas”.
Nesse ambiente, por muito tempo, ela sentiu a necessidade de provar constantemente sua competência. Por isso, era a primeira a chegar e a última a sair. Sempre dizia sim. Achava que precisava ser melhor para ser considerada igual. Hoje, além da atuação hospitalar e acadêmica, Luciana dedica-se à divulgação científica. Para ela, se o conhecimento não melhorar a vida das pessoas, ele não faz sentido.
A ciência, nesse contexto, funciona como ponte entre produção responsável e saúde pública.
Comunicação científica: enfrentando mitos e ampliando o debate
Produzir ciência é essencial, mas comunicar ciência tornou-se igualmente estratégico. A comunicadora científica Lívia Padilha, que é Doutora em economia comportamental pela Universidade de Adelaide (Austrália), palestrante, professora e consultora em comunicação, afirma que existe uma narrativa muito simplificada de que a carne é vilã da saúde. “Quando olhamos para os dados, a realidade é muito mais complexa.”
Entre os mitos mais recorrentes, ela destaca a discussão sobre metano bovino e mudanças climáticas. “O metano faz parte de um ciclo natural do carbono. A pecuária pode ser parte da solução, quando os animais são manejados corretamente.”
Host dos programas “Em Defesa da Carne” e “Os Agronautas”, Lívia trabalha para tornar acessíveis debates que muitas vezes ficam restritos ao meio acadêmico. “Se não traduzirmos a ciência para o público, alguém traduzirá errado.”
Sua atuação evidencia que a disputa de narrativas sobre alimentação e sustentabilidade exige dados, responsabilidade e comunicação clara.
Quatro frentes, um mesmo movimento
Gestão produtiva, liderança institucional, ciência aplicada e comunicação baseada em evidências são dimensões interligadas de um mesmo processo de transformação.
Na fazenda, Luzanir reorganiza sistemas e implementa práticas sustentáveis.
Na esfera institucional, Stéphanie fortalece representatividade e dados.
Na ciência, Luciana conecta ciência, saúde e compartilhamento do saber.
Na comunicação, Lívia amplia o debate público e enfrenta mitos.
O avanço feminino na pecuária brasileira não é apenas uma questão de presença, mas de influência estratégica. O agro do presente e do futuro se constrói com tecnologia, dados, sustentabilidade e com lideranças femininas que atuam dentro e fora da porteira, nos laboratórios, nas instituições e no debate público, ampliando visões, perspectivas e criando um setor mais justo e equânime.