Durante anos, Luciana Haddad foi a primeira a chegar e a última a sair do hospital. “Eu nunca dizia não”, disse em entrevista para o portal My Minerva Foods. Em um ambiente majoritariamente masculino, ela acreditava que precisava fazer mais para ser tratada como igual.
A virada veio com a maternidade. “Eu só me dei conta de que falava sim para tudo quando eu tive filho.” A partir dali, o desafio, acompanhado de auto-cobrança, passou a ser outro: dizer não ou ao trabalho, ou ao filho.
Esse ponto de inflexão ajuda a entender a trajetória da médica especialista em transplantes que hoje soma quase 30 anos como pesquisadora, além de ser ex-presidente da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO).
Crescer em um ambiente masculino

Formada em cirurgia e depois cirurgia digestiva, Luciana iniciou a carreira em um cenário em que era a única mulher entre residentes. “Quase não tinha assistentes.” Ela relembra situações que hoje seriam inaceitáveis: comentários como “lindinha”, tentativas de proximidade física e frases como “vai chorar?”, reforçando a ideia de que mulheres seriam mais frágeis ou emotivas, eram recorrentes. “Coisas que se acontecessem hoje talvez não passassem sem uma denúncia.”
Quando começou, mulheres em posições de liderança eram ainda mais raras. “Temos visto cada vez mais, é importante trazer esse exemplo, mas ainda são minoria”, destaca ela.
Alta performancee limites
Para ser reconhecida, Luciana adotou uma estratégia clara: excelência máxima e alta disponibilidade. “Eu achava que era a única forma de ser considerada igual.” Isso significava assumir tudo. “Até abusaram de mim nesse sentido.” Com o tempo, percebeu que esse modelo não era sustentável. “Também temos que saber nos colocar e impor limites.”
Referências que mostraram que era possível
Entre suas inspirações está Angelita Gama, cirurgiã coloproctologista, pesquisadora na Universidade de São Paulo (USP), primeira médica-cirurgiã da América Latina a receber a medalha Bigelow, que homenageia cirurgião cuja trajetória representa uma contribuição de destaque ao progresso científico e ao ensino da cirurgia, além de ser a única mulher entre os 34 já premiados. Luciana acompanhou seus últimos anos de atuação e descreve a experiência como um privilégio.
Em casa, os exemplos também eram fortes: mãe médica, ativa profissionalmente, e avó professora, independente. “Eu já tinha essa visão de que não era fácil, mas era possível.”
Maternidade, geração e mudança cultural

Mãe de uma menina de 16 anos e um menino de 14, Luciana percebe diferenças geracionais. “Minha filha já nasceu nesse mundo onde as mulheres já se vêem diferentes, feministas, independentes.”
Ao mesmo tempo, Luciana Haddad reconhece a necessidade de educar os meninos diante de um “machismo estrutural” ainda presente. Para ela, a transformação passa por parceria: “Precisamos nos unir. Tendo homens como parceiros, não como inimigos”. Mas também destaca a importância das parcerias entre as próprias mulheres, indo na contramão de um histórico social em que as mulheres eram instigadas a competir e defender seus territórios. “Havia homens que diziam que não se podia ter mais mulheres na equipe.. Hoje trabalho com um monte de mulheres e é ótimo.”
Do hospital às redes: Luciana Haddad leva ciência às pessoas
Luciana segue atuando no serviço de transplantes do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, além da carreira acadêmica como professora e pesquisadora.
Nos últimos três anos, passou a investir na divulgação científica por meio do canal FalaLu no Instagram e no YouTube. A decisão surgiu durante a pandemia da Covid-19, quando começou a produzir vídeos explicativos e compartilhar nas redes sociais. Depois, ampliou os temas para atividade física, alimentação, hábitos de saúde e qualidade de vida. “Muitas vezes as informações estão aqui na Academia, mas se não virar algo que ajude a vida das pessoas, não faz sentido.” Para ela, a ciência é ponderada e precisa ser explicada com equilíbrio.
Uma mensagem para meninas
Ao falar com meninas interessadas na ciência, Luciana é direta: “É um universo apaixonante. Não existe tédio, não existe falta de desafios”. Como mensagem geral, ela é categórica: “Meninas podem fazer o que quiserem. O mundo é nosso cada vez mais.” Ainda há barreiras, mas, para ela, a união fortalece o caminho, e o desafio é combustível para ir mais longe.
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