Luzanir Luíza de Moura Peixoto não vê o pasto apenas como uma extensão de terra para o gado. Para ela, o solo é um organismo vivo que exige escuta, paciência e, sobretudo, método. Sentada no banco do carona da caminhonete, dirigida por sua filha Luísa que corta os obstáculos da estrada de terra em direção à fazenda São José, em Bela Vista de Goiás/GO, a psicóloga, artista visual e mestre em Educação contou ao My Minerva Foods um pouco da sua história, que passa por salas de aula e consultórios, mas que revelou a gestora que, há poucos anos, precisou trocar o giz pelas botas de cano longo sob o peso de uma sucessão forçada e dolorosa.
A história de Luzanir na agropecuária começou em silêncio. Durante três décadas, ela foi o que se define como “figura secundária”. Enquanto o marido, Donizete Peixoto da Costa, administrava os negócios fundados por ele nos anos 1980, Luzanir cuidava da formação das duas filhas e de sua carreira acadêmica. Tudo mudou com o falecimento precoce de Donizete em outubro de 2023. De um dia para o outro, o luto veio acompanhado de pressão: vizinhos, conhecidos e até supostos amigos da família sugeriam de forma velada que o melhor caminho para três mulheres sozinhas seria arrendar a fazenda.
Elas escolheram o caminho oposto. Luzanir assumiu as rédeas ao lado das filhas, Luana e Luísa Peixoto. “A mulher precisa deixar de ser secundária. Eu fui secundária por 30 anos”, afirma Luzanir.
“O agro precisa de pessoas responsáveis, e a mulher que deseja trabalhar no setor é capaz de assumir responsabilidade, com coragem e competência. Isso não depende de gênero”, complementa.
Choque de gestão: do varejo ao curral

Se Luzanir trouxe a bagagem intelectual e o olhar humano, sua filha Luana trouxe o pragmatismo. Ex-gerente de uma grande multinacional de varejo, Luana aplicou o rigor do compliance corporativo no dia a dia do campo. A primeira medida foi simbólica e higiênica: a remoção de 13 toneladas de ferro-velho acumuladas ao longo de décadas. O que para muitos era “história”, para a nova gestão era ineficiência e passivo visual.
A fazenda foi “virada de cabeça para baixo”. Luana instituiu uma regra de ouro: não entra um parafuso na propriedade sem nota fiscal. O fluxo de caixa, antes intuitivo, passou a ser gerido com ferramentas de gestão. O investimento em maquinário de ponta — colheitadeiras e plantadeiras modernas — surgiu como decisão estratégica para resolver a escassez de mão de obra qualificada e garantir que a operação não dependesse somente de “braços”, mas de processos.
O resultado dessa simbiose entre mãe e filha apareceu nos números. Sob o comando feminino, a Fazenda São José passou a produzir 15% mais soja do que na época do patriarca, e com um custo operacional reduzido. A eficiência foi tamanha que o imposto de sucessão (ITCMD), conhecido por desestabilizar o caixa de muitas propriedades familiares, foi quitado integralmente com o dinheiro herdado e com o valor correspondente a uma safra de soja.
Ciência e sustentabilidade: o gado como máquina de nutrientes
A inovação na São José não se restringe aos softwares de gestão. Luzanir aprofundou o uso do Sistema de Integração Lavoura-Pecuária (ILP), uma tecnologia desenvolvida pela Embrapa que permite o uso rotacionado da terra. No verão, a soja ocupa o solo; no inverno, o milho consorciado com braquiária — a chamada safrinha — garante a palhada para o plantio direto e o pasto para o gado.
A veia de gestora e cientista de Luzanir também brilha na economia circular. Ela deu continuidade a um projeto, implementado por Donizete em 2018, no qual os dejetos do gado confinado — esterco e urina — são misturados a pó de rocha e gesso agrícola e transformados em fertilizante organomineral. O ciclo se fecha: o que sai do curral volta para adubar a pastagem e a lavoura, reduzindo drasticamente a dependência de fertilizantes químicos importados.
“O boi é essa máquina maravilhosa… ele dá conta de me devolver o resíduo melhor que eu dei para comer”, explica a produtora. “Com a produção de fertilizante organomineral, abaixa o nosso custo, é sustentável e a terra fica melhor.”
Essa visão técnica é acompanhada por um projeto de educação ambiental. Luzanir refloresta áreas degradadas com mudas de frutos nativos do Cerrado, integrando a preservação à produção. A fazenda hoje é campo de estudo para a Embrapa e universidades, um laboratório a céu aberto onde os protocolos científicos são seguidos sem as resistências culturais comuns aos produtores mais tradicionais.
As práticas sustentáveis permitiram que a fazenda passasse a integrar o Programa Renove, iniciativa da Minerva Foods que reúne pecuaristas que adotam práticas agropecuárias regenerativas e de baixa emissão de carbono, preservando ecossistemas nativos. Em busca de fazer sempre o melhor, sua entrada no programa também é uma forma de agregar novos conhecimentos. Foi a partir do programa, por exemplo, que recebeu assistência técnica na reforma de áreas de pastagem degradas, contribuindo para elevar a taxa de lotação e melhorar atributos físicos e biológicos do solo.
A humanização contra o preconceito
O sucesso produtivo, no entanto, teve um preço social. Luana e Luzanir enfrentaram sabotagens sutis em alguns de seus círculos sociais. Houve tentativas de induzir técnicos ao erro para forçá-las a desistir do negócio. No ambiente rural, uma mulher jovem e solteira gerindo milhões de reais ainda causa desconforto. Luana relata um isolamento necessário para se preservar de fofocas e julgamentos morais que o pai nunca precisou enfrentar.
A resposta veio através do cuidado com as pessoas. Enquanto o mercado duvidava delas, os funcionários da fazenda tornaram-se seus maiores aliados. Luzanir melhorou as condições de moradia e os alojamentos, e instituiu uma logística de trabalho que respeita o descanso. O sistema ILP ajudou nesse processo, pois garante atividade produtiva o ano todo, eliminando a necessidade de demissões sazonais.
O futuro da Fazenda São José é desenhado com a precisão de quem sabe que a terra exige profissionalismo. Com recordes sucessivos de produtividade e a projeção de comercializar 1.500 cabeças de gado de alta linhagem, Luzanir provou que a sensibilidade e o rigor técnico são faces da mesma moeda.
Ao final do dia, quando o sol se põe sobre as lavouras de soja e o pasto, Luzanir não vê apenas o sucesso de um negócio. Ela vê o legado do seu esposo e de uma professora que ensinou a si mesma — e a um setor inteiro — que o gênero não define a competência, mas a forma como se olha para o horizonte. O agro brasileiro, cada vez mais tecnológico e sustentável, começa a ter, enfim, o rosto e a voz das mulheres que sempre estiveram lá, mas que agora decidiram assumir o palco principal.
Links de referência:
ILPF: produtividade, resiliência e renda no campo
Upcycling bovino: gado transforma recursos não comestíveis em proteína de alto valor
Esterco: do descarte a insumo agrícola e energia
Do boi, nada se perde: tudo se transforma