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Deficiência de ferro está entre as mais frequentes no mundo

Mesmo presente em alimentos comuns, como carnes, feijões, vegetais e sementes, quantidade ingerida de ferro é apenas parte da equação; combinações à mesa podem favorecer ou dificultar sua absorção.

Por Rafael Motta em 16 de setembro, 2026

Atualizado: 10/09/2026 - 11:22

Close-up de um prato com fatias de carne bovina, feijão preto, arroz e verduras — deliciosos alimentos ricos em ferro — sobre uma mesa. Ao fundo, quatro pessoas estão sentadas juntas, compartilhando uma refeição, sorrindo e conversando.
Imagem gerada digitalmente

O ferro está presente em alimentos comuns da mesa dos brasileiros, como carne bovina, feijão e vegetais verde-escuros. Ainda assim, sua deficiência permanece entre as carências minerais mais comuns do mundo, segundo o Manual MSD. O dado mostra que não basta saber quais são os alimentos ricos em ferro: pequenas escolhas do dia a dia podem tornar a alimentação mais inteligente e melhorar o aproveitamento do mineral pelo organismo.

Uma laranja depois do almoço, por exemplo, pode favorecer a absorção do ferro por ser fonte de vitamina C. Já o tradicional cafezinho consumido junto ou logo após a refeição pode dificultar principalmente o aproveitamento do ferro não heme, presente nos alimentos de origem vegetal. Em outras palavras, tão importante quanto selecionar boas fontes de ferro é saber como combiná-las. A capacidade de absorção do organismo e as necessidades de cada pessoa também influenciam os estoques do mineral.

A seguir, conheça as principais fontes de ferro de origem animal e vegetal e entenda como combinar os alimentos para favorecer o aproveitamento do nutriente pelo organismo.

Quais são os principais alimentos ricos em ferro?

O ferro pode ser encontrado tanto em alimentos de origem animal quanto vegetal. Carnes, pescados e frutos do mar estão entre as principais fontes de ferro heme, mais facilmente absorvido pelo organismo. Feijões, lentilha, grão-de-bico, verduras, castanhas e sementes fornecem ferro não heme, cujo aproveitamento é mais sensível à composição da refeição.

Isso não significa que seja preciso escolher apenas um dos grupos. Uma alimentação variada permite combinar diferentes fontes e aproveitar os demais nutrientes oferecidos por cada alimento.

Carne bovina e outras fontes de origem animal

Três bifes grelhados em uma tábua de madeira polvilhados com sal grosso, ao lado de uma tigela de salada verde com fatias de tomate e uma tigela pequena de molho de abacate picado sobre uma superfície escura — uma deliciosa combinação de alimentos ricos em ferro, perfeita para uma refeição saudável e saborosa.
Foto: Minerva Foods

A carne bovina é uma das fontes alimentares de ferro com melhor aproveitamento pelo organismo. Cortes magros podem fazer parte de uma dieta equilibrada e, quando combinados com leguminosas e vegetais, também ajudam a melhorar a absorção do ferro não heme presente nesses alimentos.

As vísceras, especialmente o fígado, concentram quantidades elevadas do mineral. Coração e rins também aparecem entre as fontes destacadas pelo Hospital Nove de Julho. Como são alimentos nutricionalmente concentrados, a frequência e a quantidade de consumo devem respeitar as necessidades individuais e, quando necessário, a orientação de um profissional de saúde.

Pescados, mariscos, ostras, sardinha e aves também contribuem para a ingestão de ferro. A quantidade varia de acordo com o alimento, o corte, a porção e o modo de preparo.

Feijão, lentilha e grão-de-bico

Vários tipos de leguminosas, incluindo lentilhas, feijões, grão-de-bico e ervilhas — alimentos ricos em ferro — estão dispostos em tigelas de madeira sobre uma superfície rústica, decoradas com raminhos de alecrim. Feijões e lentilhas espalhados decoram o fundo.
Foto: Yulia Furman / Shutterstock

Presente na alimentação cotidiana dos brasileiros, o feijão é uma fonte importante de ferro não heme. Lentilha, grão-de-bico e ervilha integram o mesmo grupo de leguminosas e ajudam a diversificar as refeições.

Como o ferro desses alimentos é mais influenciado pelos demais componentes da dieta, vale combiná-los com fontes de vitamina C. Feijão com carne e uma salada temperada com limão, por exemplo, reúne ferro de origens diferentes e elementos que favorecem seu aproveitamento.

Leia também: Carne bovina x feijão: qual ferro é melhor absorvido?

Vegetais verde-escuros

Um prato de salada verde fresca com espinafre, couve, salsa e brócolis — alimentos ricos em ferro — está rodeado por pequenas tigelas de molhos para salada sobre uma superfície clara.
Imagem gerada digitalmente

Couve, espinafre, agrião, rúcula, salsa e brócolis também fornecem ferro não heme. A presença do mineral, entretanto, não significa que ele será integralmente absorvido. Alguns vegetais contêm compostos que podem reduzir sua biodisponibilidade — isto é, a parcela que o organismo consegue efetivamente utilizar.

Por isso, o espinafre pode conter ferro e, ainda assim, não ter o mesmo aproveitamento da carne bovina. Incluir esses vegetais continua sendo importante, mas a composição da refeição faz diferença.

Castanhas, sementes e cereais

Uma tigela preta cheia de uma mistura de nozes torradas, incluindo castanhas de caju, amêndoas e amendoins — alimentos ricos em ferro —, decorada com uma pimenta seca, macarrão crocante e uma folha verde, colocada sobre uma superfície escura e texturizada.
Foto: Vinn Koonyosying / Unsplash

Semente de abóbora, gergelim e castanha-de-caju ajudam a ampliar as fontes de ferro na alimentação. Cereais integrais e produtos elaborados com farinhas enriquecidas também podem contribuir para a ingestão diária do mineral.

Esses alimentos não precisam aparecer apenas nas refeições principais. Sementes podem ser acrescentadas a saladas e preparações, enquanto castanhas podem compor lanches acompanhados de frutas.

Quanto ferro há em cada alimento?

A quantidade de ferro varia conforme o alimento e o modo de preparo. Em uma compilação do portal Tua Saúde, pertencente à Rede D’Or, fígados de frango e bovino aparecem entre as fontes de origem animal com maior concentração do mineral.

Alimento de origem animalQuantidade de ferro a cada 100 g
Fígado de frango cozido12,9 mg
Coração de frango5,96 mg
Fígado bovino grelhado5,8 mg
Ostras cozidas4,9 mg
Gema de ovo cozida2,9 mg
Carne moída cozida2,7 mg
Cordeiro cozido2,7 mg
Atum assado1,3 mg
Sardinha assada1,3 mg

Entre os alimentos de origem vegetal, destacam-se sementes, leguminosas, castanhas, cereais e derivados. Nesses casos, o ferro está na forma não heme, mais influenciada pelos demais componentes da refeição.

Alimento de origem vegetalQuantidade de ferro a cada 100 g
Espirulina28,5 mg
Semente de abóbora torrada14,9 mg
Cacau em pó13,9 mg
Semente de girassol5,2 mg
Aveia em flocos4,4 mg
Pistache4 mg
Pão de cevada3,86 mg
Grão-de-bico cozido2,9 mg
Pão de centeio2,83 mg
Noz2 mg
Feijão preto cozido1,5 mg
Lentilha cozida1,5 mg
Amendoim torrado1,3 mg

Fonte: Tua Saúde/Rede D’Or. Os valores indicam a quantidade de ferro total em 100 g de cada alimento.

A comparação por 100 g permite avaliar a concentração de ferro, mas não determina, sozinha, qual alimento mais contribui para a dieta. O tamanho da porção habitualmente consumida e, principalmente, a biodisponibilidade do mineral também precisam ser considerados. Além disso, alimentos como espirulina, cacau e sementes, por exemplo, geralmente são ingeridos em quantidades muito menores do que carnes, feijão ou grão-de-bico.

Outro ponto importante é o tipo de ferro presente em cada alimento. Nos vegetais, ele aparece na forma não heme, cuja absorção é mais baixa e variável, em torno de 2% a 20%. Já o ferro heme, encontrado nas carnes, apresenta taxas de absorção que podem chegar a cerca de 15% a 35%. Além disso, o ferro não heme sofre maior influência de componentes da refeição, como fitatos e polifenóis, que podem reduzir seu aproveitamento.

Na prática, isso significa que um alimento vegetal pode apresentar mais miligramas de ferro por 100 g e, ainda assim, não necessariamente resultar em maior quantidade efetivamente absorvida pelo organismo. Por isso, a análise nutricional não deve considerar apenas quanto ferro está presente no alimento, mas também a forma química em que ele aparece e o quanto o corpo consegue aproveitá-lo.

Como melhorar a absorção do ferro dos alimentos?

Uma refeição rica em ferro não é determinada apenas pela soma das quantidades presentes em cada ingrediente. Alguns alimentos favorecem o aproveitamento do mineral, enquanto outros podem reduzi-lo, sobretudo quando se trata do ferro não heme.

A vitamina C é uma das principais aliadas nesse processo. Segundo o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos, ela aumenta a biodisponibilidade do ferro não heme. Laranja, acerola, goiaba, limão, morango, caju, tomate e pimentão são algumas possibilidades para compor ou acompanhar as refeições.

Na prática, isso permite combinações simples: lentilha com tomate e pimentão; feijão com couve e uma fruta cítrica de sobremesa; grão-de-bico temperado com limão; ou carne bovina acompanhada de feijão e salada. A presença de carne, aves ou pescados na refeição também pode favorecer a absorção do ferro não heme presente nos vegetais e nas leguminosas.

Por outro lado, os polifenóis presentes no café e em alguns chás podem reduzir o aproveitamento do ferro não heme quando essas bebidas são consumidas próximas das refeições. Isso não significa que o café precise ser eliminado da alimentação, mas pessoas com deficiência diagnosticada ou maior risco podem receber orientação para separar seu consumo das principais refeições.

Cálcio, fitatos encontrados em grãos e cereais e alguns compostos presentes nos vegetais também podem interferir na absorção. Na alimentação cotidiana, porém, o objetivo não deve ser excluir grupos inteiros, e sim construir uma dieta variada e adequada às necessidades individuais.

Por que manter os estoques de ferro?

Essencial para a produção de hemoglobina e para o transporte de oxigênio pelo corpo, o ferro participa ainda do metabolismo energético, do funcionamento celular e da atividade muscular. De acordo com a nutróloga Luciane Osse, do Hospital Nove de Julho, o mineral também integra células musculares e é necessário para a formação de diversas enzimas.

Quando as reservas diminuem, podem surgir cansaço, fraqueza, dificuldade de concentração, falta de ar e queda de rendimento físico. Esses sinais não aparecem apenas quando já existe anemia: a deficiência de ferro pode começar antes de haver redução da hemoglobina.

A médica cirurgiã do aparelho digestivo, professora, pesquisadora e atleta Luciana Haddad resume esse papel de forma simples: “Pensa no ferro como um entregador de oxigênio para o músculo. Se o ferro diminui, o oxigênio não chega. E aí você pode ter uma sensação de cansaço muito antes de algum sinal de anemia.”

Um dos indicadores dessa fase é a ferritina, proteína que armazena o ferro e funciona como uma medida das reservas do mineral. Níveis baixos de ferritina podem revelar que os estoques estão se esgotando mesmo quando o hemograma ainda não indica anemia.

A interpretação da ferritina, entretanto, não deve ser feita isoladamente. Processos inflamatórios podem elevar seus níveis, e o diagnóstico costuma considerar outros exames e o histórico clínico. Se a deficiência avança e compromete a produção de hemoglobina, o quadro pode evoluir para anemia ferropriva.

Saiba mais: Seu treino não mudou, mas o ritmo caiu? A ferritina pode explicar

As necessidades específicas de ferro entre as mulheres

O risco de deficiência de ferro não é igual para todos. Mulheres em idade reprodutiva apresentam necessidades específicas devido à perda periódica de sangue durante a menstruação, sobretudo quando o fluxo é intenso. Com a eliminação de sangue, o organismo também perde ferro e pode ter dificuldade para recompor seus estoques entre um ciclo e outro.

No Brasil, estima-se que entre 40% e 50% das mulheres jovens apresentem algum grau de deficiência do mineral, de acordo com o Hospital Israelita Albert Einstein.

As necessidades também aumentam durante a gestação, quando o organismo precisa sustentar a expansão do volume sanguíneo e o desenvolvimento do feto e da placenta. Adolescentes, crianças pequenas, pessoas com dietas muito restritivas e pacientes com doenças que prejudicam a absorção intestinal também podem apresentar maior vulnerabilidade.