Por Prof. Dr. Marcos Fava Neves
Em viagens recentes à Irlanda e aos Estados Unidos, uma palavra me chamou a atenção nas gôndolas dos supermercados: proteína. Ela está nas embalagens, nas chamadas dos produtos e nas estratégias de marketing. Alimentos das mais variadas categorias passaram a destacar a quantidade oferecida como um importante atributo de valor.
Nos Estados Unidos, esse movimento ganhou ainda mais força com as Diretrizes Alimentares para Americanos 2025 – 2030, que reforçam o consumo de alimentos integrais e densos em nutrientes e incluem carnes, aves, ovos, pescados e opções vegetais entre as fontes recomendadas.
Olhando para as prateleiras e para essas novas orientações, fica evidente que existe um novo momento no consumo. E vale entender o que está por trás desse movimento, porque ele se conecta diretamente a algumas das principais cadeias produtivas do agronegócio brasileiro.
A força da carne bovina
A carne bovina é um bom ponto de partida para dimensionar essa oportunidade. A bovinocultura tem uma característica particularmente interessante: é capaz de transformar principalmente pastagens, mas também grãos, coprodutos agrícolas e outros recursos em alimento de alto valor. Ao mesmo tempo, gera produtos utilizados pelas indústrias de couro, biogás e biometano, alimentação animal, fertilizantes, cosméticos e produtos de limpeza, entre outras.
A dimensão econômica dessa transformação é enorme. Em 2025, a cadeia da pecuária bovina movimentou cerca de R$ 1,159 trilhão no Brasil. Foram produzidas 12,4 milhões de Toneladas Equivalente Carcaça de carne bovina (TEC) e as exportações renderam US$ 18 bilhões (cerca de R$ 94 bilhões na cotação atual), um recorde histórico.
É um exemplo bastante concreto de como transformar recursos disponíveis no país pode movimentar uma cadeia muito maior antes de o produto chegar ao consumidor. E essa lógica não se restringe à bovinocultura.
Soja e milho “andando”

Costumo brincar que frango e porco são “soja e milho andando”. A expressão vem de uma lógica bastante concreta: os dois grãos estão entre os principais componentes da alimentação de aves e suínos. Quando produzimos essas carnes, estamos também transformando parte dos grãos produzidos no Brasil em alimento de maior valor agregado.
Em vez de essa produção deixar o país como matéria-prima, ele pode seguir por uma cadeia produtiva que envolve fábricas de ração, genética, nutrição, sanidade, produtores, frigoríficos, processamento, embalagens, transporte e logística até chegar ao mercado.
O Brasil continua sendo um grande fornecedor mundial de grãos, mas consegue também processar parte do que produz internamente, movimentando outras atividades econômicas ao longo do caminho.
Os números ajudam a enxergar o tamanho dessa transformação. Em 2025, o Brasil exportou 5,324 milhões de toneladas de carne de frango, gerando US$ 9,8 bilhões (cerca de R$ 51 bilhões) em receitas. No mesmo período, embarcou 1,510 milhão de toneladas de carne suína, com faturamento de US$ 3,6 bilhões (aproximadamente R$ 18,8 bilhões).
Somadas à carne bovina, as receitas externas dessas três cadeias ultrapassaram US$ 31 bilhões (aproximadamente R$ 162 bilhões) em 2025. É um número que mostra a força que o Brasil construiu nesse mercado.
No caso específico de frangos e suínos, foram cerca de US$ 13,4 bilhões (cerca de R$ 70 bilhões) em receitas externas. Se, em vez das carnes, considerássemos apenas a exportação dos grãos utilizados na alimentação desses animais, estaríamos falando de algo na faixa de US$ 3 bilhões a US$ 4 bilhões (cerca de R$ 15,7 bilhões a R$ 20,9 bilhões na cotação atual). Os dados são da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) e da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC).
A diferença ajuda a materializar o ganho dessa transformação. Não se trata, evidentemente, de escolher entre exportar grãos ou carnes. Temos escala e competitividade para fazer as duas coisas. A oportunidade está justamente nessa complementaridade: continuar sendo uma potência agrícola e, ao mesmo tempo, ampliar a parcela da produção que ganha valor dentro do Brasil.
O valor fica no Brasil

Na bovinocultura, o efeito dessa transformação se espalha por diferentes atividades econômicas. Somente em insumos e serviços para a produção, a cadeia movimentou R$ 165,5 bilhões em 2025. A indústria frigorífica consumiu outros R$ 61,6 bilhões em embalagens, energia, logística e serviços. É a diferença entre olhar apenas para aquilo que sai pelo porto e enxergar tudo o que aconteceu na economia brasileira antes daquele embarque.
Olhando para o cenário global, estamos muito bem-posicionados. Somos o maior exportador mundial de carne de frango, temos posição de destaque no mercado internacional de carne suína e lideramos as exportações mundiais de carne bovina. Somente esta última já chega a mais de 175 destinos internacionais.
A essa força nas carnes soma-se ainda a produção de ovos, outra importante fonte proteica na qual o Brasil vem ampliando sua presença internacional. O resultado é uma plataforma diversificada, que combina disponibilidade de soja, milho e pastagens com produtores tecnificados, genética, sanidade, tecnologia tropical e uma indústria de alimentos preparada para atender mercados com exigências muito diferentes.
No longo prazo, o cenário continua bastante promissor. Crescimento populacional, urbanização e aumento de renda continuarão ampliando a necessidade de alimentos no mundo. Ao mesmo tempo, segurança alimentar e capacidade de fornecimento ganharam ainda mais importância nos últimos anos.
Manter essa competitividade exigirá eficiência e capacidade de acompanhar um mercado cada vez mais exigente. Mas o Brasil parte de uma posição privilegiada, apoiada em uma estrutura produtiva construída ao longo de décadas.
O novo momento desse mercado abre uma oportunidade que vai além do aumento das exportações. Se a demanda mundial por proteínas continuar avançando, acredito que estaremos diante de um cenário diretamente conectado a algumas das maiores fortalezas do agronegócio brasileiro. O próximo passo é transformar essa vantagem em ainda mais valor para o país.
- Dietary Guidelines for Americans 2025–2030. U.S. Department of Health and Human Services e U.S. Department of Agriculture.
- Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). Relatório Anual 2026. Dados consolidados da avicultura e da suinocultura brasileiras referentes a 2025.
- Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC). Beef Report 2026 – Perfil da Pecuária no Brasil
- DoutorAgro – Marcos Fava Neves. O Novo Momento das Proteínas e a Oportunidade ao Brasil.
Dúvidas mais comuns
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A proteína se tornou um atributo de valor central no mercado global devido às novas diretrizes alimentares, como as Diretrizes Alimentares para Americanos 2025-2030, que reforçam o consumo de alimentos integrais e densos em nutrientes. Esse movimento reflete uma crescente preocupação com saúde, nutrição e segurança alimentar, levando marcas a destacarem o conteúdo proteico em suas embalagens e estratégias de marketing como um diferencial competitivo.
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O Brasil é uma potência mundial em proteína animal, liderando as exportações globais de carne bovina (mais de 175 destinos), sendo o maior exportador de carne de frango e tendo posição de destaque no mercado internacional de carne suína. Em 2025, as receitas externas das três cadeias de carnes ultrapassaram US$ 31 bilhões, demonstrando a força e competitividade construída pelo país ao longo de décadas.
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A cadeia da pecuária bovina movimentou cerca de R$ 1,159 trilhão no Brasil em 2025, com produção de 12,4 milhões de toneladas equivalente carcaça e exportações recordes de US$ 18 bilhões. Além da carne, a bovinocultura gera produtos para indústrias de couro, biogás, biometano, alimentação animal, fertilizantes, cosméticos e limpeza, criando um efeito multiplicador na economia.
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A expressão refere-se ao fato de que frango e porco transformam soja e milho, principais componentes da alimentação animal, em proteína de maior valor agregado. Em vez de exportar apenas grãos como matéria-prima, o Brasil processa parte dessa produção internamente através de uma cadeia que envolve fábricas de ração, genética, nutrição, frigoríficos e logística, agregando valor e movimentando múltiplas atividades econômicas.
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Se o Brasil exportasse apenas os grãos utilizados na alimentação de frangos e suínos, geraria entre US$ 3 a 4 bilhões em receitas. Porém, exportando as carnes processadas, o país obtém US$ 13,4 bilhões em receitas externas. Essa diferença demonstra o ganho significativo da transformação de matérias-primas em produtos de maior valor agregado dentro do país.
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A cadeia de proteína animal gera impactos econômicos em múltiplos setores: na bovinocultura, apenas em insumos e serviços para produção foram movimentados R$ 165,5 bilhões em 2025, enquanto a indústria frigorífica consumiu R$ 61,6 bilhões em embalagens, energia, logística e serviços. Esse efeito multiplicador demonstra que o valor gerado vai muito além do que é exportado, beneficiando toda a cadeia produtiva interna.
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O Brasil combina disponibilidade de soja, milho e pastagens com produtores tecnificados, genética avançada, sanidade, tecnologia tropical e uma indústria de alimentos preparada para atender mercados com exigências diversas. Essa plataforma diversificada, construída ao longo de décadas, permite ao país manter liderança nas exportações de carnes e expandir sua presença em outras fontes proteicas como ovos.
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O cenário futuro é promissor, impulsionado pelo crescimento populacional, urbanização e aumento de renda global, que continuarão ampliando a demanda por alimentos. A segurança alimentar ganhou importância estratégica, posicionando o Brasil como fornecedor confiável. Manter essa competitividade exigirá eficiência e capacidade de acompanhar mercados cada vez mais exigentes, mas o país parte de uma posição privilegiada para transformar essa vantagem em ainda mais valor.